setembro 16, 2016

EM 5 GOVERNOS BREVES - olhar de relance (texto em revisão)

I - O GOVERNO MOTA PINTO (1978-79) Cinco governos a que pertenci, ao longo de cerca de sete anos. tudo somado. Breves... nenhum durou a legislatura. O primeiro tinha a particularidade de ser formado por independentes e era chefiado pelo Prof Mota Pinto - um dos chamados "governos de iniciativa presidencial". não menos constitucionais por isso. desde que o seu programa passasse no parlamento. O de Nobre da Costa foi objeto de uma moção de rejeição e caiu. O de Mota Pinto, não. Com eleições obrigatórias em Outubro de 1979, estava, de qualquer modo, destinado a durar cerca de um ano e foi ainda mais curto. Perante a ameaça de uma moção de rejeição, o Primeiro Ministro apresentou a demissão, simplificando o processo. Haveria, ainda, um terceiro governo nesta série, pois o Presidente Eanes decidiu designar uma outra personalidade para liderar um governo de três meses, cujo fim era apenas organizar eleições (embora tenha feito muito mais do que isso). E, corajosamente, designou uma mulher, Maria de Lurdes Pintasilgo. Depois dela, e já lá vão mais de 37 anos, não houve mais nenhuma. Os partidos continuam a ser, por cá, coutadas de homens. Thatcher e Pintasilgo, chegadas ao poder quase em simultâneo, fizeram história na Europa. Lideranças masculinas nos partidos, dão primeiros- ministros, no masculino, numa perfeita relação de causa e efeito. Em Portugal não surgirá tão cedo uma Theresa May... Quando me perguntam (perguntam frequentemente....) a razão porque escolhi a política, digo que não escolhi. Fui convidada pela circunstância de não pertencer a um partido - para onde vai quem quer fazer política. Entrei na aventura, que, como sabia, ia ser de curta duração, para marcar uma presença feminina num executivo quase 100% masculino, e por me ser difícil dizer "não" ao Primeiro Ministro, um amigo Coimbra, que admirava muito, e ao parceiro de equipa no Ministério do Trabalho, o João Padrão, um colega de curso (brilhantíssimo!). Hesitei. Ofereci-me como voluntária para a assessoria no seu gabinete, mas não consegui ser aceite nessa mais modesta, mas mais confortável posição (tinha prestado serviço nessa qualidade, desde os governos provisórios).Não queria ser chefe de ninguém, falta-me a paciência para esperar que outros façam, quando não fazem logo, logo. Enfim, não era essa a minha opção de vida - dar aulas na Faculdade ou pareceres num centro de estudos, na Provedoria de Justiça, fazia o meu ideal de presente e de futuro. Aí, melhor usaria o que a Universidade de Coimbra me ensinara, com tempo para o cinema, (quase todos os dias, pelas 18.00), o desporto nos fins de semana, as tertúlias de café. a música dos velhos discos de vinil. Em casa, tinha uma "governanta" maravilhosa, a Maria da Conceição Póvoas, que vinha de iguais funções, em casa de uma tia - avó. Ela e eu gostávamos muito de animais, partilhávamos os afetos de uma enorme cadela" serra d' Aire". Tinha visitas constantes da família e dos amigos do norte. Não me parecia que, na vida política houvesse lugar para tudo isso. Pior ainda, era a convicção de que o mundo do trabalho perderia uma executante suficientemente competente e o mundo da política não ganharia nada com a troca. À mistura com o receio de falhar havia, porém, uma boa dose de curiosidade de conhecer o "outro lado", o lado do "poder" - neste caso, muito relativo e garantidamente efémero. Foi, pois, por não saber dizer "não" que acabei Secretária de Estado do Trabalho. num Ministério que conhecia bem, Ali mesmo, no arranha-céus da Praça de Londres, no início de 1967. tomara posse como assistente do Centro de Estudos, cerca de um ano depois de ter terminado o curso de Direito, com a nacessária classificação (sem o que não teria entrada, pois a média de curso exigida era 16 valores - não bastava, como em Passárgada, ser amigo do rei...). Um lugar de boas memórias, onde tudo me era familiar, os assuntos, os problemas e até algumas das caras que via nos corredores. Apesar da mudança de regime, o que havia de bom no velho Ministério mantinha-se, a qualidade dos funcionários e dos serviços. Os dirigentes que tinham sido "saneados", em 1974, estavam já reintegrados por decisão do insuspeito Conselho da Revolução. Coube-nos dar-lhes colocação efetiva, pois os governos anteriores não o tinham feito - em funções técnicas, quase todos, para sua tranquilidade mais do que para a nossa, que estávamos ali para o combate, se fosse preciso. Quatro anos apenas depois da revolução, os gabinetes dos membros do governo eram pequenos, como mandava a lei - um chefe de gabinete, dois adjuntos, dois secretários, dois motoristas. E assim foi, enquanto estive nos Executivos, até 1987. Depois parece que as coisas foram mudando, com muitos e variados expedientes para recrutar "boys" e "girls", com vencimentos "à la carte", sem grandes limitações. Procurei compensar a minha falta de experiência com uma seleção de gente de superior qualidade. Um Conselho de "sages"... Resultou, pelo que recomendo a solução. Escolhi os dois adjuntos dentro da "casa" (uma mulher e um homem), trouxe para chefe de gabinete o Manuel Marcelino, colega do Serviço do Provedor de Justiça, uma sumidade na área do Direito Administrativo. As secretárias, formadas no ISLA, tinham longo "curriculum" de gabinetes. Uma equipa unida nos bons e maus momentos! E destes, houve alguns. Não tanto pelos conflitos sociais, negociações, greves... verdadeiros "braços de ferro", uma requisição civil, etc, etc. Com o "adversário exterior" lidávamos nós bem. Com o interno, nem tanto. Não foi sempre pacífico o relacionamento com o Ministro e o seu "staff". Vinham do sector privado, convencidos da sua incomparável eficácia. O ministro até era eficaz, muito melhor do que a "entourage" (ao contrário do que se podia dizer do meu, que, por sinal, era 100% "funcionalismo público"). A qualidade dos quadros do ministério acabou por convencer o Ministro Eusébio Marques de Carvalho - que fez lentamente a "estrada de Damasco" na Praça de Londres... Mais difícil de converter era o seu chefe de gabinete. Sempre se julgou o "chefe dos chefes de gabinete" dos Secretários de Estado. Ora não há vínculo hierárquico entre os gabinetes, embora haja entre o Ministro e cada um dos Secretários de Estado. Como explicar esta evidência a um homem que não acreditava nela? Foi impossível. Ingerência nos assuntos da "minha" gente eu não estava disposta a admitir - e não admiti. Dei inúmeras descompusturas ao senhor, que as ouvia, com resignação. Contudo, na primeira oportunidade, recomeçava a intrometer-se no trabalho do Marcelino. O João Padrão foi o maior obreiro da paz, naquele 16º andar da Praça de Londres! Era um homem encantador, com uns vivíssimos olhos azuis, um apurado sentido de humor e da relatividade das coisas. Muito inteligente, um diplomata e um grande amigo. Sempre que eu irrompia no seu gabinete, contíguo ao meu, a clamar contra um novo incidente e a ameaçar demitir-me, oferecia-me um café, desdramatizava, entre sorrisos e comentários divertidos, e, assim, em cinco minutos, reduzia a dimensão do caso e eu ia ficando. Era, essencialmente, uma questão de falta de "savoir faire" do reincidente, aliás, se não falasse, um homem agradável à vista, aparentemente um "gentleman". Como funcionária pública estava habituada a tratamento de excelência. Trabalhei sempre com "patrões" impecáveis, desde o Dr Cortez Pinto, educadíssimo ao Doutor António Silva Leal, um verdadeiro génio, que sabia de tudo (e muito de tudo, à maneira dos sábios medievais!), exuberantemente cordial, descontraído, sentava-se nas escadas do corredor, à nossa frente, a apertar os atilhos dos sapatos - "para que não tenham a tentação de me fazer ministro", explicava, entre duas sonoras gargalhadas. Depois da Revolução, na Universidade de Coimbra (onde tomei posse a 24 de abril), o Boaventura Sousa Santos, o Doutor Rui de Alarcão, o Doutor Mota Pinto. Em Lisboa, no Governo, Rui Machete, na Provedoria de Justiça, o Coronel Costa Braz, em meados de 1976, e, poucos meses depois, tendo ido o Coronel para o Governo, organizar eleições livres, o incomparável Dr José Magalhães Godinho - que foi, para mim, o último tio republicano, o mais próximo e o mais querido de todos. (Dos outros tios, os da família, não recordo conversas de teor histórico, porque era criança). O mesmo não diria do estilo "impaciente" de Eusébio Marques de Carvalho, tal como eu, em 78/79, "estreante" em lides governativas. Acabou por me influenciar mais do que todos os antigos e tão estimados "patrões", talvez porque as funções exigissem um determinado perfil mais executivo. O dele tornou-se. em verdadeiro "role model", nos anos que se seguiram... Por um espontâneo mimetismo, dei por mim a tomar decisões rápidas e a exigir execução pronta. Com o que, sem que fosse esse o meu objectivo, se construiu a imagem que dei para o exterior de "dama de ferro", à imagem daquele "homem de ferro". Imagem mais ou menos positiva, segundo a perspectiva do observador... Mas a ela devo, com certeza, o convite seguinte, para a pasta da Emigração. O tempo era de guerra, de afrontamento e contraditório, na aprendizagem da democracia. No MNE, guerra aberta com o Presidente. Numa das primeiras conversas com o Doutor Freitas do Amaral, no Palácio das Necessiidades, disse-lhe que já se murmurava pelos corredores que eu ía mudar tudo, que não deixaria "pedra sobre pedra". Ao que ele me respondeu que não me preocupasse, porque era um tipo de fama que não prejudicava a acção concreta. Talvez fosse "mais a fama do que o proveito", mas é verdade que parti para a inovação possível, embora mantendo tudo o que encontrei bem, nas práticas ou nas pessoas. Trabalhara os anos suficientes na função pública, ou com a função pública, para acreditar, até prova em contrário, que as pessoas estão nos seus postos para cumprirem as suas tarefas e não para fazerem espionagem ou contra-vapor, a mando de um partido, se o tiverem. Suportei, logo na primeira experiência governativa, uma enorme pressão para despedir uma secretária, a Ana, que tinha transitado do gabinete do meu antecessor, supostamente comunista. Era oriunda do quadro da Presidência do Conselho de Ministros e tinha-me sido recomendada pelo Secretário de Estado, Doutor Xavier de Basto, como muito competente. "Durante duas semanas fez de chefe de gabinete e de secretária, foi formidável, mas agora chegaram as pessoas que eu já tinha convidado e não tenho vaga para ela", dizia-me ele. (ali no alto da presidência do governo, também tinha de respeitar os limites quadro legal). "Ela conhece bem esse ministério, secretariou o seu antecessor". "Isso é que é pior" - respondi - "o Ministro não quer, por perto, ninguém dos anteriores gabinetes". O sigilo e a confidencialidade eram importantes, ali, onde se esperava conflitualidade, que veio a verificar-se. Contudo, como o meu amigo e professor de Coimbra, um homem particularmente perspicaz, a recomendava, contratei-a, de imediato. Mas, pouco depois, alguém a denunciou e foi-me sugerido o seu imediato despedimento. Recusei a sugestão, apesar do Ministro me prevenir, muito irritado: "No meu gabinete e no do Secretário de Estado do Emprego toda a gente é de absoluta confiança. Se houver uma fuga de informação é do seu gabinete. "Com certeza! Não vai haver problema!", tranquilizei-o. Isto é, não devo ter tranquilizado, mas, provou-se que tinha razão. Fuga de informação foi coisa que não houve. Nem o Ministro nem mais ninguém jamais suspeitou que a Ana também tinha sido secretária e tradutora do Vasco Gonçalves. Imagino a reação, se descobrissem isso... Eu sabia que ela era simplesmente dos quadros da Presidência, muito eficiente e despachada, completamente a leste das contendas políticas, que pouco a interessavam. Foi convidada por essa boa razão. Nunca fiz nomeações de pessoal vindo das profundezas dos partidos, nem para chefias de departamentos, nem para o gabinete. A excepção terá sido um ou outro caso, fora de Lisboa, onde não conhecia alternativa aos nomes que me indicavam. A paridade de género foi uma preocupação constante. Tive a sorte de encontrar, no fundo de uma gaveta, um anteprojeto enviado ao Ministério do Trabalho pela Condição da Igualdade e dei-lhe sequência imediata. Nomeei uma comissão, presidida por um homem (justamente para contrariar a ideia de que os homens não se devem preocupar com as chamadas "questões femininas", que são questões de direitos humanos, Escolhi, claro, o homem certo, João Caupers, grande jurista, bem pensante e capaz de cumprir prazos curtos, o que aconteceu, depois de terem ouvido sido ouvidas todas as entidades de uma longa lista de consultas, em primeira linha, sindicatos e associações patronais. E, assim, nasceu a CITE (Comissão para a Igualdade no Trabalho e Emprego). inspirada no "Ombudsman para igualdade" da Suécia e na trave- mestra da legislação sueca, que é o de assegurar, "em condições iguais, preferência ao sexo sub-representado na profissão". Aqui ainda não era possível ir tão longe. Assim mesmo, como surgiu, a CITE, com a sua composição tripartida (governo, sindicatos, associações patronais) foi, na altura, considerada "avant-garde", em termos de direito comparado. O projeto foi integrado, por vontade do Ministro (que nunca levantou obstáculo a estas minhas iniciativas), num muito mais vasto "pacote laboral". O governo caiu antes da sua promulgação e o seguinte, de Maria de Lurdes Pintasilgo, decidiu vetar o pacote, globalmente. Não desisti, falei com o meu sucessor, Ribeiro Ferreira, um dissidente do PPD - dissidência aparte, um político muito simpático, que eu conhecia do gabinete de Rui Machete - expliquei-lhe a singularidade do projecto, ele compreendeu a sua importância e tudo fez para o salvar . Conseguiu - o decreto-lei foi promulgado em pleno mandato de Pintasilgo, ainda com a assinatura de Mota Pinto. Todavia, nem todas as batalhas "feministas" foram ganhas. Foi impossível evitar Portarias de Regulamentação de Trabalho (PRT's), com salários de enorme disparidade para tarefas definidas como masculinas ou femininas. Esbarrei na oposição dos sindicatos, para além da dos patrões. Nada fácil, mas concretizada, foi a nomeação da primeira mulher para chefiar uma delegação distrital do Ministério do Trabalho (em Aveiro) e das primeiras mulheres Inspectoras do Trabalho, várias, de uma assentada. Encontrei algumas delas, anos e anos depois, numa vista que fizeram à Assembleia da República, talvez para participarem nalguma audição, não me recordo das circunstâncias. Procuraram-me para me dar notícias sobre as suas carreiras. A que vinha à frente disse-me logo: "Sabe, sou uma daquelas primeiras inspectoras, que nomeou". Estava em rota ascendente na carreira. Pelo visto, o Inspector-Geral, que era um juiz de carreira, não quis ser apenas condescendente com o poder político (feminino), velou, e muito bem, pala qualidade das escolhas. Isso, realmente, foi mérito dele, não interferi no processo. Gostei de as conhecer, quase uma década depois - O IV Governo fora tão breve, que não tinha tido essa oportunidade em 1979. A verdade é que às mulheres pioneiras se exige, quase sempre, mais do que aos homens, e que, para se moverem na política, elas têm, em regra, menos à-vontade do que eles. Eu contava-me na regra. Providencialmente, as funções de Secretário de Estado do Trabalho não tinham grande visibilidade mediática. Quem estava sempre em cena era o Ministro - situação ideal, porque eu preferia o trabalho de gabinete, detestava falar em público e dar entrevistas. Das poucas intervenções públicas a que não escapei, algumas incidiram sobre trabalho feminino. As audiências ficavam, por vezes, perplexas com o discurso da Secretária de Estado, que se assumia como "feminista" naquele particular governo, conotado à direita. Mas eu, crente e praticante do "verdadeiro feminismo", tal como o definia Ana de Castro Osório (nele abrangendo os homens bem formados e sensatos, preocupados com a valorização da metade discriminada da humanidade) passei, naturalmente, à acção concreta, com inteiro aplauso do Ministro, e do Primeiro Ministro, que, de mim, não esperava outra coisa. Dos "media" mantive distância máxima, com uma só entrevista grande, dada ao jornal "A Bola", sobre o caso mais escaldante, ou, pelo menos, mais badalado que me passou pelas mãos, a transferência de jogadores de futebol para o estrangeiro. Contra tudo e contra todos, autorizei a saída, sem restrições, por uma pura questão de princípios - no caso concreto, o princípio de liberdade de circulação. Considerava inconstitucional a PRT, que impedia a contratação para o estrangeiro dos jovens, que não tivessem um mínimo de idade e uma permanência de, pelo menos, três anos no mesmo clube. A meu ver, esta última exigência violava o "direito à emigração" de cidadãos, que eram jogadores de futebol, sem deixarem de ser cidadãos como os outros. Ora, se, por exemplo, um atleta fosse mudando de clube, dentro do país, não permanecendo em nenhum deles por aquele período de três anos, nunca poderia exercer a profissão fora de fronteiras. Foi o fim do mundo!...Uma espécie de antecipação da doutrina, mais tarde, estabelecida sobre o caso Bosman. Os jovens que beneficiaram da minha interpretação jurídica, eram, por acaso, do SCP, que vendeu os passes a um clube americano de Boston (os Tea Men?) por somas à época extraordinárias. O Keita, o Jordão e outros. Felizmente, não eram do meu clube. O FCP até estava contra, o Benfica também. Diziam os especialistas que tal abertura iria pôr em causa o futuro do futebol nacional. O despacho era conjunto com o Secretário de Estado do Desporto, mas eu mantive-me irredutível, com os meus argumentos juridico-constitucionais, e ele assinou, ainda que contrariado . E o caos, que se anunciava, não aconteceu. O Ministro deixou-me fazer a revolução, sem se intrometer. Era um desportista - corria todas as manhãs, antes do pequeno almoço - mas não creio que fosse um entusiasta de futebol. Deve ter gostado que eu fizesse frente à pressão dos poderosos do futebol. Era "linha dura" e muito corajoso. Teve, nomeadamente, a coragem de aceitar na sua equipa, na pasta do Trabalho, uma mulher, o que então surpreendia, mesmo na Europa mais progressista. Estive em duas ou três reuniões internacionais e os interlocutores perguntavam, invariavelmente: "É Secretária de Estado do Trabalho Feminino?". Quando respondia: "Não. Do Trabalho, globalmente", manifestavam espanto: "Tem a negociação com os sindicatos?" Confirmava e estranhava a estranheza deles, porque problema com os sindicatos pelo, facto de ser mulher, foi coisa que não aconteceu. Houve muitas greves em sectores chave - como o sector portuário, as comunicações... . mas contendiam com o patronato, ou com o governo, sendo para o caso indiferente que no governo estivessem homens ou mulheres. Mesmo sem querer e sem fazer nada demais - apenas o que era minha função, à frente de excelentes negociadores dos serviços do Ministério - ganhei uma aura de "resistente".. Apercebi-me de que tinha essa fama na primeira conversa com o Dr. Sá Carneiro. Quando argumentava que o pelouro da emigração era para especialmente difícil para mim, contrapôs: "Mas a Srª Drª foi Secretária de Estado do Trabalho!" (o tom era de quem considerava que aí residia um expoente máximo de dificuldade). Parece-me que achou que eu fazia humor, quando retorqui: "Oh, Não! Isso não foi nada de complexo! Lidava com questões jurídicas e técnicas, despachava tudo rapidamente, deixava a secretária livre de papéis ao fim do dia.". Era verdade. A política do governo era clara, não havia que enganar na hora da decisão. Os processos vinham bem instruídos. O Chefe de Gabinete escrutinava cada palavra, na dúvida os adjuntos, especialistas de Direito do Trabalho, davam parecer, avaliávamos em conjunto os dossiers mais controvertidos. Óbvio, a responsabilidade política era minha. Quando havia que falar aos "media", o Ministro lá estava, sempre pronto a isso. O que mais poderia eu desejar? Sá Carneiro, ao contrário de Mota Pinto, não me conhecia pessoalmente, não sabia da minha aversão a falar de improviso, para plateias, para jornalistas. Era óbvio que a pasta da Emigração obrigaria a isso, constantemente. E a viagens, também - e eu tinha medo de andar de avião. Bem! Aprendi que tudo isso só custa a primeira vez. A segunda já é rotina. Sem o meu feminismo, não teria havido uma primeira vez, para mim, na política, Protestava tanto contra a ausência de mulheres nos Governos, que não pude recuar, quando eu própria era convidada o cargo. Realmente, nesse tempo, mulheres no Governo eram raridade (antes, com Caetano,apenas uma Subsecretária de Estado, no domínio da assistência, Maria Teresa Lobo). Pintasilgo foi Ministra dos Assuntos Sociais nos Governos Provisórios. Maria de Lurdes Belchior, ocupou a pasta da Cultura, já não sei em que governo. Com Pintasilgo, Primeira-Ministra esteve Teresa Santa Clara Gomes... fez mais convites, que foram recusados, Vinham todas de fora dos partidos, das estruturas onde o poder se enraíza. O argumento usado comigo, em 78, foi poderoso: uma recusa deixaria o executivo sem rostos femininos... Um argumento de peso. Outro era a personalidade de Mota Pinto, um político diferente, que avançava com um sentido de missão - não só no discurso, mas na realidade - o primeiro declaradamente "não socialista" depois da revolução de 74. O ter resistido às pressões "da rua" (como então se dizia), o ter conseguido "governar", com firmeza, ainda que apenas durante nove meses, foi um grande passo na história pós revolução. Não há democracia sem a possibilidade concreta e concretizada de viragem, como a que Mota Pinto representou. Sá Carneiro haveria de salientar justamente a importância matricial da alternância democrática, no discurso de tomada de posse, reivindicando para o seu governo o título de primeiro governo de alternativa saído do sufrágio popular. O que era exacto, já que o de Mota Pinto, que fora anterior não resultara directamente do voto, mas de nomeação presidencial. Acredito, porém, que sem a experiência vivida ("ver para crer"...) que Mota Pinto protagonizou, a maioria do povo português não teria arriscado dar a vitória, aliás muito estreita, à AD, em fins de 1979. Os Ministros e Secretários de Estado do Prof Mota Pinto eram, quase todos, independentes da área social-democrata e seriam chamados para o Executivo da AD. Fui um caso, entre outros. A única mulher, óbviamente. E, por impulso, filiei-me no partido, que era ideologicamente o meu, tornando-me, assim, a primeira militante do PSD a integrar um Governo da República Portuguesa. --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- II O GOVERNO SÁ CARNEIRO (1980) Não conhecia pessoalmente Sá Carneiro até ao dia em que me convidou para Secretária de Estado da Emigração. Fui ao seu encontro às cinco em ponto de uma tarde do início de Janeiro de 1980. Cheguei um minuto antes, recebeu-me no minuto seguinte. Pontualíssimo, pelo que sempre me era dado ver: primeira impressão favorável, porque também sou. Veio à porta do gabinete receber-me, sorrindo: segunda nota favorável, porque sou adepta de "boas maneiras". Reparei no olhar intenso (intenso era o primeiro adjectivo que usaria para o descrever). A conversa foi inesperada. Para ambos, suponho. Para mim, certamente. Senti-me tão à vontade, que falei com ele como se o conhecesse há muito, como se fosse um dos velhos amigos de Coimbra. Sá Carneiro sempre cordial e bem-disposto - gostava, obviamente, de receber respostas do género "não, não posso ir para o Ministério dos Negócios Estrangeiros, porque ando sempre mal penteada e mal vestida". O que era visível, apesar do levar um casaco de peles, emprestado pela Branca Amaral. Tinha sido chamada por Sá Carneiro horas antes, sem tempo para ir a casa mudar de fato e estava com um casacão de tweed inglês, velho e "démodé"...). Com isso não se ralou, só quis foi saber se falava línguas, francês e inglês. Senso comum e pragmatismo, outras qualidades suas, que nem sempre possuem os líderes políticos. A certa altura, chamou à reunião o Ministro Freitas do Amaral, que, como Vice-Primeiro Ministro, tinha gabinete na Gomes Teixeira. Iria a trabalhar directamente com ele, na veste de MNE, no Palácio das Necessidades. A três, o tom do diálogo não sofreu alteração - mais parecia uma tertúlia! O Doutor Freitas do Amaral mostrava-se, igualmente, muito sorridente. Gostei dele, de imediato. E não é dizer pouco, porque como político, até então, não era propriamente um dos favoritos... Passaria a se-lo, ao longo desse ano, que foi o mais feliz da minha vida! Despedi-me de Sá Carneiro, com frases semelhantes às que tinham animado os momentos antecedentes: "Senhor Primeiro Ministro, por si faço tudo: vou de escadote colar o seu “poster” nas paredes. Vou de balde e pá pintar AD nas ruas. Tudo, menos ser Secretária de Estado! Deu-me o prazo de 24 horas, para decidir. Dali, fui, de imediato, pedir conselho ao Doutor Mota Pinto (pelo telefone, porque ele estava em Coimbra, não havia outra hipótese). Encorajou-me a aceitar. Depois, combinei um jantar com Rui Machete, que tinha sido responsável pela mesma Secretaria de Estado, por uns meses, antes de se tornar Ministro dos Assuntos Sociais, ainda nos governos "provisórios". Colaborei nesse seu gabinete, quando dava aulas em Coimbra, e de lá saí, por sua indicação, para assessorar o Provedor de Justiça, na área da segurança social. Um e outro - mais a Branca Amaral, cunhada do Rui e minha colega na Provedoria, que se juntou a nós ao jantar - me incitaram a avançar. Assim fiz, no dia seguinte, não sem repetir ao Dr Sá Carneiro que não me considerava à altura do cargo. Para que não restasse dúvida! Respondeu-me que não me preocupasse, porque assumia, por inteiro, a responsabilidade pela sua escolha. Penso que se apercebeu de que eu "queria e não queria" envolver-me naquelas tarefas, que estava interessada, mas insegura. Acompanhou de perto as minhas primeiras semanas de trabalho, com um apoio constante. Foi extraordinário! Telefonava-me para me dar informação sobre casos concretos de emigração, para me dizer como esta ou aquela das minhas iniciativas tinha resultado bem... Pretextos para me dar ânimo -e dava. Gastou comigo algum do seu tempo tão ocupado de primeiro-ministro, até ter a certeza de que estava à vontade... Pormenor significativo: não se servia, como é costume, de secretárias para mediarem as chamadas, ligava directamente para mim, e, às vezes, enganava-se no número directo e pedia às minhas secretárias para me passarem o telefone. Imagine-se a excitação delas, que tinham andado de gabinete em gabinete, ao longo de anos, sem nunca ouvirem a voz de políticos famosos, através do fio. Exemplo único e irrepetível. Um Sá Carneiro bem diferente do que preferem traçar para a história, muitos dos seus biógrafos. É o caso paradigmático de Miguel Pinheiro, que até começa bem mas acaba mal... Lamentável, porque recolheu larga bibliografia, e ouviu muita gente. Talvez gente demais - uma super abundância dos que perderam, no interior da "Nação PPD", todas as batalhas contra Sá Carneiro. Bem melhor é o texto de Maria João Avillez, numa neutralidade mais conseguida, face ao carisma do personagem. Ou José Miguel Júdice, que lhe era mais próximo. Júdice, a quem uma vez, num colóquio, ouvi dizer que Mota Pinto, à frente do IV governo Constitucional, foi uma espécie de São João Baptista, que anunciou aquele que havia de vir. Disse para comigo: "Il y a du vrai". Vi sempre Sá Carneiro, acima de tudo, empenhado em levar o país para patamares mais altos, acreditando que isso era possível, de imediato, sem períodos de transição. Caminhava em linha recta para os objectivos, vertiginosamente. Para mim, ele foi o “anti-Salazar” por excelência, na medida em que confiava tanto quanto o ditador desconfiava da capacidade dos portugueses para viverem em democracia, como os outros europeus do Ocidente. Toda a sua pressa, e o que chamavam perigoso “radicalismo” ou teimosia, eram a manifestação da vontade de pôr o sistema a funcionar democraticamente, sem tutelas militares ou outras, aceitando todos os riscos ".. No domínio particular da emigração, como no conjunto da governação, considerava essencial o fortalecimento da sociedade civil, o diálogo. Manifestação da ideia personalista, que animava o seu pensamento e que foi prática do seu percurso político. A criação de uma Assembleia ou Conselho de representantes das comunidades do estrangeiro era a grande novidade do programa da AD. O Conselho das Comunidades Portugueses (CCP) era, de algum modo inspirado no modelo francês, tal como os que, alguns anos depois do nosso, vieram a surgir na Itália e na Espanha, e, bastante mais tarde, na Grécia. Um órgão de representação específica dos emigrantes, destinado a completar a representação na Assembleia da República (então e ainda hoje apenas quatro deputados, eleitos nos dois círculos da emigração). No meu gabinete, toda a prioridade foi concedida à feitura do diploma, com a ajuda de deputados da emigração, sobretudo o Zé Gama, e de diplomatas, sobretudo o do Brasil, Embaixador Menezes Rosa. Foi ele mesmo que tomou a iniciativa de vir a Lisboa falar comigo. Quando viu o primeiro esboço de diploma ( que foi preparado pela Fernanda Agria e pelo Eduardo Costa, ambos excelentes juristas, que tinham sido meus colegas no Centro de Estudos, e por mim própria, os três felizes por nos vermos a preparar textos legislativos em "petit comité", como nos velhos tempos), considerou que não se adaptava a países onde o movimento associativo estava federado, realidade que, segundo ele, devia impor-se, quando da constituição do colégio eleitoral para o CCP. Objeção pertinente, a que outras se seguiram, porque o Embaixador foi solicitado para parecer, muitas vezes. Houve outros, mas não diretamente os dirigentes associativos, porque havia pressa (o CCP era a prioridade absoluta). Essa falta seria compensada com a consulta aos Conselheiros logo na primeira reunião, com vista a uma revisão legislativa conforme ao parecer da maioria. Os seja, o Decreto- Lei visava mais do que a consulta prévia, queria ser o instrumento de apelo à co-participação no processo legislativo e na construção fática da instituição. Estabelecia as regras para a eleição do órgão consultivo,delineava as suas funções principais, para pôr nas mãos dos eleitos aquelas tarefas fundamentais. Uma originalidade, sem dúvida. Durante os meses de janeiro e fevereiro a vida do meu gabinete esteve muito centrada no CCP. Depois de cumprir as formalidades de circulação entre os membros do executivo, depois de se ter respondido a várias sugestões e propostas de alteração, o texto final foi aprovado em Conselho de Ministros no dia 1 de Abril, na tentativa de realizar a primeira reunião no verão desse ano.. Porém, de Belém, tardava a promulgação. Em boa verdade, não se esperaria outra coisa. O Presidente da República General Ramalho Eanes aplicou-lhe o "veto de bolso" ao longo de cinco meses, só o promulgando em 12 de Setembro Foi a resposta natural ao facto de o Governo ter adiado o "Congresso das Comunidades", integrado nas comemorações camonianas cuja preparação estava em curso e a cargo de uma comissão constituída durante o Governo Pintasilgo e presidida por Vítor Alves. Camões ficou sem celebrações nacionais (mais e melhor foi lembrado no Brasil...) e Vítor Alves sem o Congresso que seria realizado por ocasião do 10 de junho de 1981, sob a presidência de um militante do CDS, coadjuvado (bastante mal, diga-se) por um secretário-geral do PSD, um sindicalista chamado Cabecinha, No esquema de Pintasilgo, ao Congresso se seguiria a institucionalização de novas formas de representação dos emigrantes. O Governo da AD avançava na mesma direção com um CCP formado por líderes associativos, à semelhança do "Conséil" francês, que, sendo pioneiro, serviu de modelo a todos os que vieram a surgir na Europa (o português, anos depois o italiano e o espanhol, muito mais tarde, o grego) Com as eleições legislativas em Outubro, e as presidenciais em Dezembro, tornava-se impraticável convocar o Conselho, de imediato .Ficou adiado para 1981, antecedendo em dois meses o também adiado Congresso das Comunidades. Entre as duas iniciativas não houve, porém, qualquer articulação, coisa verdadeiramente insólita, que se explica por ter sido marginalizada na preparação do Congresso, não só a Secretária de Estado, pessoa concreta, mas, o que é inexplicável, os serviços da Secretaria de Estado (embora não a rede diplomática e consular, lá fora, onde era preciso apoio para as reuniões preparatórias - de qualquer forma essa rede dependia diretamente do Ministro).Esta situação aberrante era impensável sob a liderança de Sá Carneiro e Freitas do Amaral, mas de 81 em diante, perdera-se toda a coesão da equipa, toda a dinâmica e harmonia que haviam reinado na AD (não me digam que as coligações partidárias não dependem essencialmente do entendimento pessoal entre os líderes, porque a minha experiência, o que os meus olhos viram, provou-me o contrário). Mesmo sem CCP (que teve de ser anunciado não como feito mas como projeto) 1980 foi um ano prodigioso. Sá Carneiro definia Portugal como “Nação de Comunidades" - mais uma “cultura” do que uma organização rígida, mais Povo do que território (são expresões dele, que me são, por vezes, atribuídas, só porque as repeti ao longo dos anos, citando-o sempre, é claro). Dizia que era preciso ajustar o Estado à medida da Nação, estabelecer a igualdade de direitos políticos entre residentes e não residentes dentro de fronteiras, privilegiar os laços de sangue, a ligação indestrutível dos expatriados ao país,apelar às segundas gerações, promover a sua participação real na vida coletiva. A chamada "lei. da dupla nacionalidade", a mobilização para o recenseamento eleitoral, a revisão das leis eleitorais discriminatórias, o reencontro pelo diálogo, não só com a emigração europeia, mas com a transoceânica, que, então, andava muito esquecida e era marginalizada nos programas da Secretaria de Estado, em todas as formas de apoio social e cultural e de cooperação com o movimento associativo, que era, neste contexto, uma prioridade. Uma coisa são emigrantes portugueses isolados, imersos numa sociedade estrangeira, outra são comunidades orgânicas, com a força das suas organizações e iniciativas culturais, que dão visibilidade ao país e um testemunho da sua presença. Foi em relação a esta realidade a que muitos chama "Diáspora" que a política deste Governo foi mais inovadora - até então tínhamos política de emigração, com o enfoque prioritário na vertente sócio-laboral e económica, mas as comunidades de cultura portuguesa andavam esquecidas, desde que o Prof Adriano Moreira as convocara para dois grandiosos Congressos Mundiais, em 1964 e 1967. A aproximação à "Diáspora" começara e ser feita, após o 25 de abril, nas comemorações do 10 de junho, promovidas pelo Presidente da República, mas o programa da AD era o primeiro a tratar em capítulos diversos as políticas de emigração e as políticas para as comunidades, através da institucionalização do diálogo com o movimento associativo e o acento posto nas questões culturais. Tal com eu as via, políticas de reencontro dos dois Portugais, que vivem um dentro e o outro fora do território, norteadas pela ideia da igualdade. Igualdade, também entre as emigrações, a mais antiga e a mais recente, a mais próxima e a mais distante, ou seja, entre a europeia e a transoceânica. Em Março fiz a minha primeira visita ao serviço dessa ideia. Comecei, naturalmente, pelas que ficam do outro lado do Atlântico: primeiro os EUA e o Canadá, de costa a costa. Mais de 20 dias, mais de 20 hotéis, de cidades, dezenas de associações, de paróquias, de escolas, de longos debates públicos, de entrevistas, de conferências de imprensa... Que tirocínio, para quem não gostava de exposição pública! Seguiu-se, em abril, a América do Sul, Brasil (de Manaus ao Rio Grande do Sul, com os seus grandiosos Gabinetes Portugueses de Leitura, Beneficências, Hospitais, Clubes desportivos, tudo à dimensão da grandeza do próprio país), Argentina (mais uma surpresa, os seus dinâmicos clubes) - . Depois, a Europa - França, Alemanha, Inglaterra, Ilhas do Canal, Luxemburgo, Bégica. O 10 de junho em Caracas, no monumental Centro Português, ainda na última fase de construção. Em agosto, obviamente, fiquei no país cheio de emigrantes e não parei um minuto, em colóquios e em festividades, de norte a sul - sobretudo a norte, no Minho e em Trás-os- Montes, de onde vinham, todos os fins de semana, os convites mais insistentes. Em Setembro, foi a vez do sul da África, de Capetown a Harare, M'Babane e Manzini. Nas viagens à América do Norte e à África, o José Gama, deputado do CDS, fez-me companhia - um precioso apoio, porque ele conhecia bem essas comunidades. Era uma simpatia e um orador excecional. Falava sempre, como manda o protocolo antes de mim, e deixava as audiências empolgadas, às vezes em lágrimas. E eu tinha bem a consciência de ficar longe do seu patamar, com um discurso comparativamente "chato", enumerando os diplomas que tínhamos em carteira, a Lei da nacionalidade, o livre acesso dos jovens às universidades,o CCP, o aumento da representação política, os intercâmbios culturais. Tudo dito num tom coloquial. De qualquer modo, as pessoas aceitavam-nos como éramos, guardo desta movimentação incessante boas recordações da hospitalidade lusa e dos contactos com os meus homólogos, e outras autoridades. Os encontros bilaterais eram, evidentemente, preparados pelos nossos diplomatas - e de forma muito dissemelhante: Em Ottawa, o Embaixador Góis Figueira organizou uma verdadeira cimeira, quase um dia inteiro de contactos com Ministros - Axworthy, que reencontraria, anos depois, no Conselho da Europa. mais dois membros do Governo, que não voltei a ver, e uma dezena de altos funcionários públicos das áreas da imigração, segurança social, cultura, Pelo meio, um almoço oferecido pela parte canadiana. Voltei à capital do Canada muitas vezes, mas nunca mais um diplomata português mostrou esta capacidade de interlocução com as autoridades do país. Nota 20... Em Toronto, fui recebida pelo Primeiro-Ministro do Ontário, pelo Mayor. Em Montreal pelo célebre Maire Drapeau, que convidou De Gaulle a falar na varanda, de onde este soltou o seu o grito de guerra "Vive le Quebec libre!", após o que foi convidado a regressar, prontamente a Paris. Em Conneticut, o Governador do Estado, os "mayors" das principais cidades - a aí fiquei a saber que há cônsules honorários com muito mais influência na sua área do que os de carreira. Era o caso do Dr Seabra da Veiga, uma sumidade como médico-cirurgião e professor, mais famoso no meio político e social americano do que na terra de origem , que, tal com a mulher Rita veiga, se tornariam meus grandes amigos.. Em Rhode Island, encontrei a primeira Cônsul, Anabela. Impressionou muito pela sua desenvoltura e espírito prático. Em vez de uma "limousine" levou numa espécie de grande "jeep", colocando toda a nossa bagagem atrás, porque à noite já tínhamos hotel e programa de encontros no vizinho Estado de Massachussets, mas em Providence cumprimos uma agenda cheia - audiência com o governador, receção oficial na Assembleia Legislativa, almoço com o primeiro eleito portugês, o Senador Castro, um homem muito alto e forte, jovial, caloroso. Em Boston e Harvard, acrescentámos aos contactos oficiais, visitas às Universidades, Em Brasília, as receções oficiais foram múltiplas, sempre marcadas pelo "charme" brasileiro - com ministros, congressistas, muito interesse dos "media".Em 1980, não havia praticamente, mulheres na política nacional e o exemplo que Portugal dava comigo causou sensação e fez notícia. Quem diria que, tão pouco tempo depois, o Brasil no ultrapassria, meteoricamente. com uma Presidenta, Governadoras e Prefeitas, nos principais Estados, congressistas (nota curiosa, a nível estadual, por onde começou a imparável ascensão feminina, as pioneiras foram imigrantes de nacionalidade portuguesa, ao abrigo do "tratado de Igualdade": a atriz Ruth Escobar, deputada na Assembleia do Estado de São Paulo e a médica Manuela Santos, Secretária Estadual do Governo do Estado do Rio de Janeiro).Na Venezuela, foram insignificantes os contactos oficiais durante a primeira visita, acantonada à emigração portuguesa por um embaixador político e pouco simpatizante com a AD, mas, felizmente, passei por Caracas, de novo, nas férias desse sonho, e o Encarregado de Negócio, Rosa Lã, supriu todas as omissões. Um dos muito encontros bilaterais, com o Vice-Ministro do Interior, Aristigueta- Gramco foi de crucial importância para a legalização de portugueses (maciça, mas muito discreta - a condição era mesmo essa, não a divulgar - 36 anos depois, posso, enfim,, falar disto... Na Argentina, também tive um "rendez-vous" com um simpático colega, na França, idem, com Stoléru, que não era, propriamente muito efusivo, nem muito aberto a justas concessões. na Alemanha, com interlocutores governamentais, por sinal, mais sensíveis às boas provas aí dadas pelos trabalhadores portugueses (os alemães são facilmente convencidos por factos e números, e a nossa Embaixada, sabendo isso, preparou "dossiers" convincentes, baseados em estatísticas alemãs. No Luxemburgo, a receção do governo foi fraterna, começando po. Jean Claude Juncker, até hoje meu amigo, e mais importante do que isso, um amigo dos portugueses. E até na África do Sul, as reuniões fora um sucesso - Sá Carneiro, em negociações com o Governo de então, só as permitia a um membro do seu governo - o responsável pela emigração. Sou muito direta, e, sempre que o ambiente o permite, informal e, por isso, as coisas correm particularmente bem, com políticos nórdicos, germânicos, "boers", que são mito diretos também e olham as mesuras e os floreados latinos com reserva. Ainda hoje recordo o espanto do Embaixador Coutinho a ver-me em discurso, para usar uma expressão do povo, "pão, pão, queijo, queijo", sobre problemas da nossa comunidade, com a melhor das recetividades... O meu interlocutor no governo era o Vice-Ministro Kotze, um homem enorme,de porte austero que me esperava, cortezmente, na sala VIP do aeroporto e se foi tornando mais e mais simpático à medida que a conversa fluía. À hora do almoço, que ofereceu à comitiva portuguesa (diplomatas, eu e uma adjunta, que era a minha única acompanhante) já mostrava um sentido de humor muito "british", e à volta da mesa, o embaixador Coutinho, homem encantador, mas sempre com o seu ar preocupado, era o mais silencioso. Enfim, só boas recordações do que aconteceu no eixo bilateral, mas lembro-me, sobretudo, da sensação de espanto e encantamento com que percorria este "outro Portugal" - mais intenso, mais afetivo, cheio de arraiais e procissões, de saraus, de música, de folclore, de caldo verde e bacalhau, de sessões solenes à portuguesa, e, também de muitos queixumes e justas reivindicações.. Quem visita comunidades, assim, uma a seguir a outra,num curto espaço de tempo e num largo espaço geográfico, pode melhor não só avaliar as suas diferenças, como constâncias - a primeira das quais, a fidelidade às tradições, o gosto pelas coisas portuguesas. No Brasil, a sensação estendia-se ao povo inteiro, Só a dimensão continental, os voos de seis horas dentro de fronteiras me trazia à realidade de estar num outro país, que não conseguia considerar estrangeiro. Não é figura de retórica, é verdade, no Brasil sempre me senti brasileira (possivelmente mais do que muitos compatriotas que lá estão há muitos anos...). Quando digo que 1980 foi o ano mais feliz da minha vida, refiro-me ao período que vai de janeiro até 4 de dezembro ...O desaparecimento de Sá Carneiro e de António Patrício Gouveia, um dos homens mais inteligentes e mais agradáveis que encontrei ao longo da vida (a quem, com grande frequência, contava as minhas histórias, a quem pedia conselho, porque era mais novo, mas mais sábio do que eu - tinha um conhecimento muito aprofundado do Ministério dos Negócios Estrangeiros e das suas particularidades, de início eu até julguei que fosse diplomata de carreira...). Uma tragédia, que mudou o destino do país. Tenho a certeza que com Sá Carneiro, tudo teria sido diferente. Alguém o imagina, por exemplo, a dizer que "Portugal é o bom aluno da Europa", a aceitar esse tratamento para um país quase milenário, de cultura universalista, face a países com pouca história e "pouco mundo"? Sá Carneiro fez falta ao nosso país, e não só - também ao sul da à Europa, à Europa inteira... -----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------III- O GOVERNO BALSEMÃO ( 1981 - convite e o "desconvite") Francisco Pinto Balsemão, um magnata da imprensa, um milionário lisboeta, com uma atitude na vida, um temperamento, um perfil político, que, muito mais do que a ideologia, o distanciava de Sá Carneiro. E, ao que se dizia, foi-se distanciando também no governo, enquanto Freitas do Amaral e Amaro da Costa se aproximavam, num relacionamento cada vez mais sedimentado na cumplicidade da colaboração quotidiana, no bom entendimento sobre as decisões a tomar e finalmente, na amizade. isto não era segredo para ninguém, nem mesmo para mim, que não pertencia ao "inner circle" de nenhum deles. Com Balsemão houve dissonâncias - as que se conhecem. ate por notícias dos media e outras menos mediáticas, de que me apercebi, por exemplo no caso do resgate dos pescadores portugueses em território "sarauí" (por sinal, levado a bom termo por um meu colega de Coimbra e grande amigo, Luís Fontoura). Terá sido, sobretudo, isto a provocar, dentro do PSD, a fratura entre Sácarneiristas (que queriam Eurico de Melo - o leal aliado e conselheiro do primeiro-ministro desaparecido - ou Cavaco Silva - seu ministro das Finanças - para a chefia do Governo) e Balsemistas, uma maioria do Conselho Nacional do partido. Venceu Balsemão, e a AD nunca mais foi a mesma, arrastou-se, penosamente, até meados de 83, com a morte anunciada. Tive um convite para continuar à frente da SEECP, formalizado pelo novo MNE Gonçalves Pereira. Pareceu-me de fraca intensidade, mas aceitei-o, por saber que Freitas do Amaral, com que tinha tido uma colaboração perfeita, fazia questão de ver prosseguido por mim, o trabalho iniciado, sobretudo lançamento do CCP. Na verdade, nesse e nos governos seguintes, tentei levar por diante a política de Sá Carneiro, sem Sá Carneiro. Faltavam meios financeiros, sobravam ataques pessoais, movidos de dentro do partido ( por um dos adjuntos do Secretário -Geral António Capucho - que não creio ter estado envolvido na campanha, diga-se - um Capitão Figueiredo Lopes, deputado da emigração, irmão de um Dr Figueiredo Lopes, excelente pessoa, colega de governos, com quem me dei invariavelmente bem), e um MNE me não me dava, nem de perto nem de longe, o apoio e a margem de ação, que tivera com Freitas do Amaral. Foi uma aprendizagem dura do que é a política sem amigos nem simpatizantes no Governo e no partido, duas frentes agitadas.... Aprendi, antes de mais, que é muito mais fácil fazer dupla com ministros de outros quadrantes partidários, que nos tratam como parceiros de coligação, do que com correlegionários, que nos tratam como subordinados...(casos em que qualquer pessoa que se preze e preze o cargo, tende para a insubordinação). Foi ótima a relação com Freitas do Amaral, CDS, e com Jaime Gama ,PS, menos agradável com Gonçalves Pereira (que, contudo, não era assim tão má e foi melhorando, dia a dia) e irremediavelmente conflituosa com Pires de Miranda (o mercador de petróleo, que, nos corredores do Palácio era mesmo chamado "o petroleiro).. Admito que eu não gozasse de geral popularidade nas vozes desses corredores, mas em comparação com Pires de Miranda ninguém ficava a perder... Tinha sido eleita, nas eleições de Outubro de 1980, deputada da emigração, cabeça de lista no círculo Fora da Europa, com José Gama. como nº 2. Podia, felizmente, contar com José Gama e com o apoio de muitos líderes das comunidades, que conhecera nos périplos do ano anterior, mas não era a mesma coisa... Na Europa, era acusada, num abaixo.assinado cheio de nomes dos principais dirigentes do PSD (a mando do tal Capitão, em quem alguns genuinamente acreditavam), por tudo quanto corria mal no governo - desde o ensino da língua à segurança social ou à falta de emprego. Mas esta parte, a do abaixo assinado contra a Secretário de Estado, publicitada nos "media" foi coisa de pouca dura. Bastou uma viagem à Alemanha (ao "olho do furacão") e tudo se esclareceu, porque era justamente matérias, que escapavam à decisão do Secretário de Estado da Emigração, que apenas podia servir de mediador face ao Ministro da Educação ou do Trabalho. O ataque pessoal redundava, pois, em ataque político feroz ao governo da AD, ínsólito da parte dos militante do principal partido do Governo. Quando expliquei isto de uma forma muito clara, o primeiro signatário pediu-me desculpa e essa campanha terminou ali - outras, muitas, futuras, seriam menos primitivas Gastava algum tempo a apagar estes fogos, mas, como é óbvio, ocupava a maior parte do meu tempo, a trabalhar no que importava mais - a execução do programa de co-participação nas política das emigração, a convocação do 1º CCP, o diálogo, dentro desse órgão, como fora dele, com as instituições das comunidades.... Sem organização, há portugueses dispersos, mas não há verdadeiras comunidades orgânicas, com rosto, com história e com destino. Por isso, estabelecer pontes com elas era a primeira prioridade - prioridade, sem dúvida inovadora. Visitas ao estrangeiro, sempre as houve, até durante o Salazarismo e o Marcelismo (que, note-se, lançou as primeiras estruturas de apoio, tanto aos imigrantes como ao associativismo, com o "Secretariado Nacional da Emigração)), mas sem o caráter central e a mobilização sistemática que marcavam o novo ciclo político. Uma visão bastante “institucionalista”, a minha, eu sei, sem prejuízo de reconhecer os direitos de cada cidadão face ao Estado. Todavia, mesmo os direitos individuais são, em geral, bem mais e melhor protegidos se houver estruturas para a afirmação colectiva, solidariedade, a parceria com os governos. Estes têm feito alguma coisa, mas muito pouco em comparação com a obra dos próprios emigrantes, em todos os tempos e em todo o lado, no Brasil, na França, na Austrália... O 1º Governo Balsemão foi o mais breve de todos aqueles em que estive em ação - sete meses e meio! Praticamente não pude ir a lado nenhum, porque o MNE achava sempre que não valia a pena sair, nem mesmo para as comemorações do 10 de junho... Limitei-me à Europa, para contactos com os meus homólogos, sobretudo com Stoleru, em França - e pouco mais. Mas, graças às pontes estabelecidas com o roteiro de visitas do anterior Executivo, e ao facto de ter conseguido realizar em Lisboa, em abril, a 1ª reunião do Conselho das Comunidades, fazendo História, trazendo ao País alguns dos principais personagens do mundo da "Diáspora", não houve lugar a lamentações. O maior feito foi ter resistido, num governo onde era "personna non grata" e conseguindo dar prossecução ao que fora começado em 80, não só o Conselho, mas o recenseamento eleitoral, a remodelação dos programas de televisão para emigrantes, novos apoios aos "media" das comunidades, cursos de verão para jovens, concursos musicais, ações de formação em folclore e jogos tradicionais (curiosamente com a ajuda de uma colega do colégio do Sardão, a Graça Guedes, que participara numa primeira iniciativa nesta domínio lançada por Vitor Alves - "les beaux esprits se rencontrent"...), visitas de emigrantes seniores ao lugar de origem - que, no fim da década de 90 o José Lello retomaria, num formato mais mediático, com o nome de código de "Portugal no Coração". Outro reencontro espiritual...Em 1981, umas largas dezenas de velhinhos eram escolhidos pelos consulados, de entre os que nunca tinham regressado à sua terra, e para lá seguiam com o apoio dos serviços locais da Secretaria de Estado, nas datas que individualmente escolhiam para a vinda e volta. Com aquele meu (longínquo) sucessor, chegavam em grupo, havia receção em Lisboa e, depois, excursões organizadas, que os "media" acompanhavam. findas as quais, suponho que seguiam para junto de família ou amigos. Enquanto eu permanecia no meu gabinete, e assistia a um "vai-vem" dos mais jovens, dos mais idosos, de funcionários enviados aqui e ali, pelo planeta, das Américas, à Africa e ao Oriente viajava a improvável dupla formada por Rosado Fernandes, catedrático de "Clássicas" e Cabecinha, o sindicalista mais "básico" que jamais encontrei (e encontrei muitos, numa escala de zero a vinte valores,,,). Em amplas reuniões preparatórias do tal "Congresso das Comunidades" de cuja presidência Victor Alves fora desapossado - retrospetivamente, reconheço que o "seu" congresso seria, com certeza, muito mais interessante do que o que aconteceu num hotel cinco estrelas de Lisboa por altura do 10 de junho. Basta dizer isto: os participantes eram muitíssimos e o tempo escasseava, pelo que o operacional, que dirigia os trabalhos, o António Cabecinha, achou por bem proceder a um rateio, que dava cerca de um minuto "per capite" . Gastava-se numa saudação, houve inúmeras, todas irrelevantes, naturalmente. Nenhum militar se lembraria de tal dislate... Para dar lugar a dois ou três "olás" de congressistas e para me distanciar daquele espetáculo absurdo, entrei muda e saí calada... Logo na abertura das sessões, Victor Alves, que era o representante do Presidente da República foi insultado. Depois, alguns congressistas, sobretudo num afrontamento Europa/Fora da Europa, insultaram-se uns aos outros. No CCP também isso esteve para acontecer, com guerrilhas de oratória entre a mesma geografia e as mesmas opostas ideologias, mas tudo se resolveu com paciência e diplomacia, garantindo-se aquele nível de diálogo e coesão que é imprescindível ao nascimento de uma instituição, saída do texto da lei para a vida das pessoas, O Conselho teve percurso acidentado, mas teve-o - com hiatos, roturas, recomeços - e continua de pé. O Congresso foi para uns, uma festa, para outros um oportunidade de contestação política, mas não teve "dia seguinte" (triste epitáfio....). Pinto Balsemão caiu poucas semanas depois, dentro do próprio PSD, num Congresso Nacional em que, para calar os "críticos" (nome da facção que se lhe opunha internamente, com Eurico e Cavaco à cabeça), se demitiu da presidência do partido e do Executivo, coisa nunca vista... uma espécie de "Brexit" ("wait and see"), em que "saiu sem sair" (até ver). Reassumiu as rédeas do partido, na semana seguinte e foi, de novo, chamado pelo PR a formar governo. O MNE Gonçalves Pereira transmitiu-me um convite do Primeiro Ministro para continuar com ele, porque tinha convencido um assaz relutante Balsemão a aceitar a minha presença nas Necessidades. Balsemão achava que eu pertencia, sigilosamente, ao grupo dos críticos... Não pertencia. Com Eurico e Cavaco nunca tinha tido nem sequer uma pequena conversa! Ficara pelo "bom dia" em poucos encontros casuais. Tratei, assim, de ultimar os preparativos de uma nova ida a Paris, para negociações com Stoléru. dei instruções ao gabinete para voltar a colocar os papéis dentro das gavetas, ... Na véspera da tomada de posse, o golpe de teatro: o MNE chama-me para me dizer que, afinal, Balsemão queria no meu lugar um homem de sua confiança política José Vitorino, um dos fundadores do PPD/Algarve, líder regional que pretendera o Turismo ou as Pescas, mas que aceitava a Emigração (isto é, ao contrário de Jacob, em vez de Raquel, aceitava Lia). O" desconvite", como lhe chamou, expressivamente, o semanário "O Tempo" de Nuno Rocha foi de bom grado acordado e, a pedido de Gonçalves Pereira entrei, de imediato em contacto com Vitorino, para lhe passar a pasta. Fui anfitriã de um almoço de trabalho num restaurante simpático, na calçada da Estrela, em frente ao lado sul do palácio de S Bento. Falei, falei... mas o meu sucessor mostrava um ar enfadado e, antes da sobremesa, interrompeu considerações sobre prioridades governativas para perguntar:"Que carro é que eu vou ter?" Não resisti a retorquir, com imensa satisfação: "Vai ter o carro novo, foi comprado há poucas semanas, mas é o carro mais barato que existe no mercado para Secretários de Estado" . Com cara de poucos amigos, nova questão curiosa: "Mas ao menos é preto?" Fiquei decididamente feliz por responder: "Não, é um azul, muito feio. Era o que havia" (tudo verdade - era o que havia em termos de modelos desatualizados do Peugeot 504, por essa razão "em saldo"). Vitorino tomou a minha escolha como uma espécie de ofensa pessoal, embora eu tivesse comprado a tivesse tomado, sem antecipar a queda do governo.... Nova interrogação, com semblante fechado: "Porque é que você fez isso? Resposta evidente; "Para poupar dinheiro do pequeno orçamento do Instituto de Emigração, de onde saiu a verba" (a compra carro era necessária, porque um motorista estouvado tinha destruído o magnífico Citroen "boca de sapo" que chegara até 1981, vindo do velho regime, do Secretariado Nacional da Emigração - com cerca de 10 anos de muito uso). ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- IV O GOVERNO MÁRIO SOARES/ MOTA PINTO - "Bloco Central" (1985/87) Seria o mais duradouro dos meus cinco governos - mais de dois anos, 26 meses. Assim era até aos dois governos de maioria de Cavaco (87/95), nos anos faustosos dos fundos de coesão da CEE, gastos em cimento e outros investimentos igualmente excessivos ou duvidosos, mas politicamente influentes qb. Pela 2ª vez, findo, de vez, o balsemismo, que me exilara no parlamento, integrava uma equipa governativa, pela mão de Mota Pinto. Governo de coligação PS/PSD, Mário Soares/ Mota Pinto. Dois homens que se entendiam bem, toda a turbulência que aconteceu vinha de dentro do PSD, não do relacionamento entre eles, Mota Pinto demitiu-se da presidência do partido (e, consequentemente) do governo, e os opositores, a ala que sempre se opusera ao "bloco central", a auto - intitulada "Nova Esperança", com Santana Lopes, Durão Barroso e Marcelo Rebelo de Sousa e outros menos proeminentes, como era, então, Passos Coelho - preparou-se para relançar uma aliança à direita, que viria a colocar Cavaco no poder, por muito tempo. O Governo não caiu, de imediato, continuou com Rui Machete, no lugar de Mota Pinto, Em boa verdade, caiu, depois do congresso da Figueira,até onde Aníbal e Maria Cavaco Silva foram rodar o carro novo, providencialmente, segundo reza a lenda. Mas isso seria na primavera de 85. No verão de 83. o resultado eleitoral e o estado das Finanças públicas na iminência de uma intervenção do FMI, obrigava os dois grandes partidos a um entendimento (o mesmo tipo de entendimento desejado no fim da era da "troika", ironia das ironias da vida política, pelos velhos opositores, do "bloco central" , como Cavaco ou Passos, para não falar dos outros... Eu estava com Mota Pinto, naturalmente, e com a absoluta necessidade de uma aliança o mais abrangente possível em tempo de crise, e , dentro do PSD fui sempre uma das suas mais ruidosas apoiantes. Mas, enquanto o Professor formava governo com Mário Soares, andava eu por longe, nas Américas, festejando a vitória do PSD no círculo onde fora reeleita, por larga margem, Entretanto, as notícias davam-me como Secretária de Estado da Emigração, mas ninguém me tinha contactado (talvez, porque á época, não havia telemóveis). Nas vésperas de regressar ao país, dei, em New Bedford uma entrevista à televisão e ao jornal Portuguese Times. Confrontada com as notícias que me davam de volta à pasta da emigração, neguei que tivesse sido contactada. Incrédulo de início, mas convencido pelo meu tom peremptório, o Diretor, que era já um amigo e confiava na minha palavra fez título de 1ª página com a notícia do meu não retorno ao cargo. na altura era a pura da verdade. Porém, mal aterrei em Lisboa fui chamada de urgência ao gabinete de Doutor Mota Pinto e convidada, de acordo com o que diziam, há muito, as agências noticiosas. Convidada. insistentemente. Em vão invoquei os argumentos para recusa - o meu sucessor deixara reduzir os orçamentos para ações, o que tinha gastara tudo no 1º semestre, fizera nomeações no estrangeiro, que seria impossível pagar sob pena de total paralisia dos serviços, suspendera, ilegalmente, as convocatórias do CCP . (a pretexto de proceder a uma reestruturação da lei, que não fizera). Tudo isso havíamos criticado na Comissão de Negócios Estrangeiros, onde a suspensão do funcionamento do CCP fora censurado, por unanimidade. O Doutor Mota Pinto não se deixou convencer - estava certo que eu encontraria soluções. Saí, pois, da Gomes Teixeira, a dizer que não e o Dr Mota pinto a achar que não, e, no dia seguinte, (dia improvável, um sábado), lá fui tomar posse e enfrentar as dificuldades. Não eram poucas...Consegui salvar a reunião mundial do Conselho, mas não muitas das nomeações de Vitorino, saídas possivelmente das hostes partidárias, onde a minha popularidade não terá sido nada favorecida. Em New Bedford, Adelino estava furioso comigo - com razão, embora sem culpa minha, que dissera a verdade - a notícia saiu depois de desmentida por factos supervenientes, precisamente à hora em que eu assumia funções. O ritmo dos acontecimentos vencera o "timing" da publicação. Ainda hoje, quando nos vemos, ou ele me fala disso, ou eu pressinto que isso está no seu pensamento. A minha grande prioridade, prontamente cumprida ainda em 1985, foi normalizar a vida do CCP, reativando os canais de contacto, promovendo as necessárias eleições e organizando a audição, nos termos da lei, foi a minha grande prioridade, inteiramente cumprida. A solene abertura, a segunda em três anos,realizou-se, com larga cobertura dos principais os órgãos de comunicação social, no Porto, Palácio da Bolsa - porque não porque não receber os representantes das comunidades do estrangeiro nas melhores salas de visitas, como é o esplendoroso salão árabe, deste Palácio? Já em 81, a escolha recaíra na bela sala dos espelhos do Palácio Foz para acolher a primeira sessão). Mas, enquanto, então, a polémica se centrará em questões de fundo, no Porto, a única nota dissonante registou-se no discurso do Ministro da Cultura, Coimbra Martins, meu convidado para presidir, simbolicamente. aos trabalhos, que criticou, azedamente, o luxo despropositado do local. Estranho conceito do direito dos cidadãos ao gozo do património construído. Pelo visto, queria levar aquela assembleia para uma "ilha" portuense (é como se chamam as "favelas" da cidade), ou para um pique-nique na ribeira do Douro. Já não me surpreendeu, mais tarde, quando lançou uma edição de livros de bolso para emigrantes, que começou com "A rosa do adro" - por essa altura, os meus serviços davam à estampa uma coletânea de literatura sobre a emigração, que seria continuada com dezenas de publicações, coordenadas, sucessivamente, pelas professoras catedráticas Maria Beatriz Rocha Trindade e Graça Guedes. Mas foi pena que Coimbra Martins se não tivesse mantido connosco. ao longo do resto da semana, porque os trabalhos prosseguiram nas simpáticas, mas comparativamente modestas instalações do INATEL da Feira, onde todos ficaram alojados, em regime de internato. Certamente teria aprovado! O encerramento foi presidido pelo Ministro da Educação, José Augusto Seabra, em Aveiro, num cenário mais austero embora com um discurso bem mais sumptuoso . Talvez devesse ter começado pela educação e terminado pela cultura... De qualquer modo, achei que era importante chamar ao convívio com os emigrantes os titulares das pastas, onde, essencialmente, se joga o seu futuro, com a compreensão de que o papel do Secretário de Estado da Emigração é sempre o de mediação dinâmica. No CCP, muitos haviam sido reeleitos, conheciam-se mutuamente - continuavam a afrontar-se, mas, no fim, havia sempre consensos no essencial, e o mais essencial era mesmo a vontade comum de cooperar dentro da instituição, cuja utilidade não punham em causa. Se era importante para eles, não era menos para mim, pois, quando estava de acordo, até das críticas mais contundentes tirava argumentos para convencer renitentes colegas de governo a resolver problemas nos seus domínios exclusivos. Penso (bem ou mal, subjetivamente), que o CCP é dispensável para todo o político que procure simplesmente manter o "status quo", numa aparência de progresso, e indispensável para o que queira, realmente, mudar as coisas e mudá-las em diálogo com as pessoas, através do levantamento de situações e da criação de novos meios de cooperação. Quem não hesite em fazer reivindicações dentro do próprio governo, só ganha em juntar à sua voz o coro de protestos do Conselho. Era o meu caso. Considerava, por isso, pequeno o preço a pagar por ataques desenfreados, que faziam manchetes em certa imprensa. Como, frequentemente, lhes respondia à letra, acabava por ver o lado lúdico das batalhas campais... Outras vezes,.tinha de acalmar ânimos e restabelecer a paz entre as hostes amplamente maioritárias, que me apoiavam, e eram "mais papistas do que o Papa", e os outros... Recomendações das mais relevantes, como a que criou os conselhos regionais, ou a que reclamou o voto nas eleições presidenciais, acabavam votadas por unanimidade. O jantar de encerramento foi, em 83, como fora em 81, uma festa de despedida de amigos. Lembro-me, sobretudo, de uma frase de um dos mais radicais representantes de França, um padre operário, que à saída me dizia, em tom de gracejo: "Há quem queira estar de bem com Deus e com o Diabo". Ao que eu, no mesmo tom ligeiro e amigável, retorqui: "Pois há, incluindo padres". Seletiva a nossa memória - não me lembro de mais nenhuma das palavras que disse nessa ocasião. O tempo era de crise económica, de intervenção externa e de austeridade, imposta com firmeza, mas também com inteligência e com resultados. O Ministro era Hernâni Lopes, não uma espécie de funcionário da própria "troika", de onde veio e para onde voltou, como Victor Gaspar... A "saída limpa" foi real, segui-se, não uma ameaça de colapso bancário, mas a era das "vacas gordas" de Cavaco Silva, com fundos comunitárias, que pareciam inesgotáveis. Porém, para os serviços da SE Emigração a diferença não se notou. Os orçamentos eram tão magro, que me tornei perita em fazer o que importava com pouco dinheiro... O melhor exemplo foi o do pagamento de uma promessa eleitoral do PS, que apontava para a criação de um Instituto de Apoio ao Regresso. Confesso que não tinha lido atentamente e lista de compromissos do outro partido, um vistoso pacote de "cem medidas para cem dias" e fui surpreendida por uma áspera crítica jornalística de que, ao fim desse prazo simbólico, era responsável direta pelo consumado incumprimento dessa medida em concreto. Falei com o MNE, Jaime Gama, e dispus-me a tratar do caso, naturalmente, de uma forma económica, compatível com a falta de verbas. *Para meu infinito espanto, deparei com uma invencível oposição do colega responsável pela reforma administrativa, que, estando empenhado em apresentar trabalho a fechar Institutos, não a abrir um novo, porque, mesmo com insignificante dispêndio de verbas, pesava nas estatísticas.... Por sinal, até era militante socialista, mas deixou-me sozinha a tentar honrar uma das cem medidas do seu partido. Na altura, ainda me senti escandalizada. E, por irritação e teimosia, em doses iguais, decidi levar por diante o projeto, para cuja feitura consegui o suporte técnico da OIT (mais para "português ver", porque as principais ideias saíram mesmo da nossa imaginação criativa). O Instituto era composto por um "Centro de Estudos" , (dirigido por um funcionário da "Casa", e dinamizado por técnicos também da "Casa", ou por académicos sem vínculo à Secretaria de Estado, em projetos muitas vezes protocolados com outras entidades, que até os subsidiavam...) e por uma "Comissão Interdepartamental", que reunia entidades públicas a nível regional (o ICEP, o IAPMEI, a CCRN, Câmaras Municipais). No Porto, por exemplo, a Comissão para o norte do país realizou, a custo zero, um trabalho esplêndido, contrariando, antes de mais, o preconceito de que as comissões não servem para nada. A OIT considerou as nossas estruturas de apoio ao regresso exemplares e usou-as como paradigma para outros países de emigração. O colega da reforma administrativa, ignorou-as, olimpicamente. Nunca consegui, claro, dar-lhes enquadramento jurídico, para além do meu próprio despacho. Foi do mesmo modo, informalmente, sem custos, que disseminei, um pouco por todo o país, as Delegações da SEE, algumas unipessoais, formadas por funcionários destacados ou requisitados, que prestavam serviço em instalações disponibilizadas nos Governos Civis ou nas Câmaras Municipais O mais difícil foi, de facto, abrir espaço para uma certa autonomia dessas Delegações, ou Delegados (todos voluntários, e, por isso, interessados nas matérias e nas pessoas, dedicadíssimos!), porque os dirigentes de Lisboa eram demasiado ciosos dos seus poderes - cenas a recordar o Sir Humphrey da celebrada série "Yes, Minister"... A primeira visita ao estrangeiro foi a Roma, para a 2ª Conferência de Ministros do Conselho da Europa responsáveis pelas migrações. Uma estreia absoluta em cimeiras internacionais, onde fui eleita, juntamente com Anita Gradin, da Suécia, vice-presidente da Conferência, e consegui (não sozinha, evidentemente, as coisas foram bem preparadas nas reuniões prévias de altos funcionários, pela Rita Gomes nomeadamente) que a seguinte fosse agendada para Portugal (como veio a realizar-se em 1987, ainda eu estava nas mesmas funções, embora já no termo anunciado de mandato, coube-me presidi-la na minha cidade do Porto, - um fim feliz e definitivo das experiências governativas). Levei à Conferência de Roma temas como o regresso de emigrantes e a dupla nacionalidade, contra a Convenção do Conselho da Europa de 1963, que só viria a ser revogada por novas normas em meados da década de 90, quando eu já era membro da Assembleia Parlamentar ( e pude aí continuar a longa luta...). No que respeita ao regresso levava um documento preparado pelos técnicos da Secretaria de Estado, em que se escrevia, afoitamente, "não há regressos significativos a Portugal". Depois que comecei a contactar, com grande frequência, emigrantes, dentro e fora do país - o que acontecia ou acontecia raramente com os funcionários - comecei a desenvolver pontos de vista próprios - a coisa que os "Sir Humphreys" mais temem nos políticos. Em matéria de regresso estava em total discordância com eles. Números nem eles nem eu os tínhamos. Mas eu tinha a vivência das aldeias, por altura das festas e romarias de verão e apercebía-me de que muitas das casas construídas com as remessas chegadas de Paris e outras cidades, já estavam habitadas ou em vias de o serem. E, em abono desta convicção, havia um estudo, realizado por um adido da Embaixada de França que, já nos inícios da década de 80, estimava em 150.000 os retornados às origens, a partir daquele país. Por isso,em Roma, não hesitei em cortar o "nâo" daquela frase, proclamando: "há regressos significativos a Portugal". Mais surpreendentes foram, para todos aqueles colegas, os comentários à lei da dupla nacionalidade. Uma evidência para mim, mas não para a maioria: a dupla nacionalidade favorece integração na sociedade de acolhimento, tanto ou mais do que a ligação ao Estado de origem, porque esta ligação é inquebrantável, nunca se perde e obsta ao pedido de naturalização, se este implicar a perda do estatuto de cidadania originário .De um lado, estavam os ministros da emigração, do outro, os ministros da imigração, vendo diferentemente a mesma realidade. Estava, sobretudo, lançada a dúvida criativa sobre a questão que levaria ao fim o dogma da uninacionalidade consagrado pela Convenção de 1963. Anita Gradin logo ali se ofereceu para organizar uma mesa redonda sobre a matéria, que veio a realizar-se em Estocolmo no ano seguinte. A controvérsia continuou, ao longo de inúmeras outras reuniões e mantém-se, mesmo depois de aprovada a nova Convenção sobre a nacionalidade. À reticência dos países do norte, junta-se a dos do leste europeu, não em razão de migrações recentes mas de antigas minorias étnicas que subsistem dentro de fronteiras... Uma Europa pouco convivial do que se julga, nas suas divisões ancestrais... A Conferência de Roma foi interessante a muitos títulos, um deles o de uma forte afirmação feminina, não só pela eleição de duas mulheres para a vice-presidência (a presidência vai por inerência para o país anfitrião), como da participação de várias outras, entre as quais se destacava a francesa Georgina Dufoix. Georgina e Anita, amigas e aliadas com as quais sempre pude contar - um apoio que foi importante para Portugal. Ambas eram mulheres de esquerda, daquela esquerda genuinamente generosa (como a esquerda sempre se vê, mas nem sempre é...). Estiveram sempre convictamente do lado dos imigrantes, Anita em palcos internacionais, como o Conselho, o OSCE, a Comissão Europeia. Georgina com uma fantástica carreira política no país de imigração mais importante para Portugal. Foi fantástico trabalhar com ela, num ambiente de total franqueza e confiança, nas muitas reuniões que tivemos, em Paris, Estrasburgo, Lisboa... A informalidade surpreendeu sucessivos embaixadores de Portugal em França - e o mesmo aconteceria na Suécia, nas conversas com Anita Gradin... era mundo da solidariedade feminina, onde imperava o pragmatismo, o entusiasmo em resolver problemas e, também, uma mesma visão das coisas. E as três, éramos (somos!) igualmente, feministas. Recordo-me de uma visita do 1º Ministro francês a Lisboa, com uma larga comitiva de Ministros, entre eles, naturalmente, Georgina. Estávamos nas vésperas de uma comissão mista luso-francesa sobre migrações e, por isso, Georgina e eu, depois do longo debate geral, reunimos, ao fim da tarde para tratar dessa agenda no Palácio das Necessidades, na simpática "sala dos Embaixadores". Resolvemos tudo o que havia para resolver nus escassos 15 minutos, em termos de planificação, de apreciação sintética das soluções viáveis para as principais questões a debater, uns dias depois, em Paris. À saída, Georgina comentou a diferença entre a nossa breve e produtiva análise dos dossiers, em comparação com as morosas e bem menos conclusivas negociações masculinas... Era bem verdade, mas devo acrescentar que, também com alguns homólogos masculinos tinha negociações diretas e francas, sem subterfúgios, compreendendo rapidamente até onde se podia ir, sabendo que contava com eles e com a sua simpatia para com os nossos emigrantes - o caso de Jean-Claude Juncker, no Luxemburgo, de Klaus Hug e de Hunzicker, na Suiça, de This, Secretário de Estado da Região de Bruxelas, e até também, embora numa relação pessoal de menor familiariedade, dos alemães da RFA, onde conseguimos alguns inesperadamente bons resultados no eixo bilateral - mais devidas, aí, ao trabalho técnico do Conselheiro Social, aos números, estatístas, factos, a que a mentalidade germânica, é, justamente, muito sensível... Não esqueço que no Luxemburgo e, sobretudo na Suiça, tudo começou também, não propriamente nessa Conferência de Roma, de boa memória, mas na diligência da nossa diplomacia. O quadro de contactos na Europa passava ainda por relações muito cordiais com os colegas britânicos, mas a emigração em Londres, que se distinguia pelo alta proporção de mulheres não era, então, tão problemática, logo, tão visível como é hoje. (o levantamento de questões sociais, contei, sobretudo, com os Conselheiros das Comunidades). Entre os países de emigração, a aproximação ficou, a meu ver, sempre aquém do desejável, certamente com a Espanha, a Itália e a Irlanda, salvo com o mais improvável e distante dos países, a Grécia, que mostrava especial interesse na avaliação das soluções por nós encontradas. Numa das várias visitas que fiz a Atenas, encontrei a então Ministra da Cultura, Melina Mercouri, responsável pelas politicas para os gregos no estrangeiro, fundamentalmente centradas no domínio da Cultura- e muito bem, a meu ver. Melina era uma mulher majestoso - é o mínimo que dela posso dizer. Um porte majestoso, mas o operacional era o Secretário de Estado. Pensando bem, de Portugal se poderia dizer outro tanto, com um ministro de porte menos impressionante, é certo. Os Secretários de Estado existem para isso! Fora da Europa, na RAS, excelente o trabalho da Embaixada (e de Mário Silva, que tinha mais contactos, em Pretória, com o Governo e Diretores-gerais do que qualquer dos nossos diplomatas - aliás, todos muito bons). O mesmo se pode dizer do Canadá, (primeiro com Góis Figueira, com o seu impressionante dinamismo, depois com vários sucessores), do Brasil (onde a boa relação Brasil Portugal atingia nota 20...) e da Venezuela (se esquecer, em 1980, o Embaixador político, que era mais político de oposição do que Embaixador - mas mesmo nesse ano, durante a sua ausência em férias, o jovem diplomata Rosa Lã, conseguiu as mais fantásticas, embora sigilosas negociações para a legalização de portugueses). Os EUA eram outro "modus operandi" - nada corria fundamentalmente, por Washington, onde nem valia a pena ir, mas pelos Estados, ou seja, pelos consulados - e, há que dizê-lo, até muito especialmente por grandes Cônsules honorários, como o Dr Adriano Seabra da Veiga, em Connecticut, e Edmundo Macedo, na Califórnia do Sul. Idem, quanto à Austrália, onde o melhor dos diplomatas era o Dr. Carlos Lemos, de Melbourne, embora muitos dos nossos sucessivos representantes em Camberra e Sidney fossem muito competentes, mas sucediam-se a ritmo acelerado, na média dos três anos, nunca se enraízaram - a rotação destina-se a isso mesmo... Em síntese: fui conhecendo, cada vez melhor, os factos e as pessoas. À medida que ganhava em experiência,ia, porém, perdendo nos orçamentos - uma coisa compensava, até certo ponto, a outra, mas muito mais teria conseguido com outros meios. Em qualquer caso, nunca fui fiz parte do alargado grupo de Secretários de Estado, que aceitam a pobreza de meios como uma fatalidade. Protestava sempre, dentro e fora de portas do Ministério, porque achava injusto que os emigrantes dessem tanto ao país, até materialmente, nas remessas, investimentos e benfeitorias, e recebessem tão pouco em retorno, apoiados por serviços de fundo da escala de prioridades do OE (orçamento de Estado). Em 81, no Governo Balsemão, tive companhia, nas queixas tornadas públicas - Bráz Teixeira, o Secretário de Estado da Cultura, de outra das pastas menos contempladas pela fortuna... Ele disse que o seu orçamento era "ridículo", eu disse que o meu era "vergonhoso". A minha adjetivação fez título gordo no Diário Popular e mereceu destaque, um pouco menos vistoso, em outros jornais. "Obviamente, demito-os", terá pensado o Primeiro-Ministro, quando leu a imprensa naquele dia. E, na primeira oportunidade, demitiu-nos. No meu caso, por uma dupla ordem de motivos, sendo a segunda a que já referi, a suposta pertença à facção dos "críticos" ou "rurais do norte". Claro, que mal saí do governo perguntei logo: "Onde estão os críticos?" e juntei-me a eles, para dar póstuma razão ao chefe do Governo. Braz Teixeira, o filósofo de quem eu gostava muito, tivera da política experiência que lhe bastava para o resto da vida. Voltou ao mundo de onde viera. Eu "aterrei" em São Bento até 1983 e, depois, regressei ao Palácio das Necessidades por mais quatro anos e tal, repartidos por governos de perfil diverso. Neste primeiro, recuperei autonomia face ao ministro (Jaime Gama), talvez por ser do "outro partido", no contexto de uma aliança, tal como a AD, vivida agradavelmente sem agruras por dentro, mas condenada, a prazo, pela oposição interna no PSD. Só na fase final, já sem Mota Pinto, este Executivo perdeu a unidade garantida pela harmoniosa diarquia que ele formava com Mário Soares. Sentia ter, de novo. a confiança plena das mais altas figuras do Estado. Foi um tempo de dias fastos, apesar da crise e da justificada austeridade Retomei as normais visitas às comunidades, de Paris ao Hawai e a organizações internacionais (Conselho da Europa, OCDE, CIM..), onde Portugal assumiu um "high profile". e pude ver o CCP fazer caminho, sem mais hiatos, ensaiar, pela força das maiorias, quando não dos consensos, novas configurações - com as reuniões regionais, uma Comissão Permanente, a aprovação, ano a ano, de um !programa cultural, a preparação de conferências temáticas, uma das quais sobre igualdade de género. Coisa que nunca houve no Conselho, bastião masculino, presidido, porém, por uma mulher (que era eu, por inerência de funções). E dele saiu, feita por uma das outras raras mulheres que aí tiveram voz, a jornalista Málice Ribeiro, uma proposta para a realização de um encontro mundial de mulheres emigrantes. Ninguém se opôs e eu registei a recomendação (a que tão pouca importância terão dados os relatores, que não a encontrei nas atas finais. Nem por isso a esqueci, e convoquei, como devia, essa espécie de "Conselho no feminino", que excedeu largamente as expetativas - as gerais e , até, confesso, também, as minhas... E foi a origem das políticas de emigração com a componente de género! (numa tese de doutoramento de um jovem académico luso-canadiano este é o feito que ele salienta dos meus vários mandatos. Surpreendeu-me - era coisa que, até aí, nunca tinha salientado! Não por desvalorizar as questões de género na emigração, mas porque não teve continuidade, durante duas décadas - até ao início dos "Encontros para a Cidadania", que, através da Associação "Mulher Migrante", propus a António Braga, em 2005, precisamente no 20º aniversário do pioneiro Encontro Mundial de Junho de 1985. Quando Mota Pinto, farto da guerrilha interna movida pela auto-intitulada "Nova esperança" abandonou a chefia do PSD e o governo, a coligação entrou, como disse, em plano inclinado irreversível. Creio que Rui Machete - um amigo de antes da Revolução, que muito admiro - estava mais próximo da Nova Esperança do que das posições do seu antecessor. Com a ascensão de Cavaco Silva, o destino da coligação ficava selado. Soares e Cavaco -eis uma dupla impossível... Estava eu em Cabo Verde, quando se deu a rotura oficial. De qualquer modo, essa viagem, a primeira a um PALOP, na área da cooperação, não da emigração portuguesa, que aí, então, não existia, foi um ponto alto da minha agenda: a descoberta de um povo fantástico, de uma perpetiva de outras migrações e de outras maneiras de ser lusófono. Correu, como dizem os brasileiros "bem demais"! Tudo: o encontro com o 1º Ministro Pedro Pires, as conversações sobre políticas globais de emigração, a assinatura de um acordo de segurança social, de primordial interesse para os Cabo-verdianos de Portugal, os contactos com cabo verdianos retornados, as visitas ao Mindelo, a Santiago e à Ilha do Fogo e até a vertente de intercâmbio cultural - levei comigo, a pedido do Embaixador Baptista Martins o grupo de fados de Coimbra de António Bernardino, que foi um sucesso retumbante (quem assistiu ao duplo concerto de Travadinha e Bernardino na ilha do Fogo, nunca esquecerá aquelas três ou quatro horas de música sublime, que acabou em ambiente de tertúlia. Por fim, até experimentavam os instrumentos musicais uns dos outros e cantavam em coro . Que belo fim de ciclo, ao som dessas violas, guitarras e vozes inegualáveis, em clima de que se prolongou até ao momento da despedida no aeroporto do Sal. A coligação rompeu, de vez, começou o processo eleitoral, que daria a vitória ao PSD, com menos de 30%. Nesse preciso dia estava em Lisboa uma delegação de luso-americanos da Assembleia e do Senado do Estado da Califórnia, a meu convite, intermediado pelo Cônsul- Geral Gabriel de Brito, também presente. Já tínhamos visitado o PR Eanes e a AR, o Porto e o Alto Minho (sempre incluídos nos roteiros dos meus convidados mais ilustres), e achamos interessante mostrar-lhes como se vive, em Portugal, uma noite eleitoral. Todos os partidos aceitaram recebe-los, visitamos, sucessivamente, as diversas sedes das campanhas eleitorais. Foi divertido! A minha presença causava espanto, nada mais, e como logo apresentava os americanos, tudo ficava claro. Eles estavam um pouco perplexos, achavam o ambiente muito mais morno do que na América. "Esperem até ver o quartel-general dos vencedores!". Era o PSD no Méridien. Aí se faziam a festa toda! A Delegação juntou-se à festa, é claro.------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- IV GOVERNO CAVACO SILVA (1985/87) Arrumar os papéis quando o 4º governo cessou funções foi uma mera formalidade. pois sabia que iria reocupar o gabinete no que se seguia. Mudava de ministro, não de programa, nem de "staff". Os princípios fundamentais eram ainda os do meu 1º governo, a vontade de o levar por diante, também. O CCP continuava no centro de um projeto de co-participação nas políticas para as comunidades do estrangeiro. A sua reunião mundial estava convocada para Porto Santo e Funchal numa data (11/17 de novembro), que mal me deu tempo de tomar posse. fazer as malas e partir para a Região Autónoma da Madeira. Alberto João Jardim presidiu à sessão de abertura, onde começou a agitação que marcaria esta reunião mais do que qualquer, sem, contudo, perturbar a sua agenda, debates, recomendações. A contestação vinha sempre do mesmo pequeno grupo de França, próximo do Partido Comunista. Desta vez, abandonaram os trabalhos, tomaram o avião de regresso e deram conferência de imprensa em Lisboa. O Governo, fosse ele bloco central ou do PSD minoritário era o alvo, muito personalizado no Secretário de Estado, é claro, invariavelmente eu - nenhum dos outros assinaria a convocatória do Conselho... até a ùltima seria assinada por mim na 25ª hora deste Executivo, e presidida pelo meu sucessor no 1º Governo maioritário de Cavaco Silva. Não podendo cancelar o processo em curso, Correia de Jesus cumpriria os mínimos: uma breve aparição e um discurso duro, a anunciar o fim dos tempos daquele forum ruidoso, o que teve por efeito pôr, enfim, todos os conselheiros do mesmo lado, a tentar, em vão, salvar o "seu" CCP, já irremediavelmente condenado à morte. A mim, o ruído da minoria nunca me preocupou. A maioria estava comigo, quando não, em muitas das questões relevantes, também a minoria. É assim que se vive em democracia, eventualmente em luta frontal. Não foi este o relacionamento que me preocupou, ou que me atingiu pessoal ou politicamente. Atingiu, sim, o próprio CCP. Tanto o 1º Ministro Soares, em 1985, como o 1º Ministro Cavaco foram alvo da desenfreada agressividade dessa minoria eminentemente parisiense, e detestaram a experiência, que tão pouco me afetava. Como diria Pinheiro de Azevedo era "só fumaça". Mal eu deixei o governo, o todo pagou pela pequena parcela de desordeiros políticos - Cavaco terá dado luz verde a Correia de Jesus para extinguir a injustamente mal vista instituição. No que me respeita, outras foram os relacionamentos que correram realmente mal e me fizeram perder a paciência e deixar, em Agosto de 87, não só o governo, mas também os círculos de emigração, pelos quais tinha sido eleita em 80, 83 e 85., Não o relacionamento com Cavaco, que fora próximo, dentro do núcleo dos críticos, e acabou sobrevivendo a dois longos anos de hibernação. Quando surgiram os problemas - muitos! - não o procurei, nunca, para lhe dar conta do que estava a acontecer. Nem sequer o fizera, antes, com o Doutor Mota Pinto, um amigo de longa data, durante as peripécias do 1º governo - acho que um Primeiro -ministro não se incomoda com questões menores, questões pessoais. Só falaria com eles em caso extremo, por exemplo, para justificar um pedido de demissão irrevogável. (irrevogável, mesmo...). Na verdade, o único Chefe de governo com quem falei, vezes sem conta, ao telefone, foi com Sá Carneiro - mas era sempre ele a tomar a iniciativa, para me encorajar numa determinada direção ou para me felicitar por uma ação concreta. para me dar ânimo - e foi espaçando as chamadas à medida que me via mais segura de mim. Por outro lado, é sabido que Cavaco Silva é um institucionalista, muito respeitador das hierarquias, e, para ele, Ministro era Ministro, e Secretário de Estado um mero adjunto. Vi-me, assim, isolada pelo parceiros do lado de lá do corredor, o Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, Azevedo Soares e o Ministro Pires de Miranda. Começaram, de comum acordo, por me esvaziar o orçamento (em mais de 200.000 contos, ao que respondi apresentando ao MNE um ultimato: ou a pronta restituição de, pelo menos, 100.00 euros ou a minha demissão. Na verdade, um corte dessa dimensão não permitia sequer o normal funcionamento dos serviços e deixava um zero para ações de apoio cultural e social... Miranda, o habil negociador de petróleo, percebeu que eu não estava a fazer "bluff", e os 100.000 euros vieram, atempadamente, das verbas do seu gabinete. Para compensar o "buraco" restante, cortei a contribuição da SECP nos protocolos com a RTP, que suportavam as emissões para a emigração (e que passara a recair sobre a tutela) e outras redistribuição de vultosos encargos (com a RTP e os noticiários da NP destinados aos "media" das comunidades se gastava, então, quase metade do orçamento para ações...).. Os colegas que tutelavam esses departamentos queixavam-se, mas eu não tinha alternativa (Fernando Nogueira e Marques Mendes, os principais prejudicados pela repercussão da minha crise orçamental no orçamento deles) foram mais solidários do que a equipa do MNE. Durante o período que durou o Executivo, o panorama, neste aspeto, foi negro, tornou tudo mais difícil, mas conseguimos, mesmo assim, cumprir as prioridades, nomeadamente o funcionamento do Conselho, que não é barato - o mesmo se podendo dizer de outros custos da democracia, caso dos processos eleitorais, da vida do parlamento .. Em 86, ano de reunião mundial parcelada por regiões, todas correram de uma forma dinâmica e construtiva, incluindo a da Europa, realizada na Alemanha, sem cisões nem confusões. As outras - a da África em Capetown, a da América do Sul no Brasil, Estado do Paraná, em Maringá, cidade geminada com Leiria, e a da América do Norte, no Canadá, em Toronto - pode dizer-se que corresponderam a expetativas bastante altas, e contaram, em todo o lado, com uma calorosa receção das autoridades locais, Governadores de Estado, Presidentes de Câmaras, Ministros. O Canadá não foi exceção e é de notar que aí, precisamente nesse ano, haviam sido proibidas as eleições e reuniões das Comissões de Emigrantes italianos, por serem consideradas órgãos oficiais de um governo estrangeiro.Na verdade, os seus membros eram eleitos por sufrágio universal dos recenseados nos consulados. Embora com funções consultivas semelhantes às do nosso Conselho, havia uma diferença fundamental, que jogava a nosso favor: o CCP era composto por representantes de associações, todas elas, como eu tive o cuidado de salientar nas conversas com às autoridades do País, pessoas coletivas de direito canadiano. E, assim, pudemos contar não só com a sua simpatia e compreensão, mas até com um grande banquete de encerramento oferecido pelo Ministro da Imigração do Ontário, Tony Ruprecht - que, a meu convite, e na companhia do dinâmico Cônsul de Portugal, António Tânger, tinha já visitado Portugal, de norte a sul, com passagem obrigatória pelos Açores. Todos os Conselhos consultivos existentes em países de emigração são instituições inspiradas no paradigma francês, que era inicialmente de natureza associativa, mas adotou o sufrágio universal na reforma de 1984, com isso influenciando os que foram criados posteriormente, o italiano, o espanhol e o português, na sua segunda vida, a partir de 1996/97... Na minha visão das coisas. para além da vertente consultiva , o CCP,era, também, um órgão representativo, um senado, uma assembleia onde os expatriados tinham voz e interlocutor (o governo), um instrumento insubstituível para o diálogo democrático, para políticas co-participadas. E por pensar assim, indiferente a alguma turbulência , geográfica e partidariamente localizada, coloquei sempre o Conselho num lugar central. E, não sei se bem ou se mal, procurei que fosse o que queria ser, por vontade dos Conselheiros, mais do que o que eu, como Governo, queria que fosse ( um forum voltado, em primeira linha, para a presença cultural,lusófona no mundo, como originalmente concebido no programa da AD e 80, e não como foi, uma organização focada, sobretudo, nas questões sociais da emigração. e. consequentemente muito partidarizada na Europa, embora hoje bem menos do que dantes.). É praticamente impossível ser uma coisa e a outra...e não era viável, por condicionantes orçamentais, suportar duas estruturas, cada qual com o seu universo e o seu denominador comum. Uma forma de alargar a interpenetração do Conselho a segmentos importantes da sociedade foi a criação de "conferências temáticas" a reunir na sua órbita - ensino e cultura, juventude, assuntos económicos. Um recomendação dos próprios membros, aceite, com aplauso, pelo governo, isto é, por mim, sem entraves ministeriais,. Aproveitei para lhe acrescentar um outra, em que aquele forum de homens não pensaria: a conferência para a promoção da igualdade de género, que daria continuação ao Encontro Mundial de 1985 e seria um verdadeiro "conselho no feminino". Por outro lado, para envolver todo o governo nas questões da emigração, foi instituída uma "Comissão Interministerial", olhada como um instrumento de apreciação e cumprimento das recomendações do CCP. Estávamos em 1987 - o governo caiu com um voto de censura na AR, e com ele, como disse, veio a cair o Conselho, as Conferências e muito do que tinham sido as políticas prosseguidas por governos de vários quadrantes( a pretexto de que Portugal deixara de ser um país de emigração,para se converter em terra de imigração logo depois da adesão à CEE. O que, se fosse verdade, entraria no patamar do milagre. .Não era. E. mesmo que tivesse cessado o movimento de saída. e. apesar do número significativo de retornos,que efetivamente se verificavam. nem por isso desapareciam do mapa de todos os continentes milhões de portugueses... O que aconteceu, com o nosso ingresso na CEE,, foi uma mudança qualitativa do estatuto de muitos dos portugueses emigrados nos Estados membros. Foi com eles que, pragmaticamente, me preocupei ao longo dos meses que durou este governo. Era preciso informar, dar condições de vivência efetiva do novo estatuto de cidadania. A campanha que desenvolvemos teve um caráter inédito, na medida em que solicitamos o apoio dos países de acolhimento para ações de divulgação conjunta. Com a chancela dos dois governos, preparámosIV GOVERNO CAVACO SILVA Arrumar os papéis quando o 4º governo cessou funções foi uma mera formalidade. pois sabia que iria reocupar o gabinete no que se seguia. Mudava de ministro, não de programa, nem de "staff". Os princípios fundamentais eram ainda os do meu 1º governo, a vontade de o levar por diante, também. O CCP continuava no centro de um projeto de co-participação nas políticas para as comunidades do estrangeiro. A sua reunião mundial estava convocada para Porto Santo e Funchal numa data (11/17 de novembro), que mal me deu tempo de tomar posse. fazer as malas e partir para a Região Autónoma da Madeira. Alberto João Jardim presidiu à sessão de abertura, onde começou a agitação que marcaria esta reunião mais do que qualquer, sem, contudo, perturbar a sua agenda, debates, recomendações. A contestação vinha sempre do mesmo pequeno grupo de França, próximo do Partido Comunista. Desta vez, abandonaram os trabalhos, tomaram o avião de regresso e deram conferência de imprensa em Lisboa. O Governo, fosse ele bloco central ou do PSD minoritário era o alvo, muito personalizado no Secretário de Estado, é claro, invariavelmente eu - nenhum dos outros assinaria a convocatória do Conselho... até a ùltima seria assinada por mim na 25ª hora deste Executivo, e presidida pelo meu sucessor no 1º Governo maioritário de Cavaco Silva. Não podendo cancelar o processo em curso, Correia de Jesus cumpriria os mínimos: uma breve aparição e um discurso duro, a anunciar o fim dos tempos daquele forum ruidoso, o que teve por efeito pôr, enfim, todos os conselheiros do mesmo lado, a tentar, em vão, salvar o "seu" CCP, já irremediavelmente condenado à morte. A mim, o ruído da minoria nunca me preocupou. A maioria estava comigo, quando não, em muitas das questões relevantes, também a minoria. É assim que se vive em democracia, eventualmente em luta frontal. Não foi este o relacionamento que me preocupou, ou que me atingiu pessoal ou politicamente. Atingiu, sim, o próprio CCP. Tanto o 1º Ministro Soares, em 1985, como o 1º Ministro Cavaco foram alvo da desenfreada agressividade dessa minoria eminentemente parisiense, e detestaram a experiência, que tão pouco me afetava. Como diria Pinheiro de Azevedo era "só fumaça". Mal eu deixei o governo, o todo pagou pela pequena parcela de desordeiros políticos - Cavaco terá dado luz verde a Correia de Jesus para extinguir a injustamente mal vista instituição. No que me respeita, outras foram os relacionamentos que correram realmente mal e me fizeram perder a paciência e deixar, em Agosto de 87, não só o governo, mas também os círculos de emigração, pelos quais tinha sido eleita em 80, 83 e 85., Não o relacionamento com Cavaco, que fora próximo, dentro do núcleo dos críticos, e acabou sobrevivendo a dois longos anos de hibernação. Quando surgiram os problemas - muitos! - não o procurei, nunca, para lhe dar conta do que estava a acontecer. Nem sequer o fizera, antes, com o Doutor Mota Pinto, um amigo de longa data, durante as peripécias do 1º governo - acho que um Primeiro -ministro não se incomoda com questões menores, questões pessoais. Só falaria com eles em caso extremo, por exemplo, para justificar um pedido de demissão irrevogável. (irrevogável, mesmo...). Na verdade, o único Chefe de governo com quem falei, vezes sem conta, ao telefone, foi com Sá Carneiro - mas era sempre ele a tomar a iniciativa, para me encorajar numa determinada direção ou para me felicitar por uma ação concreta. para me dar ânimo - e foi espaçando as chamadas à medida que me via mais segura de mim. Por outro lado, é sabido que Cavaco Silva é um institucionalista, muito respeitador das hierarquias, e, para ele, Ministro era Ministro, e Secretário de Estado um mero adjunto. Vi-me, assim, isolada pelo parceiros do lado de lá do corredor, o Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, Azevedo Soares e o Ministro Pires de Miranda. Começaram, de comum acordo, por me esvaziar o orçamento (em mais de 200.000 contos, ao que respondi apresentando ao MNE um ultimato: ou a pronta restituição de, pelo menos, 100.00 euros ou a minha demissão. Na verdade, um corte dessa dimensão não permitia sequer o normal funcionamento dos serviços e deixava um zero para ações de apoio cultural e social... Miranda, o habilíssimo negociador de petróleo, percebeu que eu não estava a fazer "bluff", e os 100.000 euros vieram, atempadamente, das verbas do seu gabinete. Para compensar o "buraco" restante, cortei a contribuição da SECP nos protocolos com a RTP, que suportavam as emissões para a emigração (e que passara a recair sobre a tutela) e outras redistribuição de vultosos encargos (com a RTP e os noticiários da NP destinados aos "media" das comunidades se gastava, então, quase metade do orçamento para ações...).. Os colegas que tutelavam esses departamentos queixavam-se, mas eu não tinha alternativa (Fernando Nogueira e Marques Mendes, os principais prejudicados pela repercussão da minha crise orçamental no orçamento deles) foram mais solidários do que a equipa do MNE. Durante o período que durou o Executivo, o panorama, neste aspeto, foi negro, tornou tudo mais difícil, mas conseguimos, mesmo assim, cumprir as prioridades, nomeadamente o funcionamento do Conselho, que não é barato - o mesmo se podendo dizer de outros custos da democracia, caso dos processos eleitorais, da vida do parlamento .. Em 86, ano de reunião mundial parcelada por regiões, todas correram de uma forma dinâmica e construtiva, incluindo a da Europa, realizada na Alemanha, sem cisões nem confusões. As outras - a da África em Capetown, a da América do Sul no Brasil, Estado do Paraná, em Maringá, cidade geminada com Leiria, e a da América do Norte, no Canadá, em Toronto - pode dizer-se que corresponderam a expetativas bastante altas, e contaram, em todo o lado, com uma calorosa receção das autoridades locais, Governadores de Estado, Presidentes de Câmaras, Ministros. O Canadá não foi exceção e é de notar que aí, precisamente nesse ano, haviam sido proibidas as eleições e reuniões das Comissões de Emigrantes italianos, por serem consideradas órgãos oficiais de um governo estrangeiro.Na verdade, os seus membros eram eleitos por sufrágio universal dos recenseados nos consulados. Embora com funções consultivas semelhantes às do nosso Conselho, havia uma diferença fundamental, que jogava a nosso favor: o CCP era composto por representantes de associações, todas elas, como eu tive o cuidado de salientar nas conversas com às autoridades do País, pessoas coletivas de direito canadiano. E, assim, pudemos contar não só com a sua simpatia e compreensão, mas até com um grande banquete de encerramento oferecido pelo Ministro da Imigração do Ontário, Tony Ruprecht - que, a meu convite, e na companhia do dinâmico Cônsul de Portugal, António Tânger, tinha já visitado Portugal, de norte a sul, com passagem obrigatória pelos Açores. Todos os Conselhos consultivos existentes em países de emigração são instituições inspiradas no paradigma francês, que era inicialmente de natureza associativa, mas adotou o sufrágio universal na reforma de 1984, com isso influenciando os que foram criados posteriormente, o italiano, o espanhol e o português, na sua segunda vida, a partir de 1996/97... Na minha visão das coisas. para além da vertente consultiva , o CCP,era, também, um órgão representativo, um senado, uma assembleia onde os expatriados tinham voz e interlocutor (o governo), um instrumento insubstituível para o diálogo democrático, para políticas co-participadas. E por pensar assim, indiferente a alguma turbulência, geográfica e partidariamente localizada, coloquei sempre o Conselho num lugar central. E, não sei se bem ou se mal, procurei que fosse o que queria ser, por vontade dos Conselheiros, mais do que o que eu, como Governo, queria que fosse ( um forum voltado, em primeira linha, para a presença cultural,lusófona no mundo, como originalmente concebido no programa da AD e 80, e não como foi, uma organização focada, sobretudo, nas questões sociais da emigração. e. consequentemente muito partidarizada na Europa, embora hoje bem menos do que dantes.). É praticamente impossível ser uma coisa e a outra...e não era viável, por condicionantes orçamentais, suportar duas estruturas, cada qual com o seu universo e o seu denominador comum. Uma forma de alargar a interpenetração do Conselho a segmentos importantes da sociedade foi a criação de "conferências temáticas" a reunir na sua órbita - ensino e cultura, juventude, assuntos económicos. Um recomendação dos próprios membros, aceite, com aplauso, pelo governo, isto é, por mim, sem entraves ministeriais,. Aproveitei para lhe acrescentar um outra, em que aquele forum de homens não pensaria: a conferência para a promoção da igualdade de género, que daria continuação ao Encontro Mundial de 1985 e seria um verdadeiro "conselho no feminino". Por outro lado, para envolver todo o governo nas questões da emigração, foi instituída uma "Comissão Interministerial", olhada como um instrumento de apreciação e cumprimento das recomendações do CCP. Estávamos em 1987 - o governo caiu com um voto de censura na AR, e com ele, como disse, veio a cair o Conselho, as Conferências e muito do que tinham sido as políticas prosseguidas por governos de vários quadrantes, a pretexto de que Portugal deixara de ser um país de emigração, e se convertera em terra de imigração. logo após a adesão à comunidade. Teria sido milagre, se fosse verdade, mas não era. E mesmo que tivesse cessado o movimento de saída (por sinal, em aumento relativamente à primeira metade de 80...),nem por isso desapareciam, subitamente, do mapa de todos os continentes, milhões de portugueses de primeira e segunda geração, nomeadamente na Europa. Com estes, os que continuavam a viver no nosso continente, nos preocupamos, de forma muito pragmática. Estávamos num período determinante para criar as condições de vivência efetiva do novo estatuto de cidadania. Era preciso informa-los. defender ativamente os direitos do estatuto de cidadania nos Estados membros da CEE. Fizemo-lo associando ao nosso esforço os governos dos países de acolhimento. Editámos pequenas publicações bilingues (ou multilingues), com a chancela dos dois países. Assim, serviam de orientação aos emigrantes e, se fosse preciso, eram oponíveis a qualquer serviço local, menos atento às mudanças da sua situação jurídica. Coisa simples, embora antes de nós, nunca tivesse sido tentada. Tudo o que não implicava gastos orçamentais, ia por diante, melhor do que antes - a experiência conta muito,e ia em crecendo a proximidade com os homólogos, em particular na Europa, do Luxemburgo ao Reino Unido, de Jean Claude Juncker a David Waddington, com organizações internacionais, Conselho da Europa, CIM, OCDE, OIT, com os responsáveis pela emigração nas Regiões Autónomas (Virgílio Teixeira, AJ Jardim, Duarte Mendes, Costa Neves), com o mundo associativo (que o CCP tinha por objetivo principal representar ), com os emigrantes e as mais dinâmicas instituições da chamada Diáspora. Multiplicavam-se as ações de formação, no teatro, no folclore e jogos tradicionais, na música, nos cursos de verão para jovens, através de protocolos com universidades, com a Federação de Folclore, com a cooperativa "Árvore" (foram várias as parcerias em exposições itinerantes, que atravessaram mares e continentes), as publicações de estudos sobre emigração portuguesa.Aprendi, certamente, a trabalhar mais com a força das solidariedades do que com dinheiro... Até as viagens às comunidades fazia assim, porque na TAP os membros do governo não pagavam bilhete, nem mesmo em 1º classe.... Bastava eliminar as comitivas, ou reduzi-las a um acompanhante, prescindir de despesas de representação e de hotéis de luxo, para que os custos se tornarem insignificantes. Luxo só na única viagem que realizei na comitiva do 1º Ministro Cavaco Silva, em visita oficial a Paris. Chirac foi a mais agradável surpresa dessa expedição. Não o apreciava nada e fiquei encantada, com a sua vivacidade, a sua simpatia, "bref", o seu "charme".Um político com quem me senti inteiramente à vontade, tanto para apresentar reivindicações sérias como para fazer conversa amena. A certa altura, perguntou-me: qual é o maior problema para a emigração portuguesa em França? Minha resposta imediata: "Agora que já somos parceiros na CEE, esperamos o fim dos pagamento dos abonos de família, feitos em Portugal, por montantes muito inferiores aos que são feitos aos portugueses no território francês . Logo ali, perante todos os presentes, garantiu: "Vou resolver isso!" Bernard Bosson, que era Ministro-adjunto dos Negócios Estrangeiros, e um grande amigo de Portugal, disse-me, quando tomávamos café, num recanto do grande salão da Embaixada, na rue de Noisiel: "Parece impossível, mas ele é bem capaz de cumprir a promessa, desde que o papel lhe chegue diretamente". Explicou-me como... Foi pena, mas não chegou....seguiu pelos canais costumeiros, onde encontrou os previsíveis obstáculos intransponíveis. O ponto baixo de uma visita oficial sem outro defeito foi o encontro com os portugueses, onde alguns conselheiros das Comunidades trataram o Primeiro Ministro de uma forma rede e incivilizada. No Governo anterior, o mesmo acontecera com Mário Soares, que ficou furioso e lhes respondeu civilizadamente, com palavras duras. Cavaco não lhes deu conversa (fui eu que disse o que tinha a dizer). Era o prenúncio da morte do Conselho. No Governo seguinte, eu já lá não estava para lembrar que aquela meia dúzia de "guerrilheiros" não representava o verdadeiro espírito da instituição. .O meu último mandato governamental terminou no dia 14 de agosto desse ano de 1987, num grande palco improvisado no feérico castelo de Santa Maria da Feira para o que seria também o último Festival da Canção Migrantes. Entre canções e abraços

setembro 01, 2016

O SISTEMA DE QUOTAS PARA A IGUALDADE - GÉNESE E LIMITES (a propósito do "caso Guterres") 1 - O sistema de quotas, como instrumento para a igualdade de género, nasceu nos países nórdicos, em meados do século passado - concretamente no interior do Partido Social Democrata sueco, por iniciativa de um grupo de mulheres, com Anita Gradin como porta-voz. Sou, há muitos anos, amiga da Embaixadora Anita Gradin, que foi Ministra dos governos de Olaf Palme, Presidente da Internacional Socialista de Mulheres, Comissária da União Europeia e ocupou um extenso rol de outros cargos cimeiros. Conhecia-a quando fomos, conjuntamente, eleitas Vice- Presidentes da Conferência dos Ministros do Conselho da Europa responsáveis pelas migrações, na cidade de Roma, em 1983. A nossa sintonia de posições no campo da igualdade, quer para os imigrantes quer para as mulheres, cimentou, de imediato, uma aliança em torno de causas comuns e uma amizade duradoura. Anos mais tarde, quando presidi, em Lisboa, à Comissão Parlamentar da Condição Feminina, convidei Anita para ir a São Bento falar do processo de implementação da paridade de género no seu país e, seguidamente, em muitos outros, à volta da Terra. Como aí nos contou, essa história não se fez sem resistência, dentro do seu partido, onde a coutada masculina das listas eleitorais para o parlamento era preservada com o argumento, ainda hoje corrente em Portugal, de que não havia mulheres interessadas, com o necessário "curriculum". A jovem Gradin levou à reunião decisiva, em Estocolmo, um "dossier", com dezenas de nomes de candidatas, todas detentoras de elevadas qualificações. Na realidade, mais qualificadas do que a maioria dos homens presentes. Surpreendidos, vencidos e convencidos, os líderes partidários tiveram de as aceitar e nunca mais houve um passo atrás. As regras da paridade, que visam garantir representatividade política equivalente às duas metades da Humanidade, mulheres e homens, continuam, porém, a ser, entre nós, objeto de suspeições e polémicas, por parte dos que não se apercebem que imposições semelhantes existem em outros domínios, desde tempos imemoriais, vistas como coisa natural e, por isso, tão invisíveis como o ar que se respira. Dois exemplos: a distribuição de deputados por círculos territoriais, em função do número de habitantes de cada círculo, ou a alternância da chefia das Forças Armadas, entre o Exército, a Marinha, a Força Aérea. Dentro do meu partido há quotas para comissões concelhias ou distritais, há quotas para jovens, há quotas para sindicalistas, mas para mulheres, nem pensar! Raríssimos eram os militantes que, até recentemente, as defendiam - Marcelo Rebelo de Sousa, Leonor Beleza, José Miguel Júdice, eu própria... Agora suponho que haverá mais, mas, para a maioria, as "quotas femininas" ainda são depreciadas como uma forma de promoção forçada, apressada e imerecida. 2 - Bem pelo contrário, eu julgo que se fundamentam na procura de uma legítima partilha do poder (entre os sexos, exatamente como entre as diversas regiões, ou entre ramos das Forças Armadas). Ou seja, na procura de um equilíbrio, mais moroso e difícil de atingir por outras vias. Inadmissível é, obviamente, a aplicação de um sistema de quotas, onde quer que, através de testes ou exames, com critérios justos e objetivos, se possa proceder à seleção dos melhores - como acontece no acesso à universidade, ao emprego, assim como à progressão na carreira, através de prestação de provas. A este respeito, parece-me paradigmática a legislação que criou (dessa vez, por iniciativa de um partido conservador), na sempre pioneira Suécia , o "Ombudsman para a Igualdade" , o "Provedor de Igualdade", na tradução portuguesa. Trata-se de um normativo baseado na ideia de combater a segmentação sexista do mercado de trabalho, dando preferência ao sexo subrepresentado em cada uma das profissões, em condições de igualdade de competência. Só nesse condicionalismo, há lugar à precedência de mulheres nas profissões masculinas e de homens naquelas que são predominantemente femininas. No campo da política, isto não é viável - não há barreiras que se vençam por realização de exames ou pela apresentação de currículos, de obra feita - manda, acima de tudo, a subjetividade, o espírito de grupo, o companheirismo, para não dizer o compadrio masculino. Na verdade, os partidos nunca se abriram espontaneamente às mulheres. Elas permaneceram de fora, excluídas da participação igualitária, mesmo depois de terem dado amplas provas das suas capacidades em quaisquer outros domínios, na vida académica e cultural, nas mais diversas atividades e empregos. A disparidade dos níveis de participação feminina na política face à registada nesses outros setores da vida em sociedade era um índice seguro de discriminação e deu aso a que o legislador interviesse, impondo regras vinculativas para a sua inclusão. As quotas foram e são, neste contexto, a meu ver, legitimadas por uma presunção jurídica de discriminação, que não admite prova em contrário. 3- A aplicação das quotas não é, pois, incompatível com a exigência de mérito, antes o pressupõe. E é, também, compatível com provas de seleção, onde elas sejam possíveis, desde que respeitem, em absoluto, o critério da primazia ou da igualdade de competências - como o comprova a experiência de muitas décadas do Ombudsman sueco, de que falámos.. A ver vamos se a ONU saberá, como deve, cumprir aquele critério fundamental no preenchimento do cargo de Secretário- Geral da Organização... Tendo o cargo sido invariavelmente ocupado por homens, estamos de acordo que a escolha de uma mulher seria o ideal - desde que ela se apresentasse em condições de igualdade, quando não de superioridade, em relação aos concorrentes masculinos. Mas isso, neste ano de 2016, de facto, não acontecerá! O melhor, muito melhor do que todos os outros, chama-se António Guterres, um homem nascido no sul da Europa, em Portugal. Demonstrou-o já, sem deixar margem para dúvidas, de uma forma brilhante e convincente, em três sucessivas audições para avaliação das candidatas e dos candidatos. Se viesse a ser preterido, teria sido discriminado em função do sexo, ou da origem geográfica ou de um qualquer obscuro e ilegítimo interesse, vítima de uma autêntica desvirtuação ou transmutação do sistema de "quotas da igualdade" em "quotas da desigualdade"... Seria uma vergonha para o ONU,e uma perda para o mundo.

agosto 11, 2016

SOBRE FUTEBOL: EM 2011

Destinava-se a ser publicada, em conjunto com outras, mas por razões de varia ordem, não chegou a ser publicada, Aqui fica arquivada É SABIDO QUE É ADEPTA FERRENHA DO FCP: A QUE SE DEVE? Ser do FCP é como ser do Porto e de Portugal. Terra-mãe, Nação, clube são parte de mim, ou eu sou parte deles, como queira... "Nasci no FCP", numa família portista - avós, pais, até tios e primos, quase sem excepções. Em linha recta, descendo de portistas desde a fundação do clube. E sempre tive paixão pelo desporto e, mais ainda, pelo futebol. O que eu sofri em criança, porque o FCP não ganhava um campeonato... tinha 13 ou 14 anos, quando conquistou o primeiro título, nas Antas, frente a uma Académica super-defensiva. Um autocarro negro à frente da nossa baliza. Depois, foi a festa inesquecível, todos abraçados, um delírio! Era a equipa de Yustrich, brasileiro de Minas Gerais, de ascendência alemã, um gigante com dois metros de altura, um ícone para a maioria dos adeptos, embora controverso - teve problemas com jogadores e directores do clube. Um dos meus primeiros heróis, por quem conservo, intacta, a fascinação, com pena não o ter conhecido pessoalmente. A última vez que visitou a cidade eu estava noutro continente. A minha vida itinerante, levou-me a perder muitas ocasiões imperdíveis, como esta... NUNCA ESCONDI O MEU CLUBISMO Julgo que quando existe é bom que se saiba, não há razão para esconder. Um deputado da emigração perguntou-me, ainda nos meus primeiros meses de AR, se isso não me seria prejudicial num círculo onde a maioria é, ou, pelo menos, era, largamente, benfiquista ou sportinguista. Respondi "não", porque as pessoas separam as águas. E, se assim não fosse, paciência, mas não renegava a identidade clubista. Duvido que tenha perdido um só voto por causa do futebol. Os emigrantes são mais abertos, frequentam associações ligadas a outros clubes, com eu frequentava, o Benfica de Toronto, o Lar dos Leões de Newark, sobretudo quando era presidido pela Maria João Ávila. Mas o futebol nem sequer pesa muito a nível local, basta pensar no caso muito concreto do Rui Rio : o confronto com o FCP de Pinto da Costa faz parte da estratégia de afirmação pessoal desse autarca. Parecendo que não, ele fez política com o futebol, em nome de uma espécie de superioridade intelectual e ética. e, apesar da cruzada anti-portista, ganha eleições no Porto, para além de ganhar boa imprensa em Lisboa. Isto também é aproveitamento do futebol, é uma parte da realidade, não a realidade inteira. O futebol pode, igualmente, servir, por exemplo, para aproximar homens e mulheres que a política divide. A primeira vez que isto se tornou evidente, na Assembleia da república, foi quando tivemos a ideia de festejar vitórias europeias do FCP, convidando para jantar no restaurante de São Bento, os principais dirigentes do clube. Por graça, alguém falou até de "grupo parlamentar do FCP", com deputados de todos os partidos. A mais viva recordação que me ficou desses convívios foi a dissertação da Natália Correia (portista "por afinidade", via Dórdio) sobre a simbologia do "dragão", parente próximo da serpente da antiga Lusitânia. Os deputados dos outros clubes "compraram" a ideia e estes convívios tornaram-se comuns - sem a mais valia dos discursos de Natália. É sempre simpático o clubismo dos outros, com fair-play - caso do Presidente Jorge Sampaio, que, na cerimónia de imposição de condecorações, quando me colocava a faixa da Ordem do Infante D Henrique me disse: "Está a ver, a sua condecoração até tem as cores do FCP!". E de facto, as cores da "Ordem do Infante" são o azul e o branco (mais uma faixa preta, que não conta, para este efeito...). Jorge Sampaio é especial, em tudo, um "gentleman" para usar uma língua que ele fala tão bem! Penso que a sua postura face ao futebol é a melhor: gosta sem complexos, tem clube coração (o SCP), não mistura política nessa relação afectiva e respeita as opções dos outros. A começar pela da Dona Maria José Ritta, que é algarvia e portista... FUTEBO E POLÍTICA O que é mau é usar as influências de um sector no outro - e infelizmente isso tem-se verificado, por vezes. Não pode evitar-se nem negar-se o facto dos políticos, quase todos, terem o seu emblema de clube, e o de a generalidade dos dirigentes ou adeptos de clubes terem uma bandeira partidária. Impróprio é usarem a sua posição num dos domínios para intervir no outro, dando apoios indevidos, aplicando, ou distorcendo, regras conforme conveniências. Com clara consciência disso, tive sempre uma grande preocupação da isenção, enquanto estava no Governo. Sou jurista e gosto de aplicar o Direito, a direito, como deve ser. A lei é para cumprir, mesmo que prejudique os meus, ou aproveite a outros. Foi o caso da emigração de jogadores do SCP (por puro acaso eram do Sporting), a quem, com um despacho, "abri" as fronteiras, em 1979, por pura convicção jurídica. FCP e SLB estavam na oposição. Foi a altura em que Séninho, do FCP também foi para um "all stars" americano, mas esse tinha idade e tempo de clube tal, como exigido pela PRT (portaria de regulamentação de trabalho), então em vigor, que eu considerei inconstitucional, por prejudicar o direito de livre circulação. Nas comunidades, tratava as delegações locais dos clubes da mesma maneira - são instituições das comunidades, como quaisquer outras, abertas e conviviais. Também não negava o mesmo apoio, se se tratasse do FCP - estive presente no seu histórico 1º congresso de delegações e filiais, que já incluía bastantes delegações do estrangeiro, embora muito menos do que actualmente. O futebol, tal como a cultura em geral, e o folclore em particular, é, na ligação dos emigrantes ao país, importantíssimo. E na relação com os PALOP's, se possível, ainda mais. Nesses países, o povo pode gostar mais ou menos da nossa selecção, mas é ainda parte integrante dos grandes clubes portugueses. São fiéis adeptos! É pena é que esses clubes não considerem prioritário aprofundar contactos. É pena que seja praticamente ignorada pelos governos esta vertente da cooperação. Opinião subjectiva, eu sei. Mas o futebol faz parte da minha vida e da vida de muita gente, com quem me identifico, milhões, por esse mundo fora. Os políticos que lançam um olhar snob sobre o futebol - e aqui são tantos! - não podem compreender isto... Fiz títulos de jornais, algumas vezes, quando respondi que ser do FCP e ser do PSD são coisas de diversa natureza - do clube sou desde o berço até à morte. Ao partido aderi depois dos 30 nos e pode não ser para sempre. Eco nos media tiveram também as "guerras" com Mota Amaral, a partir do momento em que ele resolveu sancionar com falta injustificada a ida dos deputados à final de Sevilha, como convidados do FCP. Na sua maioria nem eram do PSD, eram socialistas. Do PSD, que me lembre, só a Leonor Beleza e eu. Injustificou a falta, porque assistir a um desafio de futebol, não podia, segundo ele, ser considerado trabalho político. "Trabalho político" compreende, em regra, tudo o que deputado entender ser missão sua, enquanto parlamentar. Uma banal exposição, uma entrega de qualquer prémio numa Escola, a inauguração de uma rotunda de aldeia não costumam levantar dúvidas. Se calhar, até uma final europeia de futebol, com outro clube, também não levantava... Escrevi uma carta a dizer que o ser ou não "trabalho político" dependia das circunstâncias concretas, do propósito, do interesse da representação, avaliada pelo deputado, ele mesmo. E acrescentei um exemplo: se um deputado vai numa procissão religiosa, como peregrino, isso não é trabalho político, é devoção. Se for convidado pela Irmandade ou pela Autarquia, ou pelo Governo para estar presente, já pode merecer a qualificação de trabalho político. Segundo me disseram, Mota Amaral tinha feito uma deslocação "oficial" aos Açores, com comitiva e tudo, para assistir às festas do Senhor Santo Cristo. Não contestou a argumentação, mas manteve o "diktat". A final da "Champions", em Gelsenkirchen, no ano seguinte, serviu de segunda volta deste combate. Quando, no final, que o FCP ganhou por três golos, um jornalista lhe pediu um comentário, o José Lello, que nem é portista, respondeu: Porto 3, Mota Amaral, 0... Curiosamente, o comentário, tão bem achado, não foi dado à estampa... Depois de muito obstaculizar as celebrações portistas com as suas deslocadas interpretações regimentais, o Presidente da Assembleia da República não foi convidado para a inauguração do "Dragão" e o grupo parlamentar do PSD terá querido impor, por solidariedade para ele, a ausência dos seus deputados na cerimónia. Não sei ao certo, não estive nessa reunião do "Grupo" - mas noutra, mais plácida, algures no centro da Europa - com pena de perdido a discussão sobre o assunto. Os jornalistas, ao verem-me na inauguração, perguntavam-me, todos, se isso me iria causar grandes problemas. Respondi que não, que um partido democrático tem de permitir que cada um pense pela sua cabeça e decidir o sentido das suas solidariedades. E, se assim não fosse, entre o clube e o partido escolhia o FCP. Fui notícia, a letras gordas, no "Público"... SOBRE MOURINHO Não vou esconder que, no início, tal como, mais tarde, a maioria dos ingleses, achava Mourinho um pretensioso, com ar de galã de telenovela. Insuportável! Os ingleses converteram-se a Mourinho bem mais depressa do que eu. O braço de ferro (ainda que curto) de Mourinho com Vitor Baía retardou a minha "estrada de Damasco" em relação àquela divindade do futebol. Mas sei que aquando da final de Sevilha, já o considerava "especial". E não vou mudar de opinião. Torço por ele, onde quer que esteja, até mesmo no Real Madrid (horror dos horrores, o clube da capital das Espanhas!). Como toda a gente, reconheço que ele é genial enquanto treinador, como portuguesa agradeço-lhe a imagem de Portugal que projecta. No meio do cinzentismo geral dos nossos dirigentes, ele é absolutamente, gloriosamente exótico, turbulento, assertivo, convincente. Já não direi arrogante. O que noutro seria arrogância nele, é afinal, auto-confiança sustentada na excelência em estado puro. Quem mais poderia considerar-se o melhor do todos, com naturalidade, e ser, reconhecidamente, o melhor de todos? Os seus excessos fazem parte do "pacote" global... Assim Mourinho fascina o mundo - e me fascina a mim, também. Mas gostar, gostar, desde o primeiro minuto, gosto de Villas-Boas! No caso dele, ao reconhecimento da "classe" como treinador e como pessoa, junta-se um laço mais afectivo - pelo portista, pelo rapazinho que, ainda "teen-ager", já encantava Robson com as suas teorias. Foi fantástico o percurso no FCP 2010/11! Dentro e fora dos estádios. Tão bom no jogo, como nas conferências de imprensa. Portuense e muito "british". "Um "inglês" do Porto, na melhor tradição da novela de Júlio Diniz, que, quando menina e moça, era a minha preferida. André, onde quer que tenha êxito (e não sei se terá, neste Chelsea, mas terá, mais tarde ou mais cedo...) reparti-lo-à com a cidade e com o País. DSOBRE BAÍA Ao contrário do que aconteceu em relação a Mourinho, a admiração por Baía nasceu logo que o vi a defender a baliza do FCP - tão jovem e já um fenómeno, um super guarda redes. Tão elegante na forma de se lançar à bola, a dar ao futebol aquela "nota artística" que poucos conseguem. Creio que foi o Carlos Magno quem disse que até nos seus raros falhanços, falhava com elegância. Mas, além disso, tornou-se rapidamente, mais do que um simples atleta excepcional - um símbolo de desportivismo e de coragem, de resistência à adversidade que o perseguiu - lesões terríveis e demolidoras campanhas de imprensa, sempre à espera do mais pequeno deslize para o transformar em coisa grande. Teriam feito desanimar qualquer outro. Tudo isso o tornou uma figura carismática, um mito, muito antes de abandonar a carreira. Um eterno rosto do FCP, pelas suas qualidades, mais o seu amor ao clube, tão raro numa época de "profissionalismo", que é uma maneira diplomática de condescender com o facto do futebol se ter tornado um grande negócio, e de os protagonistas procurarem fama e dinheiro, onde quer que isso seja mais fácil. Baía é uma raridade e nele reencontramos o sonho da pureza primordial do futebol. É um de nós, ama o FCP, como nós, e é um dos maiores jogadores portugueses de todos os tempos, o melhor de todos os guarda-redes. Meu Pai dizia "eu vi jogar o Pinga" como quem participou em momentos históricos. Eu poderei contar aos mais pequenos como era o Baía, como um estádio inteiro se levantava e vibrava com a simples menção do seu nome. Para mim, o FCP é sempre o FCP. Mas o FCP de Baía e de Deco (o tal que era melhor que Pelé, como se cantava, em coro, nas Antas e no Dragão) nunca mais terá igual. Há jogadores que, de facto, fazem uma época, para além de fazerem uma equipa, como Deco, que foi, nos tempos do Porto e do Barça, o melhor nº 10 do mundo. O mágico da nossa selecção (e tão mal agradecidos fomos, por fim, com Queiroz). O “magic”, na Catalunha. No Conselho da Europa, tinha um colega catalão, que me dizia: "Não imaginas como o Deco é adorado em Camp No". Ele ia ao estádio. Eu não, mas imaginava. Até pela tv se percebia o ambiente que cercava Deco, e o carinho com que Deco acompanhou o princípio da ascensão de Messi. Que pena não serem da mesma geração! Houve outros mágicos, que vi em acção: Hernâni, Pavão, Cubillas, Anderson (nos poucos meses que jogou no Porto, porque em Manchester já não o deixam jogar assim), “Homens-golo”, como Jaburú, Gomes - outro fenómeno, o "bibota" de ouro, que eu já conhecia da equipa de juniores - ou Jardel, que há-de voar para sempre sobre os centrais, na voz de Rui Veloso, numa canção com letra de Carlos Té. E uma longa lista centrais, que o FCP transfere para as Ligas da Europa, a peso de ouro… Há o calcanhar de Madjer… O “slalom” de Derlei (outro eterno herói, o Ninja!) para a vitória no relvado manhoso de Sevilha. O olhar intenso de Pedro Emanuel, na hora de marcar o "penalty" de Yokohama… E agora o Hulk, esse espectáculo dentro do espectáculo... A verdade é que eu tenho uma paixão de infância pelo futebol e pelo FCP, da qual não vou curar-me nunca... SOBRE PINTO DA COSTA Pinto da Costa é o melhor presidente de um clube de futebol do sec. XX - e continua igual a si próprio no século. XXI. Nenhum clube deve a uma só individualidade ascensão semelhante à que o FCP conseguiu com ele. E, através do sucesso do clube, muito lhe deve também o País. Portugal nunca ganhou com a selecção os títulos europeus e mundiais que o Porto lhe deu, no mais mediático dos desportos. Obviamente, Pinto da Costa não realizou o milagre portista sozinho, soube rodear-se, criar estruturas, escolher bem. É um "case study", a nível internacional, sem dúvida. E a nível interno, também tem um lugar na história, como o único Homem do seu tempo que conseguiu pôr o Porto e o norte na vanguarda de Portugal e até da Europa. A região norte está em alta no futebol e em queda nos índices económicos, no desemprego, no investimento público, no poder político... Qualquer uma das Regiões Autónomas pesa politicamente mais do que todo o Norte. Só no futebol houve uma certa forma de regionalização, de diminuição da desigualdade de oportunidades entre a capital e o resto do País. Isso permitiu ao FCP e a outros clubes, do norte e do sul, vencerem campeonatos e taças, como acontece, normalmente, nos outros países da Europa: a França não se resume ao Paris Saint-Germain, nem a Inglaterra ao Arsenal de Londres, nem a Itália ao Roma, nem a Espanha ao Real _Madrid... Na Alemanha, o título pode ir parar a qualquer cidade, nem sequer fica sempre na Baviera. Em Portugal, antes do 25 de Abril, só dava Lisboa, SLB ou SCP. No futebol, Pinto da Costa desencadeou um movimento que podemos comparar ao da descolonização... Fez, claro, no trajecto, muitos inimigos, tanto pelos resultados alcançados como pelo seu estilo inconfundível. Não podendo vencê-lo dentro do campo, os inimigos tentam o objectivo em jogos de secretaria e em processos kafkianos.

EXPO DE JOSÉ TAVARES

. José Tavares é parte da vida de todos os que tiveram a sorte de o conhecer pessoalmente e de o admirar como um grande Homem e um grande Pintor . Mas é, também, parte da história cultural de Espinho, a terra que escolheu como sua, onde criou família, criando raízes, fazendo amigos. deixando um rasto de humanidade e simpatia e uma obra vasta e valiosa, mas praticamente desconhecida de maioria dos seus conterrâneos e mais ainda da generalidade dos Portugueses. E, por isso, é tão importante esta publicação de uma boa parte das suas telas, que se constitui na forma única, no meio ideal de partilhar obras que estão, na quase totalidade, inacessíveis em colecções particulares. As imagens aqui recolhidas vão permitir que o Artista surja, assim, aos olhos do País que se valoriza ao valorizá-lo. É assim devido, antes de mais um agradecimento à família do Pintor, por esta iniciativa, que assume o significado de um verdadeiro "serviço público" - pelo que mostra, divulga e revela de uma mais valia artística, que permanecia escondida. com risco de se perder para sempre num imerecido esquecimento.

DUAS CONVENÇÕES, DUAS AMÉRICAS

Cleveland e Filadélfia - duas convenções, duas Américas 1 - O processo de eleição de um novo presidente dos EUA entrou na fase final, com a nomeação dos candidatos nas convenções dos partidos Democrático e Republicano. Só os cidadãos americanos votarão neste sufrágio, mas a sua decisão pode afetar-nos, tanto ou mais do que as que acontecem no nosso território ou no da UE. A partir do momento em que Trump se impôs no partido Republicano, isso tornou-se particularmente evidente. Fenómenos de radicalismo e de populismo criptofascista, também têm irrompido na Europa, mas só a ameaça que se desenha na América é verdadeiramente planetária. O discurso brutal de Donald Trump, antes, durante e depois da Convenção de Cleveland, promete erguer muros contra a imigração, fechar o país ao mundo, dividi-lo em razão das crenças, das etnias, do género, da orientação sexual, de diferenças de toda a ordem... Nunca antes se vira um candidato ao mais alto cargo do mais poderoso Estado da Terra ridicularizar, num palco, por gestos e palavras, um jornalista com deficiência física, ou elogiar ditadores de várias latitudes, da Rússia à Coreia do Norte! 2 - Nós não podemos influir nesta escolha crucial, mas pudemos seguir, a par e passo, em direto, pela televisão, os trabalhos das convenções. Cleveland foi um "one man show", movido tanto pelo egocentrismo de Trump, o homem que usa, a propósito e a despropósito, a primeira pessoa do singular, como pelo facto de todos os "notáveis" do partido Republicano (incluindo o ex-presidente Bush, que, por comparação, até parece menos mau) se terem mantido longe daquele cenário dantesco de diatribes contra muçulmanos, hispânicos, imigrantes, mulheres, veteranos de guerra, juízes... Filadélfia foi, uma semana depois, a resposta democrata, dada sempre no plural: na esteira do "yes, we can" de Barack Obama, o “juntos somos mais fortes" de Hillary Clinton, com o sentido de comunidade, que, há anos, a levou a escrever "It takes a village". Nunca, numa eleição presidencial nos EUA, os contrastes foram tão gritantes, porque está em causa muito mais do que o civilizado confronto de ideias e de projetos situados no espaço comum da democracia. E, obviamente, muito mais do que o carater histórico do pioneiro afrontamento entre uma mulher e um homem. Uma mulher com um longo e insuspeito curriculum de luta pelos direitos humanos, pela educação e serviços de saúde para todos, que se iniciou bem antes de atingir o patamar da celebridade nacional e universal. Um homem, que, tendo herdado uma enorme fortuna, passou a vida a pensar em si e nos seus negócios, que, aliás, deixaram um rasto de processos judiciais de antigos parceiros e trabalhadores. Na verdade, mais do que duas personalidades são duas Américas inconciliáveis que estão em combate. Só uma vencerá. A América da inclusão ou a da dissidência e preconceito. A dos direitos humanos ou a dos ódios, da xenofobia e do racismo, que, mais de meio século depois das leis integracionistas do Presidente Kennedy e no fim do brilhante mandato do primeiro presidente negro, mostra ter ainda um paladino e numerosos prosélitos anónimos. 3 - Passei horas e horas a seguir, na CNN, a convenção de Filadélfia. Fascinada, porque nunca vi um "meeting" político tão perfeitamente organizado e com semelhante nível de intervenções - algumas correspondendo, exatamente, às expetativas (elevadas), como a do Presidente Obama ou da própria Hillary, outras surpreendentes pela força emotiva da mensagem, como foi o caso de uma formidável Michele Obama (que metamorfose, em quase 8 anos de Casa Branca!) e de um eternamente jovem Bill Clinton, a traçar, com a simplicidade dos oradores predestinados, com o rigor dos factos, sem negar os afetos, uma biografia da mulher, da mãe, da cidadã Hillary Rodham, desde o dia feliz em que a conheceu até ao presente. "In the spring of 71 I met a girl"... (na primavera de 71 conheci uma rapariga...). Em síntese: para Bill, Hillary é a maior construtora de mudança real (change maker) que ele jamais viu ; para Obama, nunca houve na história dos EUA ninguém, homem ou mulher, tão bem preparado para ser presidente como ela. Michele, por seu lado, num jogo inteligente e subtil de luzes e de sombras, contrapõe Hillary a Trump, sem nunca pronunciar o nome dele. E faz perguntas decisivas, como estas: quem escolheríamos para ter ao alcance do dedo o botão com que se desencadeia um ataque nuclear? Quem escolheríamos como "role model", com o poder de moldar o carater e a conduta de toda uma geração de crianças e jovens americanos, ao longo dos próximos quatro (ou oito) anos? Antes que acabe o ano de 2016, saberemos se a América elegeu a política de rosto humano ou se quer enveredar por uma espiral de fanatismo e violência, de segregação interna e de agressividade internacional

Foi há quatro anos, na Maia

quarta-feira, 24 de outubro de 2012 Congressismo feminino No Encontro Mundial da Maia, procuramos ir às raízes de um movimento pela intervenção cívica da Mulher, que, a nosso modo e nosso tempo, continuamos, olhando em especial as mulheres da Diáspora. O que nos une e reúne, como há um século aconteceu, com as feministas da 1ª República, é a convicção de que só a acção colectiva pode levar a mudanças essenciais a uma transformação da sociedade no sentido da maior igualdade de género. O poderoso associativismo feminino, que se projectou no tempo dessas precursoras, é irrepetível e do que, na mesma época, traduziu formas inéditas de solidariedade entre as portuguesas emigradas (muito em particular na Califórnia, a nível do movimento mutualista) o mesmo se poderá dizer. É certo que há ainda lugar - sobretudo no campo tradicional da acção social e da beneficência - para organizações exclusivamente compostas por mulheres, que desempenham um papel muito importante, como é o caso da Sociedades das Damas Portuguesas da Venezuela, da Liga da Mulher da África do Sul e da Associação da Mulher Migrante Portuguesa da Argentina, de todas a mais recente. Mas na Califórnia, as pioneiras Sociedade Rainha Santa Isabel e União Protectora Portuguesa do Estado da Califórnia passaram a aceitar a filiação de membros do outro sexo e a fusão com outras sociedades fraternais. No século XXI, na nossa perspectiva, a prioridade terá de ser dada ao acesso das mulheres ao dirigismo nas organizações em que se estruturam as comunidades portuguesas e em que elas estão, em regra, ainda marginalizadas - o que para além de representar uma inaceitável discriminação sexista, prejudica a expansão e a renovação das próprias instituições, como é crescentemente reconhecido. Por isso, consideramos que o "congressismo", outra das heranças feministas do início de novecentos - entendido em sentido lato, para abranger o esforço de informação, debate, reflexão, crítica, testemunho, troca de experiências, reivindicação em múltiplos "fora" e, genericamente, eventos com projecção mediática- é um dos mais eficazes instrumentos actuais ao serviço do objectivo de mobilizar as portuguesas para a intervenção nas comunidades do estrangeiro. A organização dos vários Encontros Mundiais de Mulheres Migrantes, a partir de 1985, e de conferências, seminários, debates sobre a temática de género ligada à emigração portuguesa, enquadra-se nesta visão das coisas e tem sido, muito frequentemente, iniciativa conjunta, ainda que através de fórmulas diversas, do governo e das ONG's (penso sobretudo, nas que vêm sendo levadas a cabo, desde 1994, pela "Mulher Migrante - Associação de Estudo, Cooperação e Solidariedade"). Nesta comunicação breve, limito-me a assinalar algumas das singularidades do exemplo português na luta pela afirmação da cidadania das mulheres e da recorrência de "diferenças" ou originalidades nossas, em épocas tão distintas como foram o início e o final do Século XX, com o propósito muito pragmático de delas tirar ensinamentos e de, correndo, embora, os riscos sempre inerentes à extrapolação, virtualidades actuais de mudança rápida do "status quo" - à portuguesa... 1 - Considerações sobre o movimento feminista de novecentos O movimento feminista foi, em Portugal, surpreendentemente, moderno e vanguardista na medida soube resistir à tentação (datada) do radicalismo, aos excessos de uma "guerra de sexos", por um lado, e, por outro, ao mimetismo dos paradigmas masculinos, em favor de uma assumpção plena do "feminismo feminino", na expressão de Carolina Beatriz Ângelo. As nossas Avós sufragistas, reclamaram, lucidamente, os mesmos direitos e deveres na "res publica", com a sua própria maneira de ser e de actuar, tal qual eram - em caminhada democrática e solidária, lado a lado, com os homens, numa vivência da ideia da "paridade", que teorizaram e quiseram por em prática muito antes da palavra ter feito o seu curso nas Constituições e nas leis, traduzindo uma ideia nossa contemporânea de cidadania e de igualdade de género. As feministas portuguesas partilhavam a utopia igualitária que inspirava os movimentos de luta pela libertação das mulheres um pouco por toda a Europa, na América do norte- mas moldaram-na à sua feição, com a força da esperança numa mutação de regime, imediatamente antes e durante o processo de consolidação da Republica. De facto, entre nós, as questões de género e a questão de regime entrelaçaram-se, num mesmo desígnio de liberdade e progresso, que parecia capaz de resolver a primeira pelo simples facto de resolver a segunda – embora, de facto, esse escol de mulheres, feministas e republicanas estivesse destinado a grandes desilusões. Esta dupla pertença foi, a meu ver, a argamassa, a base da especial cumplicidade que as unia aos revolucionários do sexo oposto, e as levava a situarem, claramente, a problemática da mulher no quadro global das transformações do Estado e da sociedade. Era a refundação do País que idealizavam, sem duvidar de que ela comportaria o fim de todos os privilégios, entre eles, os de sexo, assegurando, em simultâneo, a plena emancipação da metade feminina. Não era uma luta em causa própria, em favor de uma minoria - a elite da cultura ou da fortuna, a que quase todas pertenciam - mas em favor de todas as mulheres, e, mais latamente, da sociedade portuguesa. Viam o momento de explosão revolucionária, como um tempo de grandes oportunidades, para que estavam, porém, como o futuro demonstraria, bem mais preparadas do que os homens seus correlegionários... E sabiam que nada aconteceria sem esforço, sem a comprovação da importância do seu contributo, muito concreto, num combate que só poderia ser ganho pela força da organização colectiva, pelo associativismo, e pela consequente demonstração pública da inteligência, da coragem, e capacidade de decisão e de intervenção cívica de toda uma geração, não apenas de mulheres extraordinárias. Algumas mulheres conseguiram, a título excepcional, resistir ao absoluto anonimato a que estavam destinadas em razão do sexo na História escrita pelos homens - mulheres chefes de Estado, rainhas influentes nos negócios do Reino (nos domínios da diplomacia, da cultura, da saúde, da educação) heroínas de revoltas populares e de guerra, sobretudo nas praças de África, no Oriente... algumas raras escritoras ou artistas imortalizadas pelo talento. O que é raridade não conta: não destruíram estereótipos de inaptidão geral para a coisa pública não influenciaram o estatuto e os direitos da generalidade das mulheres, como a elite de novecentos se preparava para conseguir. A tomada da palavra perante multidões, um pouco por todo o país, com um discurso coerente e convincente de nomes consagrados e de tantas jovens desconhecidas- em comícios, em "fora" de reflexão e debate, em acções de propaganda - foi o grande momento de viragem. Foi assim no campo de acção ou de luta designado por “congressismo”, que fizeram a passagem, súbita, inesperada, do círculo doméstico, onde os costumes as confinavam, para a esfera pública, onde abriram caminhos, que levariam décadas a percorrer - e que são ainda hoje a senda para um trajecto em curso. Outra das singularidades nossas, há que destaca-la, foi o papel dos homens neste processo. Os líderes republicanos apelaram, eles próprios, à participação activa das mulheres, deram-lhe, nessa primeira década de novecentos, um papel a representar no palco das sessões de propaganda. Até aí o movimento nascia mais semelhante ao de outros países europeus - mais tardio, mais discreto, porventura, mas avançando, à margem de solicitações partidárias, com já então notáveis republicanas, como Ana de Castro Osório e Adelaide Cabete, mas também com algumas ilustres monárquicas, como Olga Morais Sarmento Silveira, Branca de Gonta Colaço ou Domitília de Carvalho (que haveria de ser, durante o Estado Novo, uma das primeiras deputadas da Nação). As primeiras tomadas de posição, com pouca visibilidade popular, estão ligadas a organizações pacifistas (como a Liga Portuguesa da Paz, de Alice Pestana, que cria, em 1906, a sua "Secção Feminista" e é responsável pela que se poderá considerar a primeira sessão pública de um grupo feminista, contando com a presença de Teófilo Braga). A data é de salientar, porquanto, pouco antes, no ano de 1902, uma das participantes activas nessas iniciativas, Carolina Michaelis de Vasconcelos, olhando, com a sua mentalidade germânica, e, naturalmente com muita preocupação, o país do sul onde gostava de viver, escrevera o seguinte: "O combate das massas feministas, em vista de melhores condições sociais, está inteiramente por organizar"[...] "O aparecimento de uma mulher na política seria considerado uma monstruosidade". Pois bem: dois anos depois,em 1904, Adelaide Cabete, Maria Veleda e outras fazem-se ouvir no I Congresso do Livre Pensamento. Em 1906, a própria Carolina Michaelis é uma das impulsionadoras da Liga Portuguesa da Paz, norteada para a problemática feminina, e, a partir do ano seguinte acentua-se a convergência entre feminismo e republicanismo e a entrada de muitas mulheres em lojas maçónicas. É de ressaltar a fantástica aceleração do processo de participação feminina, neste período, a revelar as contradições, os anacronismos e a espantosa capacidade de os superar de que, de vez em quando, dá provas a sociedade portuguesa, dotada de uma plasticidade, de uma subtil maleabilidade, que não se adivinha de fora e é preciso saber descobrir, de dentro.. Ainda por cima, em geral, o inesperado protagonismo feminino, essa suposta "monstruosidade" despertava nas massas um enorme entusiasmo e aplauso, pois as afinidades ideológicas logo varreram quaisquer preconceitos. Por parte do povo era reacção espontânea, por parte das lideranças, a utilização das mulheres era parte de uma estratégia política.

agosto 09, 2016

A INVENCÍVEL SELEÇÃO DE PORTUGAL

A INVENCÍVEL SELEÇÃO DE FERNANDO SANTOS 1 - Estou nas antípodas de Fernando Santos, que é um homem de fé. Em matéria de seleção nacional, a minha fé, na fase de qualificação, mostrava-se um pouco permeável à dúvida. Em França, ainda na fase de grupos, já me via absolutamente agnóstica, e durante as ordálias infindáveis, a que fomos submetidos com a Croácia e a Polónia, o meu estado de crença não melhorou. O País de Gales, desfalcado de Ramsey, que era o Deco deles, parecia mais fácil de ultrapassar, sem dramas, nem prolongamentos, como veio a acontecer. No dia seguinte, soubemos que não era a Alemanha, mas a França, que nos caberia na final. Vi-me, então, 100% ateia. Não é que a "alternativa Alemanha" fosse aliciante, com Gomez ou sem Gomez, mas, ao menos, se perdessemos, seria por força do adversário e não por força das arbitragens (mesmo numa UEFA sem Platini,"a França é a França", como diz Juncker - para as comissões de arbitragem, como para a Comissão Europeia. As sanções são sempre para os outros... ------------------------------------ ------------------------------------------------------------------------------------------------ 2 - Vi todas as partidas em regime de solidão, que é o melhor para ver o jogo ( embora não para o gozar plenamente). Todas, exceto uma, que não deu gozo nenhum (a da Polónia). Estava, em Lisboa, na Av Elias Garcia, a dirigir, em frente a um grande ecrã de televisão, a assembleia-geral da Associação "Mulher Migrante", que começou às 20,30, pontualmente, e se prolongou até ao início dos penaltis... Entre o dar a palavras aos presentes, ouvir e emitir opiniões, tinha, como na canção da Laurinha, "um olho na janela e um olho na panela", mas, comigo, a divisão de olhares entre o ecrã e os papeis, foi um fracasso. Na reunião, o meu mau feitio e a impaciência eram mais difíceis de combater. No futebol, a intermitência das imagens aumentava a angústia... Terminados os trabalhos, no preciso momento da decisão por penaltis, que eu nunca vejo, exceto em diferido (quando a coisa correu bem..), despedi-me, à pressa, e saí para a Avenida da República. Já não via imagens, mas ouvia... Um grito coletivo de alegria levou-me a retroceder uns passos e a entrar num ginásio, donde vinha o maior alarido. Ainda não era a vitória, só uma defesa de Patrício... Voltei à estrada. Andei uns metros e parei ao som de um brado humano, seguido da voz metálica do "claxon" dos muitos carros, que circulavam na Avenida da República: uma ode ao triunfo, sem sombra de dúvida! Corri, de regresso ao mesmo ginásio, onde continuava, em festa, um pequeno grupo de rapazes de grande estatura e simpatia. Perguntei quem tinha marcado o último penalti: Ricardo Quaresma! Fiquei no céu dos ateus... Decidi, então, ir de metro até ao Colégio Militar, e, daí, a pé até ao meu apartamento. Queria ver gente e vi um impressionante número de imigrantes de África, ou portugueses de origem africana, com as camisolas e os cachecóis de Portugal. Assim equipados eram mais do que os tímidos brancos e faziam a festa, ruidosamente. Um espetáculo grato ao coração!------------------------------------------------------------------------------------- ------------------------------------------------------------------------------------------------- 3- Na noite de 10 de junho, saí à rua antes do jogo, e só encontrava gente eufórica com a certeza do nosso triunfo (1-0, dizia-me um senhor que bebia uma vagarosa cerveja na esplanada da Avenida 8 e eu, cética, respondia: "Deus o oiça". Depois, também por ali andei, mas vi os 90 minutos dentro das quatro paredes de minha casa... primeiro na companhia de uma amiga, a Rosa Maria (que apostava forte no nosso sucesso, embora rumasse ao Porto antes de acabada a 1ª parte, para fugir do previsível tráfico na Boavista, onde vive) e a minha mãe, que, com os seus 96 anos, detesta futebol, e, não obstante isso, fervorosamente rezava o "responso" a Santo António, que reserva para casos importantes. Na 2ª parte fiquei só, com o meu gato preto, Willy-Willy ao colo e os outros por perto. Willy costuma dar sorte... Após o tempo regulamentar, a esperança, em vez de diminuir, começou a aparecer, como uma luz no fundo do túnel. Com a resta de esperança, a ansiedade era tal, que não aguentei a pressão. Saí para ruas desertas, para a beira-mar, mantendo-me sempre longe das zonas animadas por ecrãs... Estava na rua 9, quando ouvi um clamor. desci até ao Chocolate com Pimenta, onde estava toda a gente ainda aos saltos. De quem fora o golo? De Éder, disseram-me em coro. Voltei a calcorrear ruas, ao acaso, mas silêncio já não havia em lado algum. Estava só à espera que o tom subisse a dar a boa nova, para me juntar à multidão em delírio na Alameda... ----------------------------------------------------------------------- ------------------------------------------------------------------------------------------------- 4 - O mundo do futebol é um mundo paralelo ao outro, e, do mesmo modo, cheio de um misto de coisas boas e coisas más, mas às vezes, as melhores vêem ao de cima e, então, vivemos nele muito mais e melhor! Durante um mês, tudo acontecia nos estádios de França, a nossa capital era Marcoussis, o estado do país era discutido entre os positivamente e os negativamente críticos de Fº Santos. Pouco nos interessava o estado da Europa ou do país, tal como se discutia em Bruxelas ou Lisboa: Brexit? Sim, sim, pois, um Brexit surpreendente, a saída da Inglaterra dececionou... mas o Reino Unido ainda tinha Gales (Ramsey, Gareth Bale) e Irlanda (Will Griggs, que animava os cânticos, se não os relvados - fantástico!)). Sanções? Quais sanções? As três grandes penalidadaes que ficaram por marcar a nosso favor? O cartão alaranjado - ou vermelho - que não foi mostrado a Payet? Como no disco dos Pink Floyd: "Crisis? What crisis?". --------------------- ------------------------------------------------------------------------------------------------ 5 - Fernando Santos é um "bom caráter" - e isto não se pode dizer de alguns dos seus colegas de profissão sobejamente conhecidos. Uma boa pessoa, um homem sensato e comedido, com aquele ar tristonho, que não condiz com um discurso de otimismo desmesurado (delirante, achava eu até à noite de 10 de julho estranhando a sua certeza de estar na final e de a ganhar...). De qualquer modo, não é, graças a Deus, nenhum Scolari, não é, sobretudo, humanamente falando do género de Queiroz ou Paulo Bento - personagens centrais de tempos sinistros - e só isso é excelente motivo para ser uma fã relativa de Fernando Santos (O nosso Engª do penta, mas não do "hexa", a despertar "mixed feelings" à maioria dos portistas). Por isso, se alguém merecia esta vitória era ele, como Pessoa e como selecionador! É, de resto, justo reconhecer que nunca foi tão óbvia a autoria individual de um triunfo coletivo. Foi ele o artífice deste feito, Esta coleção de jogadores, uns, poucos, de classe planetária e todos os outros de uma certificada mediania, com qualquer outro responsável (de Rehagel a Mourinho, este por não estar habituado a matéria de tal qualidade) não teriam posto os pés no "Stade de France". O Engº é um impaciente paciente, um falso timorato sem ser propriamente audacioso, um mestre na experimentação e no aproveitamento das capacidades disponíveis. Inteligente, sem dúvida, e, nessa medida, aberto à aprendizagem contínua, a aprender, sobretudo, com os erros. ( Digamos o perfeito anti-Lopetegui). E trabalhador, é cristão - praticante nessas duas qualidades. Deus esteve com ele! Os jogadores também, e os portugueses, e, na 25ª hora, até os seus críticos mais azedos. (O treinador alemão e os franceses não, mas isso seria pedir demais). Também jogar um futebol espetáculo seria pedir demais - ele considerou que, jogando de igual para igual com os melhores, a sua equipa seria presa fácil, e, ao menos retrospetivamente, temos de concluir que julgou bem. Empate, nos 90 minutos, com a Islândia (1-1) com a Austria (0-0), com a Hungria (3-3), com a Crácia (0-0), com a Polónia (1-1), com a França (0-0) e, de permeio, na meia-final, os 2-0 a Gales, com um sabor a goleada... Fernando Santos disse: "Não é fácil ganhar a Portugal". Certíssimo: ninguém conseguiu! Mas também não era fácil Portugal ganhar a ninguém... (pelo menos no tempo regulamentar). Assim se faz um campeão europeu. Voilà! --------------------------------------------------------------- ------------------------------------------------------------------------------------------------ 6 - Do que gostei e não gostei. - Gostei acima de tudo) da coragem moral de Fernando Santos ao recuperar para a seleção todos os "proscritos" pelos seus antecessores (tarde demais para Baía ou Deco, mas não para Tiago, Bozingwé, Ricardo Carvalho, Ricardo Quaresma). Começou, pois, a reparar uma imensa injustiça e um estúpido desperdício de talentos. Não o fez contra ninguém, nem mesmo contra os carrascos destes jogadores excecionais. Calou as vozes que queriam polemizar... - Gostei da sua sageza ao criar uma equipa intergeracional - levando a ideia ao superlativo, a ponto de Portugal ter colocado nos relvados do "Euro 2016" o jogador mais velho (Ricardo Carvalho) e o mais novo (Renato Sanches). Gostei, mas não gostei, inteiramente, da forma como, depois, os utilizou. Ricardo Carvalho foi o melhor central do mundo, o melhor português de sempre (e para sempre?) nessa posição e, aos 38 anos e tal, a qualidade que mais o singulariza - o sentido posicional - em nada se perdeu. Devia te-lo poupado no 3º jogo da fase de grupos, para o chamar no seguinte, quando fosse suficiente o intervalo entre partidas, que já se previa durarem 120 minutos... Não ver mais o Ricardo a titular, pressentindo que acabou para a seleção, foi uma dor de alma e a minha razão de queixa principal.Quanto a Renato Sanches ainda não é o "craque" que provavelmente vai ser, houve jogos em que deu dinâmica à equipa e outros em que não deu coisa nenhuma. E Ricardo Quaresma merecia mais do que ser tratado, quase supersticiosamente, como a arma da 25ª hora, porque mesmo que os seus toques de génio não sejam constantes é constante a sua superior qualidade... - Gostei das escolhas que permitiram constituir uma equipa representativa de Portugal, mas, igualmente, do universo das migrações lusófonas - com atletas nascidos no Brasil, em Cabo Verde, na Guiné, na França, na Alemanha, na Venezuela (Danny não chegou a ir, por lesão), no Congo (Bozigwé não estava em plena forma) ou com jovens de segunda geração, dessas e de outras origens, angolanos também, com os moçambicanos (o "Rei" Eusébio, eterno símbolo da binacionalidade) na memória. Não foi só por essa constatação, mas também terá sido, que os apoios nos chegaram de Timor ao Brasil, passando por toda a África lusófona. E até da não lusófona - da qual foi expoente máximo Benni McCarthy, a celebrar o golo de Éder, em direto, na tv sul-africana,cantando e dançando, batendo, em entusiasmo e criatividade, tudo e todos. Eu sei que Fernando Santos não pode aqui colher sozinho os louros. A Didier Deschamps, ao menos quantitativamente, não faltava um ainda mais numeroso contingente afro-gaules - o que de todo faltava era, da parte de antigas colónias a mesma espécie de fraternidade... E isso não tem a ver com as escolhas dos treinadores, mas com o sentir das pessoas. Não, a França não tem o equivalente a um Xanana Gusmão, líder da Resistência e antigo Presidente, a participar num enorme cortejo automóvel, com as bandeiras dos dois países na mão! - Gostei de ver Portugal triunfar e, embora menos, claro, de ver a França perder... David contra Golias. Golias, Louis XIV (Le foot c´est moi), Napoléon... Foi uma fábula moral e um poema épico... Não faltou nada, exceto, talvez um pouco mais de futebol, mas sobejou a emoção, o drama: Ronaldo, KO ao minuto 8º, com um golpe baixo de Payet no seu joelho problemático. Ronaldo, saindo em maca. em lágrimas. sob os aplausos de um estádio inteiro. a única "standing ovation" global... muitos de nós sabemos, mas não sabiam os franceses que com Ronaldo ou sem Ronaldo, Santos põe os rapazes a jogar na mesma. Aliás, entrou Quaresma, o supremo artista, ali forçado a fazer de operário... E, no fim. por fim, um ponta de lança, que desequilibrou tudo: Éder, que recebeu o cognome, consensualmente aceite de "herói improvável", Devia partilhar o título com o previsível/imprevisível Fernando santos... - Gostei da rigorosa análise do jogo feito pelo 3º herói improvável, o pequeno Mathis, equipado a rigor com a camisola das quinas, a consolar um desconhecido adepto francês, também equipado a rigor (en bleu). Síntese da longa e perfeita análise: o Rui Patrício defendeu tudo. É verdade, foi-se fazendo um grande guarda-redes - os guarda redes fazem-se, em regra, devagar... - Gostei da sua inteligência ao colocar no retângulo, fundamentalmente bem (mesmo que discordemos pontualmente), as peças com que tornou a sua equipa imbatível Sim, não o esqueçamos: imbatível. Invicta na sua longa marcha de empates. invicta nas vitórias de último minuto com que nos levou consigo ao paraíso. INVENCÍVEL...

julho 14, 2016

ESPINHO - Memórias da Avenida

MEMÓRIAS da AVENIDA Em Espinho, o que chamávamos "a Avenida" era uma parte da Avenida 8, delimitada pelo casino. a norte, e pela Rua 23, a sul - um espaço mítico de convívio, estrategicamente situado entre a estação de caminho de ferro e o mar, os hotéis, os casinos, os "dancings", os cafés, as esplanadas... O largo retangular, convenientemente fechado ao trânsito, era percorrido por multidões coloridas, em movimento ordenado, em filas compactas, formadas por gente de todas as idades, como que em diálogo feito daqueles passos ritmados, para cá e para lá… Um desfile de vestidos e fatos bonitos, de cabelos bem penteados, de esmerada demanda de elegância e sofisticação. Uma forma de estar com os outros, na comunidade, na sociedade. Uma espécie de imensa "tertúlia andante", subdividida em pequenos grupos, conversando, tranquila, ao som da música, por entre as altas palmeiras, sob os olhares dos que descansavam sentados nas esplanadas Os comboios paravam, passavam, com ampla visão sobre tão exuberante espetáculo, e, por isso, os passageiros levavam consigo imagens que terão sido, ao longo de mais de um século, o melhor cartaz turístico de Espinho, do seu alegre viver... E muitos foram os que o caminho-de-ferro trouxe para cá, do interior do país e de Espanha, fazendo de um pequeno povoado de pescadores uma praia vanguardista e internacional, onde o génio dos homens soube criar uma admirável nova realidade, não só no seu desenvolvimento urbanístico, como na sua capacidade de relacionamento humano, de atracão, de abertura a uma pluralidade de círculos sociais e culturais, harmoniosamente coexistentes. Portugueses e estrangeiros, homens e mulheres, lado a lado, nas ruas e nos cafés, (que eram, à época, num país de tradição misógina, por todo o lado, coutada masculina). 2 - Sabemos "onde", mas não sabemos exatamente "quando" começou a fantástica "movida". É plausível a teoria da sua origem espanhola. Certo é que já em fins do século XIX, Ramalho Ortigão, um dos habituais membros das tertúlias do "celeste império", se lhe referia, jocosamente, (nas "Farpas"...): " [...] piscina consagrada dos magistrados, os quais, ao encontrarem-se uns com os outros - grupo que vai, grupo que vem - se saúdam reciprocamente, de parte a parte, em variadas vozes e em diversos tons de afabilidade: colega! colega! colega! colega! " Mais tarde, em 1930, Guedes de Amorim na "Ilustração", denomina Espinho "a praia ibérica", traçando um quadro deliciosamente sugestivo não só do ambiente geral, mas também, em especial, do que designa por "a grande avenida": “Os dias decorrem em Espinho como domingos, como dias de festa. O verão é o grande domingo do calendário. E Espinho, romaria à beira-mar, tem seduções para todas as horas, para todos os paladares, [...] só se ouvem frases na linguagem de Cervantes, só se ouvem gargalhadas espanholas [...] ao fim da tarde, na grande avenida ressuscita a vida, a folia, o sem número de diversões, onde Espinho vai passar a noite [...] retalhada a tangos, a golpes estridentes de jazz band, a noite de Espinho termina. Amanhã começa novo dia. Espinho acaba sempre a sua alegria na noite. O verão, porém, é extenso, o sol é quasi eterno, só desfalece no outono". Duas ou três décadas depois, a "Avenida" da minha infância e juventude mantinha, intacta, a sua excelência. Talvez já com menos magistrados, menos políticos e escritores famosos e até menos espanhóis, mas ainda uma festa que durava o verão inteiro, "com sedução”para todas as horas e todas as idades. De manhã, na volta do mar ou da piscina, podíamos aí deambular em traje desportivo, à tarde um fato ou airoso vestido já era de bom-tom, e à noite, para ir ao cinema (com uma vasta oferta de 60 filmes por mês), ao casino, aos bailes, aos cafés, ou para o simples calcorrear da "Avenida", o "dress code" era ainda mais exigente... A "movida" continuava em pleno - e nenhuma foto a captou tão bem como um trecho do precioso documentário "A praia da saudade", dos anos 50. É exatamente assim que recordo o meu peregrinar pelo seu chão mágico, no meio de uma imensa e animada mole humana. Fenómeno sociológico digno de estudo, um retrato de época! O mesmo se diga do ambiente dos cafés que bordejavam a Avenida...Todos diferentes, com o seu núcleo duro de frequentadores. O meu era o Palácio, o antigo Palácio, na esquina do hotel, com esse nome - de tarde, domínio das tertúlias femininas, grupos de amigas que ocupavam, invariavelmente, os assentos junto às janelas. Raridade, não é demais repeti-lo, esta presença descontraída e natural de senhoras no “café – clube”! Ali encontrava sempre as sobrinhas de Amadeo, Isabel Souza Cardoso e a filha, Maria da Graça, ambas muito simpáticas e ótimas conversadoras. Os homens ficavam-se mais pelo interior da sala, ou no sofá junto ao balcão. À noite, mais caminhadas na "Avenida", uma ida ao cinema, de longe a longe, uns passos de dança no salão do casino. Nos anos 50 e 60 e ainda por alguns anos, tal como em 1930 ou em fins de novecentos, não havia tempos mortos em Espinho. 3 - Depois de enterrada a linha-férrea, esperamos, impacientemente, há muito, que as obras de superfície nos restituam, não já a "grande avenida" das palmeiras. mas o seu equivalente, como "ex-libris" de Espinho no século XXI. Acredito que o renascimento de uma cidade originalmente convivial pode acontecer naquele lugar telúrico, com o mesmo espírito, em configurações muito diversas – um encontro com o futuro a construir no rasto saudoso das memórias.

SANTOS DA CASA FAZEM MILAGRES...

1 - A 10 de julho, a utopia que perseguíamos, há tanto tempo, concretizou-se. Eu ainda mal acredito que somos campeões da Europa de futebol, apesar de ter andado pelo centro de Espinho entre as bandeiras verdes e rubras, que logo saíram às ruas, e de ter cantado o hino, em coro, num mar de gente, que enchia a Alameda. Uma explosão de alegria, de sentimentos, de abraços - prolongamento do grande espetáculo, com o povo entrando em palco. E, por isso, continua a ser mais tentador falar de emoções incontidas, de estados de alma, do que do estado do nosso futebol, das táticas, estratégias e exibições individuais e coletivas, que levaram à vitória. 2 - Desta celebração infinda, que ultrapassa fronteiras, fica não só uma página de história, escrita por guerreiros imortalizados na memória do país, mas também, uma via para fazer história do futuro (e já Agostinho da Silva dizia que "a história que interessa é a do futuro"). Nesta competição, o que aconteceu fora dos estádios foi para nós tão extraordinário como o jogo jogado, minuto a minuto, por tantos minutos, para além dos 90... A primeira vitória fora do campo deu-se no grande encontro com a nossa emigração, depois do qual ninguém mais pode ignorar a força da sua presença na nossa vida em comum. O país interiorizou, finalmente, a importância da dimensão que a existência de comunidades portuguesas no mundo nos confere. Já o sabiam todos os que, de perto, acompanham e estudam o fenómeno migratório, não apenas em França mas por todo o lado, sem todavia conseguirem que a opinião pública a reconhecesse suficientemente. A partir de Marcoussis e das várias terras de França, de onde chegaram, dia a dia, as imagens e as vozes dos próprios emigrantes, a evidenciar o seu amor à terra de origem, à terra dos seus antepassados, as formas da sua pertença à comunidade nacional ganharam uma enorme visibilidade. Não podemos deixar que a proximidade e sintonia, agora alcançadas, se venham a perder, dentro do país! (Lá fora, obviamente, não há esse risco). Não somos apenas os 11 milhões de que se falava, ou os 15 milhões das estatísticas oficiais - somos uma Nação de comunidades, que crescem, de geração em geração. O "ser português" no estrangeiro não passa necessariamente pela participação política, pela militância no movimento associativo, nem sequer passa, em muitos casos pelo domínio perfeito da língua, por muito relevantes que sejam - e são! - tais manifestações de ligação íntima à Pátria. O maior denominador comum é, assim, o afeto. Incentivar este sentimento, potencia-lo, é o principal fator de expansão do universo português, bem como do espaço mais vasto da lusofonia e da lusofilia. 3 - A seleção de Fernando Santos, pela sua composição, marcou pontos, sem dúvida, neste espaço mais alargado, convertendo-se numa verdadeira representação lusófona, e não estreitamente portuguesa. E mostrando como as migrações enriquecem, com grandes talentos, no desporto, e nos demais setores, as sociedades que as recebem fraternalmente. De facto, mais de metade do onze que derrotou a soberba França, na sua própria casa, provinha de migrações lusófonas. Os povos nossos irmãos, de Timor ao Brasil, atravessando a África, juntamente com as comunidades africanas imigradas em Portugal, deram à seleção portuguesa um apoio espontâneo, entusiástico, porque a sentiram sua, também. E com boas razões. Vejamos algumas: o "homem do jogo", Pepe, nasceu no Brasil, o capitão Nani em Cabo Verde, e da Guiné Bissau veio Éder, o herói surpreendente, que decidiu a final, com um golo de sonho! Fazer amigos, construir pontes de ligação entre portugueses, entre lusófonos, não foi, certamente, a menor das vitórias conseguidas graças à eficaz "obra de engenharia", que foi a equipa campeã de Fernando Santos. Maria Manuela Aguiar (em "A DEFESA DE ESPINHO")