setembro 19, 2017

LEMBRANDO O COMENDADOR ANTÓNIO BRAZ

1 - É um privilégio poder dar um breve testemunho nesta sessão de homenagem ao Comendador António Braz, em Tondela, sua terra natal, no centenário do seu nascimento. A exposição que acabámos de visitar dá-nos bem a ideia do Homem, do emigrante corajoso, que atravessou os mares e andou pelos quatro cantos da terra, do cosmopolita, movido pela alegria de conviver, por uma insaciável curiosidade sobre outras realidades culturais e outras formas de fazer desenvolvimento económico, sempre pronto a partilhar ensinamentos e experiências. Do empreendedor, que aliava inteligência e intuição a energia, capacidade de inovação a um bom gosto inato, com que sabia acrescentar ao rasgo profissional uma componente estética. Do “empresário de sucesso”, na expressão que entrou para ficar no discurso político, ao menos desde que Portugal aderiu à CEE, com a vontade de difundir a imagem moderna do seu povo, e, em especial, da emigração, ao que se anunciava (prematuramente...) no termo dos seus dias. Nenhum dos nossos compatriotas merece mais esse título prestigiante do que o Comendador Braz, mas, como os mais notáveis dos nossos expatriados, não se limitou a ser empresário inovador, foi um mecenas, um patriota, um líder das comunidades portuguesas do sul da África – a qualidade em que o conheci, em que muito o admirava e estimava. 2 - Permitam-me, pois, que o destaque, em particular, como ativo cidadão, colocando o enfoque nas comunidades a que pertenceu (comunidades vistas como instrumento de interculturalismo e engrandecimento nacional, com o seu insubstituível papel em sucessivos ciclos de migrações maciças, em praticamente todos os continentes), assim situando a obra do Comendador Braz num vasto movimento associativo, que ele encarnou, e encarna, exemplarmente. É, sem dúvida, justo, lembrá-lo pelo êxito empresarial e pelo mecenato com que contemplou a terra de origem, não esquecendo, porém, o seu envolvimento comunitário no estrangeiro. Foi, sobretudo, nesta veste que se converteu, como alguns outros ilustres compatriotas, a nível planetário, em agente ou protagonista da História da emigração e das Comunidades Portuguesas, que temos de saber, no futuro, estudar e divulgar como parte da nossa História . 3 - Não as "comunidades" de que comummente se fala como mero sinónimo de "emigração", realidade estatística, número global (aliás, quase sempre, pouco rigoroso, pecando por defeito), e sim as comunidades estruturadas numa multifacetada rede de instituições de cultura, de convívio, de beneficência, que constituíram a mais importante retribuição de um fenómeno migratório multissecular. Mais importante, afinal, do que aquela que se contabilizou, conjunturalmente, nas remessas de montantes astronómicos, de que os governos se mostravam ávidos para minorar os desequilíbrios das contas públicas. Até tempos recentes, prevaleceu esta perspetiva material, e, com ela, se centrava a atenção no quadro quantitativo da expatriação, invariavelmente avaliada em cifras e mais cifras, embora também servissem para dar a expressão dramática da "ausência". De fora, no esquecimento, ficavam as formas de vivência coletiva no estrangeiro, a dinâmica associativa, em que se fundou e se continua um espaço de "presença" portuguesa intemporal e universalista. 4 - As comunidades/realidade orgânica, foram crescendo, sobretudo a partir do primeiro quartel do século XIX, fruto da visão estratégica dos portugueses, em cada sociedade de acolhimento, para dar resposta direta, sistemática, eficiente, às necessidades das pessoas - apoio aos recém-chegados, entreajuda, na doença ou no desemprego, e, também, convívio, pelo qual se conservam costumes e modos de estar. À medida que iam conseguindo uma boa integração na nova sociedade mais procuravam a afirmação da identidade nacional e a sua preservação no encadeamento das gerações, pondo o acento no ensino da língua e da história aos jovens. Nessa aprendizagem de como ser de duas pátrias, os emigrantes têm-se mostrado exímios, talvez porque o nosso nacionalismo é tradicionalmente de abertura aos outros, aos vizinhos e companheiros de trabalho, não sendo, por isso, conflitual, nem agressivo, antes se constituindo em fator de cooperação e de inclusão (sem a fatídica assimilação, que tantos académicos e políticos anteviam). É na malha densa de associações culturais, sociais, recreativas, paróquias católicas, escolas, meios de comunicação social que se vai suprindo a falta de políticas públicas do Estado, por um lado, e, por outro, sedimentando a Diáspora. 5 -Os estudiosos da emigração portuguesa apontam o tradicional descaso dos governos com a sorte dos expatriados, desde o momento em que abandonam o território, assim como o caráter repressivo ou limitativo das políticas, com que tentam, regra geral, condicionar fluxos estimados como excessivos, mesmo no período de colonização. É o caso do Brasil, onde os ingressos foram em crescendo, antes como após a independência, com idêntico caráter de espontaneidade. Por isso, se torna, como admitem os historiadores destas matérias, difícil traçar a linha de fronteira entre as partidas enquadradas no projeto estatal de colonização e as que foram assumindo, mais e mais, os contornos de fenómeno puramente migratório. A meu ver, uma tal ambivalência, terá tido, nas diversas possessões da Coroa, de Oriente a Ocidente, os seus reflexos no modo de trato e convívio com as populações locais e com os outros imigrantes, num relacionamento tendencialmente mais próximo, igualitário e cordial, de cujo rasto antigo e difuso emana o universo atual da lusofilia. "Solúvel e insolúvel este povo, na memória dos outros e na sua mesma", segundo Jorge de Sena... 6 - O desregramento dos fluxos de saída acentuou-se, em cada novo ciclo, ao longo de setecentos e oitocentos, e era visto como um risco para a sobrevivência do país no seu berço territorial. Contudo, como hoje sabemos, o declínio demográfico não aconteceu e o excesso terá contribuído, decisivamente, para o definitivo enraizamento da língua e de uma forte componente cultural no Brasil independente (que, sobretudo após a abolição da escravatura, apelava à chegada em massa de migrações europeias e asiáticas), bem como em outras partes do império, e fora delas, na Diáspora. Num balanço realizado à distância de séculos, somos tentados a afirmar que o futuro deu razão a milhões de homens e mulheres, que daqui se foram, movidos por um sonho proibido. Afinal mais efémero foi o império, cujas riquezas, em cada época, se ganharam e se perderam, do que as comunidades que, ainda hoje, estão vivas nas terras onde a saga da Expansão levou o povo, de Leste a Oeste, a nível planetário. Os emigrantes são ou não os autênticos descendentes dos navegadores e dos colonos pioneiros, dos voluntários da aventura quinhentista, os herdeiros da sua audácia e da sua ambição de "correr mundo"? Muitos acham que sim e eu estou com eles. 7 - Estas comunidades sobreviveram às primeiras levas de emigrantes, existem com caraterísticas espantosamente semelhantes, embora sem quaisquer interinfluências, quer as mais antigas, geradas nos movimentos migratórios, desde oitocentos, (quando não anteriores - pensemos, por exemplo, em Malaca), quer as contemporâneas, da Europa às Américas, da África à Oceânia, e podem ser consideradas a nossa última "descoberta". De facto, até meados do século XX, poucos investigadores se deram conta da existência das "colónias" de emigrantes, (designação então consagrada), entre eles se distinguindo os professores Afonso Costa e Emídio da Silva. Contudo, mesmo estes dois notáveis estudiosos não se terão apercebido da sua capacidade de sobrevivência, ou seja da sua conversão em autêntica Diáspora. Diáspora sem exílio,todavia nem por isso com menor apego aos valores matriciais, mantidos como herança preciosa por gerações sucessivas.. A descoberta das comunidades coincide com o fim do império, e não por acaso! Ninguém a enunciou melhor do que o Primeiro-ministro Sá Carneiro, em 1980: "Portugal foi um país de colónias, hoje é um país de comunidades"." Uma Nação populacional". Ou na definição em que acentua, essencialmente, valores próprios da sociedade civil: "Portugal é mais uma Cultura do que uma organização rígida". É nesse ano de 1980 que, consequentemente, surge no organograma do Governo, pela primeira vez, uma Secretaria de Estado da Emigração e das "Comunidades Portuguesas", e se procura desenvolver, articulando-as, mas dotando-as de meios específicos, políticas sociais para a emigração e políticas de dominante cultural para a Diáspora, representada num "Conselho Mundial das Comunidades Portuguesas". Todavia, já anos antes, por iniciativa do General Ramalho Eanes, o primeiro Presidente eleito depois de restaurada a democracia, o substantivo "Comunidades" entrara no léxico político, na denominação oficial do 10 de junho, "Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesa". É o momento em que se anuncia o Portugal moderno, na sua perfeita dimensão humana e cultural - uma cultura viva e em expansão universal. Orador nas comemorações solenes dessa data, Vitorino Magalhães Godinho diz com meridiana clareza : "Portugal é mais do que o império que se fez e desfez, está presente com os Portugueses, onde quer que vivam" (cito de memória). 8 - Os governantes, os cientistas, os cidadãos em geral, não podem, hoje, ignorar espaço português das comunidades do estrangeiro, a dimensão universalista que confere à Nação Portuguesa, por obra e graça dos cidadãos, não pelo braço armado do Estado. E, porque assim foi e assim é, há que atribuir-lhes todo o mérito na fundação e preservação das comunidades, verdadeira extensão extra-territorial do País. Eles partiram, mas não se perderam na dispersão geográfica, como augurava a sabedoria popular e académica. Não abandonaram Portugal, levaram-no consigo, como tão finamente intuiu Jaime Cortesão. Reuniram-se e recriaram a terra mãe em instituições semelhantes àquelas que nela conheciam. São Diáspora! Não basta, pois, admitir a existência das comunidades, colocando-as no cerne do discurso político sobre a emigração, meramente como seu sinónimo. É um erro em que cai, ainda, uma maioria de portugueses, políticos, jornalistas, funcionários, que delas falam com desenvoltura, mas nunca as visitaram, nem participaram nas suas atividades concretas, nem leram os seus jornais. Podemos, aliás, ir mais longe e dizer que as comunidades mal se conhecem umas às outras, e mal colaboram entre si, fora das fronteiras de um país, ou até só de uma região, de uma cidade... Eu própria, quando por dever de ofício, há quase 40 anos, comecei o meu roteiro de contactos - que não mais terminou - por este Portugal sem território, tive de me entregar a uma fascinante aprendizagem, nas viagens circulares, em que ia e vinha, cruzando oceanos e continentes, sem nunca me sentir no estrangeiro: saíra do país, como se nunca tivesses saído! De princípio, tudo me parecia irreal, até me familiarizar e me apaixonar por essa realidade, que é, verdadeiramente, nossa. 9 - O "Portugal maior", de que falava Vitorino Magalhães Godinho, não é, assim, um tropo de retórica, não é um mito pós colonial e não é um gueto de inadaptados, de mal com a terra que deixaram e com aquela onde se encontram. Este Portugal de uma nova "Expansão" foi sendo impulsionado por Portugueses da estirpe do Comendador António Bras, ao longo dos tempos. Tem, lá longe, a grandeza, o espírito, o fraternalismo de que eles são capazes. É preciso dize-lo, contrariando ideias feitas sobre a imigração - ideias que se insinuam até em organizações ou cimeiras internacionais, como as conferências dos ministros responsáveis pelas migrações no Conselho da Europa, onde sempre procurei contraria-las, invocando o paradigma português para defender o movimento associativo como um poderoso fator de apoio à integração individual, que se revela, em cada fase do ciclo migratório, o espelho do percurso coletivo - muito diverso, como é óbvio, em sociedades que oferecem oportunidades diferentes de enriquecimento e ascensão social. Temos, atualmente, a par de associações que reproduzem a atmosfera de uma pequena aldeia portuguesa tradicional, as mais grandiosas instituições beneficentes, culturais ou desportivas, sobretudo no norte e no sul da América e na África. Contudo, o impulso que as determina é o mesmo - é a vontade de serem, no seu círculo geográfico, à medida das suas possibilidades, presença cultural portuguesa, elo de ligação entre duas sociedades em que os emigrantes/imigrantes se revêem e de que se consideram plenamente parte. 10 - O Comendador António Braz é um rosto inesquecível deste Portugal redimensionado pelas comunidades extra territoriais. Dando o seu exemplo, torna-se mais fácil falar da dimensão que conferem ao País, como ponte, feita de uma infinidade de pontes, a reunificar um povo disperso, pontes lançadas entre um passado e um futuro português.Torna-se mais fácil evidenciar a persistência na nossa gente de todas as virtudes que reconhecemos aos Avós quinhentistas - a sua natural capacidade de aceitar e ser aceite pelos outros, de os envolver num trepidante intercâmbio de produtos, de instrumentos, técnicas e saberes, oriundos de terras distantes. Enquanto empresário do século XX, foi isso mesmo o que Ele conseguiu, levando ao sul da África, designadamente, tradições do quotidiano da América do Norte... Enquanto cidadão, soube ser, como os nossos maiores, portador de uma mensagem de modernidade e humanismo, granjear amizades e alta reputação, que repartiu com a sua comunidade e o País. Lançou e apoiou associações, iniciativas culturais, centros de acolhimentos e integração dos refugiados de Angola e Moçambique e fundou um jornal de superlativa qualidade, "O Século de Joanesburgo" (um dos melhores de todo o universo da lusofonia). Era, em fins do século XX, o patriarca das comunidades portuguesas da África do Sul! Quem mais teria conseguido dar às comemorações da primeira passagem pelo Cabo da Boa Esperança o momento mais simbólico, a dádiva mais perene, com a oferta de um monumento a Bartolomeu Dias, colocado em Pretória, no mais nobre lugar da capital da República, face ao "Union Building"? Uma celebração da História, por alguém que a sabia interpretar e fazer presente. Uma "prova de vida" do Povo que fomos, no início da Expansão, e ainda somos.

setembro 08, 2017

ERA UMA VEZ UMA GATINHA LINDA...

1 - A SETA
Um dia, no verão de 2001, encontrei no pequeno jardim das traseiras da casa da Rua 7, em Espinho uma ninhada de gatinhos lindíssimos, trazidos pela progenitora, também ela muito bonita, preta e branca, sociável, grande. Já minha conhecida, pois, como vários outros gatos vadios, passeava de telhado em telhado, (telhados de anexos térreos, que abundam nesta parte norte da cidade) e descia, facilmente, para o muro baixo, robusto e largo, que separava a vivenda dos meus Pais, o nº 307, da da família do famoso fotógrafo espinhense, Sr Evaristo, o nº 115 (ele morou décadas no prédio onde tinha o estúdio, na Rua 8, e, já reformado, mudara-se-se para aqui). Gente boa, amiga dos animais, que eram igualmente bem recebidos dos dois lados do muro. Em cima dele faziam fila, quando pressentiam que eu estava por perto, disposta a alimenta-los. A dita ninhada foi alojar-se na arrecadação dos fundos do quintal, que, de dia, estava sempre de porta aberta. Contudo, ficaram muito tempo. Quando contei à minha Mãe que tínhamos visitantes ela quis logo ir vê-los, e não só vê-los, mas também agarra-los, todos, de uma só vez, com as mãos. Coisa que eu não teria tentado, porque, é claro, eles assustaram-se e reagiram vigorosamente, apesar da pouca idade, arranhando-a... E gata-mãe tratou logo de os levar consigo para sítio mais tranquilo. Todos menos uma pequenina, cinzenta e branca, magríssima, que decidiu, definitivamente, abandonar. A boa surpresa é que já comia de tudo, com apetite. Ninguém procurava pegar-lhe, porque era esquiva, brava, bufava, escondia-se. Só deixava aproximar-se o nosso gato amarelo, o Mandarim, que manso e amável. Quem lhe levava a paparoca era eu - ou a Olívia, nas minhas ausências de Espinho. A bichana parecia-me muito frágil, pouco saudável. Comecei a desconfiar que a razão do abandono materno podia ser essa. Embora fugisse de mim, eu ficava, de longe a observa-la e falava-lhe, continuamente, em longos monólogos. De dia para dia, fui-me aproximando, mais e mais, até ficar com a mão sobre a sua cabeça, mas sem lhe tocar. Por fim, numa inesquecível manhã, ela mesma se soergueu até à palma da minha mão e eu pude fazer-lhe festas. Momento mágico! Sabia que desse momento em diante éramos amigas, me faria inteira confiança. Peguei-a aos colo e trouxe-a para dentro da casa. A gatinha triste e solitária, de repente, tornou-se alegre e prazenteira, aprendeu a brincar, com bolas de borracha e a correr loucamente, por debaixo de cadeiras, mesas e qualquer móvel que estivesse um palmo acima do chão. Impressionadas com os seus "sprints" e a sua estonteante velocidade, a Mãe e eu decidimos chamar-lhe seta ou flecha. Seta soava melhor, SETA ficou.
2 -UMA GATA TIPO GENTE E OS OUTROS GATOS O ciclo de vida dos felinos é como o nosso, só mais curto. Mas nem todos são como a Seta, que parecia gente - na inteligência, nas emoções, até na sua evolução da infância à idade adulta e à velhice. Os outros de pequenos e brincalhões, tornaram-se simplesmente mais gordos e pachorrentos, mais dados a longas sestas. Ela não. De uma infância que se pode resumir em três "efes" (Formosa, feliz e frágil), tornou-se uma adolescente caprichosa, temperamental, pronta a zangar-se se era contrariada.... Incrível. Os olhos revelavam exatamente o sentimento dominante em cada momento. Eram lindos, verdes, olhos verdadeiramente humanos, por onde perpassava toda a gama de estados de alma, que vai da indignação à complacência ou satisfação. Cada vez mais senhora de si. Um porte imperial. Solitária, afastada de todos os outros gatos da casa, numa relação exclusiva com as pessoas - e poucas. Uma "loner"! Contrariada, fugia e desaparecia até que a fúria passasse. Havia que falar-lhe em tom cordato, sobretudo para a remover do inconveniente lugar onde estivesse. "Parece a reencarnação de uma dama de duvidoso passado, que anda a penar pecados velhos", dizia eu quando a víamos mal-disposta com tudo e todos. Era tão independente e imprevisível connosco, quanto distante com os companheiros. Ignorava-os, nunca tomou a iniciativa de atacar, mas era poderosa a defender-se...
Depois que os filhos cresceram, só condescendia na aproximação do Mandarim, que, desde a primeira hora, a recebeu bem, educando-a "paternalmente", nos seus tempos de menina - gata e, logo que a viu chegada à idade adulta - cedo demais, hélas! - procriou com ela duas formosas ninhadas. Tão cedo que, da primeira vez, ela nem sequer sabia como amamentar o único gatinho que sobreviveu - um preto, todo preto. Mistérios, pois o Mandarim era um de um lindo amarelo e ela de uma cor muito branca, sobre a qual se estendiam, num perfeito design, manchas cinza, irregulares. Escondeu-se para o parto, no fundo do sotão, no canto mais inacessível e inesperado. Só tarde demais nos apercebemos, depois de uma busca em que foi a Olívia que encontrou o tesouro... Estava já a Seta deitada sobre um bébé desastradamente morto (igual a ela, esse!), e sem saber como cuidar do outro. Tínhamos de ser nós (eu, sempre que estava em Espinho) a colocá - lo a jeito para a mamada, colaboração que a Seta aceitava de bom grado.
Não me surpreende nada que esse seja, ainda hoje, já velhinho, com o seu focinho negro matizado de pelos branco, a criatura mais chegada a mim... Chamo-lhe o meu gato "tipo cão". Segue-me para onde quer que vá. Responde ao chamamento que os demais ignoram, olimpicamente. Seu nome, Guilherme (como o Guilherme Gayoso): Willy- Willy, no dia a dia.
No ano seguinte, nos fins de primavera de 2003, a família aumentou: um menino gordo, cinza e branco, muito mais branco do que ela, o Deco (homenagem ao "Mágico" do futebol), e um tigrado, ágil e magro, com um desenho perfeito de estrias escuras, o Jão-Jão. Nasceram a 31 de maio, dia de anos do João Miguel, que, em criança recebeu dos irmãos esse diminutivo. Duo encantador!
Distintos de temperamento e atitude perante a vida, o Jão-Jão, dócil e manso, como nenhum dos outros, mas um vadio, sempre pronto a desaparecer nos telhados, de onde só voltava, cansado das guerras, à noite, depois de a Olívia berrar por ele, durante uma hora. O Deco era caseiro, sociável, sempre pronto a dialogar através de sons imaginativos e estranhos, que pareciam de outros animais (um poliglota?). Uma equipa da RTP, que veio, por duas vezes, fazer uns apontamentos filmados no jardim e o ouviu, sem o ver, da segunda vez, insistia que eu tinha ali, para além dos gatos, um papagaio. Eu dizia que não e eles respondiam-me que o som se ouvia na gravação. De facto, ouvia-se, mas era o Deco...
Entretanto, uma gata branca, selvagem, refugiara-se no quintal, com a cumplicidade dos animais da casa e recusava-se a sair. E nunca mais saiu. E outra, delicada, elegante, muito pequenina (nunca haveria de crescer, é quase anã) também veio para ficar. Tal como a Seta, de pelo branco, com manchas cinza sobre o dorso, e os olhos rasgados, com traços quase orientais. Enigmática, insinuante. A Tita, como a famosa Tita da Avó Olívia, uma majestosa gata francesa. Esta de majestoso não tem nada. Dá uns passinhos curtos e, se for surpreendida a fugir, deixa uma pata no ar, hesitando no passo seguinte. É muito esperta, embora desastrada. parte coisas na passagem e, quando escapa para os telhados, há que ir tirá-la de lá, porque, aparentemente, tem medo de descer. Pede festinhas, procura colo, e, se a deixarem, mama, disfarçadamente, nos tecidos das camisolas, calças ou saias (a Maria do Carmo deixava-a sempre, à noite, lamber o seu roupão azul - gostava tanto dela que a queria levar para Olhão). No dia em que aqui se refugiou, debalde a Olívia a tentou expulsar, colocando-a, de 5 em 5 minutos, em cima do muro, de onde proviera. Ela reaparecia, de imediato, miando de inspirar dó. Ganhou um teto. Meses depois, encheu a casa com mais mais um gato residente, o super-inteligente e beligerante Dragão Derlei (honra o nome, mesmo sendo mais conhecido apenas por Dragão).
3 - O FIM DA ERA DOS NAMORADOS... A conselho do Paulo foram todos "neutralizados", menos a selvagem em que nunca mão humana assentou. Foi melhor assim, para evitar dar a pílula às meninas e numa tentativa de tornar os meninos mais sedentários. Resultou com todos menos com o Jão Jão, gato manso, que apanhava sovas terríveis dos gangsters dos telhados, que lhe apareciam na disputa do território. Não creio que a Seta tenha apreciado o povoamento excessivo do espaço que partilhava com o patriarca amarelo, antes pelo contrário. Nem com os filhos era compatível, depois que eles cresciam. Só mesmo com o Mandarim, amável com todos e, em particular, com a selvagem. A Branquinha era, como viemos a descobrir, uma albina, de olhos azuis, uma perfeição! Acabaria por morrer, ao fim de uns anos, de cancro da pele. Domesticada, protegida do sol, dentro de casa, teria sobrevivido, mas para tanto nunca confiou na raça humana e era impossível te-la presa numa loja, o dia inteiro. Como não pode ser castrada, e nem sempre tomava a pílula, teve descendência de gatos de fora, que atravessavam o muro para namorar a beldade. Nenhum sobreviveu, porque ela não sabia cuidar deles- er a louca, mesmo! A Seta, embora não apreciasse muito a maternidade, melhorou muito da primeira para a segunda vez. No extremo oposto, a Tita era uma excelente progenitora, por pura vocação. Que bem tratava o seu filho lindo, todo preto, salvo por umas manchas brancas nas patinhas dianteiras, que pareciam luvas, e por um um triângulo branco no peito. Dir-se-ia que anda sempre de "smoking". Não sei se isso tem a ver com o processo educativo, a verdade é que continuam a manter uma relação excelente de proximidade. Sempre juntos, de preferência, noite e dia. Depois da morte do Mandarim, o Dragão disputava o cetro do comando com a Seta e o Willy. Uma inquietação! Havia que mantê-los sempre separados, de contrário o Dragão atacava, ainda que acabasse sempre a perder. O Willy tem o dobro da seu peso e a Seta era, quando provocada, uma guerreira poderosa. Num último confronto, antes do seu definitivo declínio, o ano passado, deixou-o quase cego de um olho - tão expressivamente verde!. A pálpebra fechou, sobre um globo ocular raiado de sangue. (Um susto...). A paz entre os dois só foi estabelecida quando ela já cambaleava pelos corredores. 4 - A VIDA POR UM FIO O estranho abandono da gatinha por uma mãe que tão bem cuidava do resto da ninhada, tinha que ter alguma explicação. Depressa havíamos de descobrir o porquê, quando a vimos acabrunhada, a fungar, com dificuldade respiratória e cheia de tosse. Ficou assim durante uns dia em que fui a Lisboa. A minha mãe mandou a Olívia por-lhe a cama na lavandaria, que é o compartimento mais frio de todos. Sabe-se lá porquê, toma decisões muito bizarras. De tempos a tempos, clama que os gatos são para estar à solta, fora de casa, dando os exemplos da sua infância na Villa Maria. Não era um grande exemplo, porque toda uma geração de gatos persas desapareceu assim - o último foi roubado durante as festas da Senhora do Rosário, os outros tambem terão tido o mesmo destino. Não sendo de raça, não era este o risco que corriam os nossos, mas a lista de outros perigos não tem fim. Apercebi-me da gravidade do estado da Seta quando a levei para a minha cama e ela não saltou em cima da protuberância que os meu pés formavam sobre a coberta branca, quando eu os movia, em ar de desafio... Falei a uns amigos, a Andreia e o Fernando, a perguntar o nome de um veterinário, Deram.me o número do Paulo, que atendeu a chamada prontamente, Examinou-a e não deu grandes esperanças. Se fosse a pneumonia típica dos gatos vadios não tinha salvação. Se fosse coisa menor, talvez... Foi um mês de batalha. Vinha todos os dias dar-lhe antibióticos injetáveis e soro. Salvou-lhe a vida e, em seguida, os olhos, que estavam encovados, e cobertos por uma membrana. O primeiro filhote teve problemas semelhantes, constipação e um olho sumido por detrás da membrana. A certa altura, houve que o operar. Mais um sucesso. Idem, com as castrações. E com a gravíssima pneumonia do Deco, que lhe afetou um dos pulmões. Tinha, então, pouco mais de um ano e, ainda hoje, quando piora, ouve-se ao longe a sua ruidosa respiração. Todavia, é um bem disposto, sempre de cauda no ar, e pronto para o diálogo , com os sons heterodoxos, que inventa criativamente, para chamar a atenção. Como era dado a travessuras e desastres, ao contrário do seu gémeo, sempre mais bem comportado eu coloquei-lhes alcunhas condizentes: Jão-Jão "o gato todo bom", e Deco- Deco o "gato todo mau". Exagerando... Um dia a Docas observou: "Não é bem assim, o Jão-Jão também faz muita asneira. Sim, e o Deco, por seu lado, é simpático, cordial e engraçado. Mas o JJ tinha um outro porte e era de uma suavidade sem igual. Escondia-se para saltar sobre as pernas das pessoas, enlaçando-as com as patas dianteiras. E, com a patinha direita dava sapatadas inesperadas na minha cara, contudo, sempre de unhas encolhidas, para não arranhar. Um querido! Não era assim com todo o mundo, só com a dona. Já o Deco andava atrás de qualquer um. Quando tive de reconstruir a casa do lado, a do Sr Evaristo que, por pressão da Mãe, fui praticamente obrigada a comprar logo que se soube estar à venda, (porque ela não queria vizinhos desconhecidos), o meu medo era que os oito gatos fossem molestados. Não houve incidentes nem acidentes, porque todos os trabalhadores estavam avisados que se tratava de animais de altíssima estimação. Aliás, nenhum deles se aproximava das obras, enquanto decorriam, salvo o Deco, que passava lá o dia, em confraternização. Um verdadeiro "gato operário". Sobre a saúde de todos velava o Paulo - gripes, vacinas, faltas de apetite, parasitas, lesões (o Willy rasgou a cauda num espeto qualquer num telhado, a Tita, durante uma fuga, quase sofreu uma perfuração de intestinos, numa outra saliência de metal, depois o Willy apareceu a mancar, com uma pata inchada...).
Entre eles, o Paulo não era, como é óbvio, muito popular, mas passou a pertencer, definitivamente, ao círculo da família Aguiar. 5- ESPLENDOR NA RELVA Nada a ver com o filme, que tinha esse título e que vi, há uma eternidade. A Seta era mesmo esplendorosa e adorava o seu jardim, de onde nunca quis fugir, e onde tinha a sua árvore favorita, a primeira das japoneiras (quatro) que ocupam todo um quintal demasiado exíguo para tantos ramos e folhagem.
Pedia companhia para brincadeiras, para os exercícios de salto em altura, junto ao tronco dessa japoneira: um pauzinho ou uma fita colorida, colocada nos ramos se cima, que ela procurava alcançar, em escalada vertiginosa, ou pulando. Ai de nós, se não retirássemos a mão a tempo, largando pau ou fita! Nunca se cansava. Pedia mais e mais, ainda que poucas vezes atingisse o alvo.. Dentro de casa, bolas de borracha ou de papel serviam o mesmo propósito. Era a viva imagem da felicidade.! Depois, mudou (com a maternidade, a traumática cirurgia?), mostrava o mau feitio, a má disposição, o desagrado connosco, na intensidade do olhar - como nunca vi em gato algum. Mas se não fosse contrariada ( e até a minha mãe fazia muita cerimónia com ela), socializava amavelmente, sentava-se ao colo, ou em cima das nossas camas, onde dormia as sestas. Quando nos apanhava a jeito, nos sofás, vinha sorrateira por detrás, junto á parede, e mordia-nos os cabelos. Nova metamorfose na velhice: mais de bem com a vida, mais meiga, até também com as visitas, que selecionava (a Xana, a Docas, a Zé). Teimosa e obstinada era muitíssimo. Ia para onde lhe apetecesse, e até portas abria, saltando com as patas dianteiras fechadas, em arco, sobre os puxadores - só mesmo os redondos lhe escapavam. 6- O PRAZER DA SUA COMPANHIA
Foram 16 anos cheios de boas recordações, de boa companhia. Tinha personalidade e beleza! Era ainda pequena, quando a mâe viu num jornal uma notícia sobre "a gata mais bonita do mundo". Recortou e mostrou à Olívia, perguntando: "Sabes quem é?" Resposta pronta: "É a Seta!" Não era, mas parecia. Não há fotos da sua infância, talvez porque foi breve e logo marcada pela doença, mas, depois,desabrochou, fez-se uma beldade, e conservou o aspeto quase até ao seu desaparecimento. O princípio do fim, os últimos onze meses, foi desencadeado por súbitos ataques e convulsões. O Paulo veio logo e levou-a à clínica veterinária onde dá colaboração. Fez análises - tudo bem. Com a idade que já tinha, optei por não a submeter a um TAC, com a inevitável anastesia. Ou era epilepsia, doença bem mais rara nos gatos do que nos cães, ou um tumor cerebral. Nunca saberemos, mas eu inclino-me para o tumor fatal. Tomou "luminal" (metade menos um terço de pastilha, de manhã à noite, que lhe dei pontualmente, durante onze meses, disfarçado na pasta da suas latinhas preferidas) e, de começo, melhorou. Os ataques desapareceram, até data muito recente. No mês passado, ainda ninguém diria que lhe restava tão pouca vida. A sua paixão pelo jardim manteve-se até ao último dia, quando deixou de se alimentar, mas não deixou de se arrastar para perto das roseiras. Mal abria a porta da sala, era a primeira a sair. De tarde, tentei dar-lhe soro, a desafia-la para uma 7ª vida. Adormeceu no meu quarto. Está agora no jardim sob uma japoneira, junto ao Mandarim. Não longe do Jão- Jão e da Branquinha. Restam quatro, todos, em boa verdade, já velhotes. Até o Dragão, que será sempre "o pequenino" anda nos 13 anos. Quando o solto no jardim, não manifesta grande vontade de arejar nos telhados. Mas eu vigio, porque em gatinhos "nunca fiando"... A imprevisibilidade é parte do encanto desta espécie. O facto da Seta ser menos imprevisível do que todos os outros, mais tranquila e estável, nos seus hábitos e manifestações, no seu trato muito "civilizado" (nada de pular para cima das mesas, ou de assaltar os pratos de comida alheios, ou até de disputar os dos companheiros, ou de fugir do seu sítio, à falsa fé) era parte da sua quase humanidade. Uma de nós...

EDUCAÇÃO PARA A DESIGUALDADE

1 - Inesperadamente, irrompeu, em pleno verão de 2017, a polémica sobre os cadernos de exercícios escolares diferenciados segundo o sexo, com capa rosa para elas e azul para eles. Perfeito e anacrónico exemplo de uma forma de "educação para a desigualdade"... Estou bem acompanhada nesta abordagem da questão de género em tenra idade, começando pelos intervenientes de programas que vejo invariavelmente, como o "Governo Sombra" e o "Eixo do Mal", continuando por um sem número de outros "opinion makers" de todos os meios de comunicação e terminando - os últimos serão os primeiros...- pela Comissão para a Igualdade de Género e pelo Governo da República. Discussão inédita em tão negligenciado domínio, porque foi efetivamente a primeira vez que a alegação (ou, se preferirem, a evidência) de secundarização de alunas do ensino primário alcançou dimensão nacional, com foros de escândalo. Surpreendida pelo fúria mediática que atingiu obra tão rentável (um sucesso de vendas, ao que consta), a editora apressou-se a retirar os caderninhos do mercado, pelo que não tive a oportunidade de os comprar para aturada leitura e falo pelo que ouvi dizer a quem leu - e a quem não leu... Sabemos o "porquê" da perplexidade da Porto Editora. O mercado está inundado de literatura infantil rosa para meninas delicadas (futuro sexo fraco) e azul para meninos aguerridos (futuro sexo forte), sem que alguma voz suficientemente audível jamais se tivesse antes levantado contra a imposição de modelos de comportamento "de género", que, por esta via, se leva a cabo, contando com a colaboração, consciente ou inconsciente, da família e da escola - salvo as honrosas exceções que sempre existem em relação a qualquer regra. Em vão, já nos alvores do século XX, Ana de Castro Osório bradara contra este estado de coisas. Vale a pena reler que escreveu como pedagoga. O mesmo se diga dos seus contos para crianças, que são verdadeiras obras primas da língua portuguesa. 2 - O que mudou desde então foi, essencialmente, o facto das teses daquela famosa Mulher da 1ª República terem passado do campo da heterodoxia para o do politicamente correto. Mas, na prática, há ainda condicionamentos de toda a ordem à livre expressão da natureza feminina e masculina. Diferenças entre os sexos existem, evidentemente, mas o peso da educação, segundo preconceitos ancestrais de uma sociedade patriarcal, não nos permite distinguir a parte que é da natureza (um bem!), da parte resultante da (des)educação, matriz de preconceitos infundados, de depreciação e discriminação do feminino (um mal!). Na expressão de Simone de Beauvoir, mil vezes citada: "on ne nait pas femme, on le devient" .Na verdade, era a rígida divisão de trabalho, a formação imposta para papéis predeterminados (e não a natureza) que rebaixava a Mulher para o estatuto de "segundo sexo". Assim era mantida pela impossibilidade de acesso ao conhecimento, à aprendizagem de Ciências e Letras e pelas barreiras colocadas ao exercício de uma carreira e a toda e qualquer participação relevante na "res publica". Não é coisa do passado remoto, mas do tempo bem próximo das nossas avós, quando não das nossas mães - na minha própria família, pertenço à primeira geração de mulheres que tirou um curso universitário e teve uma vida profissional, isto é, cujo objetivo de futuro, desde a infância, não foi apenas o casamento. Desde fins do século XIX, o movimento de emancipação feminina centrou-se, inteligentemente, nos campos da educação e da autonomia económica, alcançada por uma remuneração de trabalho fora de casa. (Não menos importante, mas, não o esqueçamos, bem menos consensual, pelo menos entre as republicanas portuguesas, foi a luta pela igualdade de direitos políticos, o sufragismo). As mulheres souberam fazer caminho e mostrar o que valem, em todos os domínios do saber e da intervenção societal Ora uma política de segregação de conteúdos ou de suportes pedagógicos, em função do género, significa um retrocesso às profundezas de oitocentos, quando se considerava permitir o ensino público para as raparigas, desde que simplificado, ajustado às menores aptidões e necessidades a que se julgava corresponder. Nos dias de hoje, isto é simplesmente ridículo e indefensável e foi uma grande insensibilidade para o significado de uma tal opção (em primeira linha comercial) que "tramou" a Porto Editora. Aquilo que nos contos infantis passa sem crítica, não se admite, quando detetado, em material de aprendizagem escolar... Esperemos que o passo seguinte seja a firme denúncia do "sexismo" persistente neste ramo da literatura, não só por parte da Comissão da Igualdade, como por parte dos cidadãos, porque a desigualdade "contra natura" começa no berço e no jardim de infância e não nos bancos da universidade ou nos concursos de admissão a empregos. Como diz, prosaica mas sabiamente, o povo "de pequenino se torce o pepino"... E, se liberdade de expressão dos autores não pode ser posta em causa, pode e deve ser criticada, exposta, ridicularizada ( o ridículo é, afinal, uma das armas mais eficazes!). 3- Voltando à controvérsia dos caderninhos: não sei se, nos trabalhos especificamente colocados às alunas e aos alunos, há, como alguns argumentam, graus equivalentes de dificuldade. Em qualquer caso, a ideia de criar testes autónomos, para um e outro sexo, é bizarra, é absurda, como o seria diferenciar exercícios de matemática ou de história, em função da cor da pele, da religião, da nacionalidade. Mas, para além desta questão, outra há que não oferece dúvida: a dos estereótipos da rapariga que dança "ballet", enquanto o rapaz joga futebol. porque vai influenciar atitudes e escolhas e, não vai contribuir para as afastar, a elas, dos campos de jogos, onde é tão saudável correr e competir, como os afastar,a eles, por muito talentosos que sejam, dos palcos dessa maravilhosa arte, que é o "ballet". Pode ser que haja, mas eu nunca vi, em manual ou em livro infantil, imagens de meninas a jogar à bola ao lado de imagens de meninos em pose de dança... Quem sabe se surgirão, no rasto desta controvérsia? Se sim, acabou sendo benéfica a infeliz iniciativa da tal editora. Será altura para invocar mais um aforismo: "Deus escreve direito por linhas tortas". Em "A DEFESA DE ESPINHO" 7 setembro

agosto 20, 2017

UM TREINADOR À PORTO (finalmente...)

1 - O FCP anda há vários anos - há mais do que os quatro em que a clamorosa ausência de títulos confirmou um temido "fim de ciclo" - à procura de um "treinador à Porto" e de uma "equipa à Porto", que lhe devolvam a sua identidade ganhadora. Estranho é que, no meio do clamor por novas soluções e novos protagonistas, entre as principais vozes que se ouviram ou se leram, poucos tenham sido as que efetivamente se basearam numa ideia precisa do que isso significa. O enfoque era posto apenas em ganhar, com garra, classe, superioridade. Ora em que é que esses atributos diferenciam um competente vencedor - seja ele o SLB, o SCP ou o FCP? Na verdade, de qualquer campeão se espera, precisamente, garra, classe, superioridade Qual é, então. a diferença do Porto? A meu ver, temos de a procurar no passado, na história do futebol nacional, nas origens da instituição, na singularidade de um percurso longo e penoso de afirmação, no modo como nele se forjou o espírito do clube. Num país de tradição imperial, que se manifesta em todos os domínios, da política às finanças e ao desporto, ganhar a partir de Lisboa era coisa natural, expectável, praticamente obrigatória. Fora da capital, semelhante feito tornava-se uma missão quase impossível. Antes da revolução de abril, as vitórias nacionais do FCP foram raras, espaçadas, titânicas, tais eram os obstáculos que contra ele se conjugavam! Numa imagem bíblica, o Porto foi sempre uma espécie de David em luta com Golias (um David, porém, frequentemente perdedor...). Na expressão inglesa, "the underdog". Numa citação com que, vezes sem conta, denunciei o estatuto dos emigrantes portugueses, no antigo regime, uma espécie de "estrangeiros no seu próprio país". A alma, o caráter do FCP forjaram-se, pois, na adversidade, na oposição a poderes constituídos, na incansável prossecução da utopia da igualdade. Uma cultura "à Porto" é, assim, uma cultura de inconformismo e resistência. Cultura inexistente (porventura,até, incompreensível e incompreendida) nos outros grandes clubes, que nasceram e cresceram instalados na "geografia do poder". Na Europa, mesmo em Estados onde o poder político se concentra fortemente numa cidade ou região, a competição, em matéria de desporto, é visivelmente mais aberta e inclusiva. Veja-se o caso da Inglaterra, onde Manchester ou Liverpool facilmente rivalizam com Londres, como, em França, Marselha, Lyon, Mónaco com o PSG, ou, na Itália, Milão ou Turim com a eterna Roma. Na Alemanha, o Bayern tem transformado Munique na capital do futebol, por pura e simples superioridade dentro do retângulo de jogo, é claro... A nosso lado, um outro paradigma centralista, menos extremado embora, é Madrid. Daí surge a natural empatia entre o FCP e o "Barça" (reforçada quando Vitor Baía, Fernando Couto e, depois, Deco brilhavam na Catalunha). 2 - A idade de ouro do FCP começa com o renascimento da democracia no país e deve-se à visão e à liderança de Jorge Nuno Pinto da Costa. Ele fez a revolução igualitária no desporto, nos órgãos federativos, nas estruturas dirigentes. Fez, neste campo, a regionalização que tarda nas vertentes política e financeira, num país cujo desenvolvimento, mais de 40 anos depois, salvo no que respeita às ilhas atlânticas, permanece enredado nas malhas do centralismo, e, consequentemente, cada vez mais assimétrico, mais desigual, mais desertificado no interior. Agora, contudo, assistimos, também no futebol a um retrocesso, pondo em causa equilíbrios que se julgavam adquiridos para sempre, com o regresso dos velhos senhores, em clima de escândalo e suspeição.... 3 - O Porto, de algum modo, deixou que isso acontecesse, baixou a guarda, descurou as suas exemplares estruturas organizacionais, que permitiam a treinadores medíocres, como Adriaanse, ou medianos, como vários outros que me dispenso de nomear, saírem como triunfadores, e não por acaso, antes com reconhecido mérito (graças também, como é óbvio, a uma pléiade de jogadores fora de série, que as famosas estruturas facultavam ). O último verdadeiro treinador "à Porto" fora, na minha opinião, André Villas Boas. Ganhou o que havia para ganhar, na sua "cadeira de sonho", no fim de uma era... Bem mais árduo será o trabalho de Sérgio Conceição. Também ele é portista, também ele está na sua "cadeira de sonho". Todavia, o mesmo sonho exige, hoje, muito mais audácia, muito mais luta contra constrangimentos de toda a ordem, muito mais afrontamento de condições adversas. Este é um Porto, que como o antigo, tem de remar contra ventos e marés, contra tudo e contra todos. Não sei se Sérgio vai conseguir, de imediato, os títulos que nos fogem há tantos anos. Espero que sim! E foi já muito o que conseguiu: devolveu-nos a esperança em vitórias futuras, a certeza de uma equipa a jogar "à Porto", o orgulho na nossa identidade, que, como Homem e profissional, é, também, a sua - feita de imensa competência e generosidade, de energia inesgotável, de ímpeto e rebeldia, quando preciso for, e de coragem sem limites. Se a sorte, como acreditavam os romanos, favorece os audazes, o triunfo será deste Porto de Sérgio Conceição.

agosto 02, 2017

VIVER A DEMOCRACIA NUM PAÍS DE EMIGRAÇÃO E DIÁSPORA

Viver a democracia num país de emigração e Diáspora 1 - Trazer este tema a debate foi a intenção do colóquio organizado, no passado dia 24 de agosto pela Sociedade de Geografia de Lisboa (Comissão das Migrações, atualmente presidida pela Profª Maria Beatriz Rocha Trindade, pioneira dos estudos sobre sociologia das migrações em Portugal), em parceria com a Associação Mulher Migrante. É uma questão importanteDo ponto de vista da organização O seu objetivo foi fazer a história de uma democracia extensiva a todos os portugueses, sem esquecer os que vivem fora de fronteiras territoriais e os modos de continuar esse percurso, num aprofundamento da democracia. É o que pretende significar o título do Colóquio: "Dar voz à Diáspora Portuguesa - Perspetiva Diacrónica dos Mecanismos de Diálogo". Fomos, pois, à procura desses mecanismos, das formas muito concretas de ação para que o diálogo se convertesse no principal instrumento de construção de uma democracia verdadeiramente inclusiva, dando vida à Constituição e às Leis. 2 - Todavia,a reflexão tinha obrigatoriamente de começar antes, nos anos sessenta do século passado, na primeira grande iniciativa que "deu voz à Diáspora", pensou as formas de a unir e de organizar o imenso espaço da lusofonia: os Congressos das Comunidades de Cultura Portuguesa, promovidos pela Sociedade de Geografia, sob a presidência do Prof Adriano Moreira. Estávamos no lugar mais significativo, no Auditório que recebeu o seu nome, com ele próprio a recordar, num empolgante improviso, esses míticos Encontros pioneiros em que se projetava o futuro da lusofonia, da "Nação peregrina em terra alheia", como realidade "sui generis", que haveria de sobreviver ao fim do império. Seguidamente, na sequência que o programa visava, o Deputado José Cesário levou-nos, com toda a força do seu entusiasmo, a lançar "um olhar retrospetivo projetado sobre o futuro": - do que foi feito ao "por fazer", numa perspetiva pragmática, a fim de facilitar, por exemplo, o voto no estrangeiro, a transmissão da nacionalidade, ou a operacionalidade do Conselho das Comunidades Portuguesas (CCP). Coube-me levar a debate o acidentado percurso do primeiro CCP, órgão de representação e audição da Diáspora e o modo como, ao longo de sete anos, foi sendo implementada, em interação Governo/sociedade civil, a "institucionalização.do diálogo com o movimento associativo", numa procura nem sempre fácil, mas eminentemente democrática, de consensos e de expressão das preocupações sentidas pelas pessoas e da sua vontade de influir na mudança. A voz das comunidades, através dos seus dirigentes associativos e jornalistas, fez-se (faz-se!) ouvir no Conselho, mas não só..O programa do Colóquio deu, jusprórpriatamente. destaque semelhante ao primeiro jornal que, a partir de Lisboa, quis ser um traço de união, sobretudo, entre as comunidades então emergentes na Europa, a chamada "emigração a salto". "O Emigrante/mundo Português - razões de um projeto singular" foi uma notável conferência em que, emotivamente, o Padre Vitor Melícias e o Dr Carlos Morais evocaram esses tempos dramáticos e também a memória do co-fundador do Jornal, o Comendador Valentim Morais, falecido poucos dias antes, que muitos de nós tivemos o privilégio de conhecer e que todos admirávamos. O papel da Igreja neste campo também não foi esquecido. Coube a Dom Januário Torgal Ferreira, Bispo Emérito das Forças Armadas, e à Drª Eugénia Quaresma (a primeira mulher a dirigir a "Obra Católica das Migrações") dar-nos o panorama atual da Igreja face à mobilidade - solidariedade e ação social," - dos tempos do mais famoso Bispo do Porto, com quem o então Padre Januário trabalhou de perto, além de ter vivido entre os emigrantes de França, nos anos 60 e 70, até ao tempo atual do Papa Francisco, Um último painel foi dedicado a "novas formas de diálogo", com Mestre Emmanuelle Afonso a falar da "geração Europa", que ela mesma representa, e do "Observatório dos Luso Descendentes", de que é fundadora, e com o Prof José Marques a trazer-nos imagens de uma emigração passada e ainda presente. 3 - Pelas questões que suscitou, foi, a meu ver um convite a voltar a esta temática, num próximo colóquio, olhando a realidade cada vez mais heterógenea das nossas migrações, em que coexistem as correntes tradicionais e as novas (num verdadeiro "brain drain"que leva do país a sua juventude mais qualificada) e as formas de estimular o relacionamento entre todos, entre as antigas comunidades com o seu espírito comunitário, e estes novos protagonistas, que parecem mais individualistas, mas podem, afinal, não o ser - e contribuir para cria lá fora mais Diáspora, que é sempre, presença coletiva. O desafio e dar-lhes voz

No jornal "AS ARTES ENTRE AS LETRAS" - 10 junho 2017

PORTUGAL; CAMÕES E OS LUSÍADAS DO SÉCULO XXI 1 - O "10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas” é uma expressão da liberdade de ser português, da "lusitana antiga liberdade", que o Poeta cantou e do seu renascimento contemporâneo, na trilha acidentada de uma revolução. Veio ocupar, naturalmente, o lugar do "10 de junho, Dia da Raça”, que o regime deposto celebrava, com pompa imperial, no Terreiro do Paço, mantendo a data e, numa cidade diferente, em cada ano, a evocação de Camões, com outra leitura de "Os Lusíadas", outra visão da história e de nós, hoje. A revolução de 74 derrubou uma ditadura de meio século, resolveu o impasse de uma guerra sem sentido e fechou o ciclo colonial, recolocando o Estado nas suas fronteiras geográficas europeias, mas não quis, nem poderia querer, pôr fim à presença universal dos portugueses. Presença que tem "vida própria", à margem dos desígnios e do poder do Estado, em múltiplas formas de integração nas mais diversas sociedades que, não por mero acaso, certamente, ganhou, então, uma nova visibilidade. “Há um Portugal maior do que o Império que se fez e desfez e que é constituído pelos portugueses, onde quer que vivam”, diria Vitorino Magalhães Godinho num 10 de junho, realizado sob a égide do primeiro presidente eleito da jovem democracia, António Ramalho Eanes. Com a mesma clareza, falava o Primeiro-ministro Sá Carneiro, em 1980: “Portugal foi uma Nação de colónias. Hoje não é apenas uma Nação territorial, é uma Nação de povo" .“Uma Nação de Comunidades”. “É uma cultura, mais do que uma organização rígida”. A existência da Diáspora, parte integrante da Nação, precedeu, de facto, em alguns séculos, o seu conceito, o seu reconhecimento - uma Diáspora que se afirmou na construção de espaços extra territoriais da sua cultura, em fácil diálogo com outras culturas, numa malha densa de instituições focadas na defesa da língua e na fidelidade a tradições e valores humanistas. Pura “sociedade civil”, que ao Estado nada deve…. 2 - A nossa vocação migratória revelou-se, é certo, a partir do plano estatal de expansão marítima e colonização de vastas possessões, mas depressa o transcendeu, de uma forma espontânea e imparável. O êxodo foi assumindo, crescentemente, o carácter de aventura individual, em destinos transoceânicos, (sobretudo o Brasil colonial e, depois, com o mesmo espírito e os mesmos objetivos, o Brasil independente) e, por isso, os historiadores das nossas migrações não conseguem determinar, precisamente, o momento e os termos da transição de um ao outro dos fenómenos – da colonização à emigração – reconhecendo a prevalência desta última, dentro e fora do universo colonial. O Estado tentou, em vão, proibi-la, ou limita-la, porque, na sua ótica, como, aliás, na dos académicos e até na da opinião pública, os males de uma debandada de tamanha grandeza superavam as vantagens, avaliadas, essencialmente, em termos economicistas (contributo para a exploração de recursos das colónias, réditos do comércio, remessas de emigrantes). Valores substanciais, mas perecíveis, que tiveram o seu tempo e com ele se desvaneceram. O que persiste, afinal, é o incomensurável espaço de lusofonia e de lusofilia, um universo linguístico e cultural em expansão, engendrado pela vontade de cidadãos, muitos dos quais partiram à revelia dos governos. Faz, pois, todo o sentido, colocar no centro das comemorações do Dia de Portugal a língua de Camões (que de europeia se volveu, mais por mérito dos povos que a partilharam, no seu relacionamento quotidiano, do que dos Estados, também, em americana, africana, asiática, universal) e as comunidades portuguesas, que vivem, em paz e harmonia, nos principais lugares onde aconteceu a aventura coletiva que o Poeta imortalizou. O povo - "Solúvel e insolúvel este povo, na memória dos outros e na sua mesma", nas palavras de Jorge de Sena. . 3 - A ideia de um "Portugal - Nação de Comunidades", dentro e fora do território, ganha força em consensos alargados, traduzidos no estatuto de direitos dos expatriados, nas leis e nas iniciativas com que o Estado acolhe Nação inteira, num tempo de recomeço de migrações em massa. Uma realidade que exige dos responsáveis pela "res publica", políticas de reencontro com os portugueses e entre portugueses, onde quer que vivam: verdadeiras políticas de "desterritorialização". O 10 de junho convida, muito em especial, à reflexão sobre as infinitas potencialidades que elas nos abrem. Um passo em frente, de grande significado, se ficou a dever ao Presidente Marcelo, quando, em 2016, em início de mandato, decidiu "desterritorializar" a própria comemoração, que foi celebrar a Paris, com os seus concidadãos. Depois, será a vez de São Paulo e do Rio, a par do Porto, ou de Newark, ou de Macau... Um gesto inédito, porventura, a nível planetário, que nos diz mais do que muitos discursos. Diz-nos que na história da civilização “fizemos a diferença” e diz-nos, também, que essa história, ainda hoje, faz a nossa diferença.

julho 21, 2017

UM POUCO MAIS DE DEMOCRACIA

1 - A democracia não é só um momento da libertação, é um percurso de aperfeiçoamento incessante. Temos de reconhecer que Portugal mudou bastante desde o 25 de abril de 1974 -a organização do Estado, tal como os costumes, a rede de estradas, a saúde, a escola... - mas há aspetos em que continua demasiadamente igual ao que era. País imperial sem império, centralizador (Lisboa e províncias, em vez de Lisboa e colónias...). País profundamente desigual nas oportunidades que oferece, segundo a situação geográfica (litoral/interior), o género, a geração, a fortuna... País de emigração forçada, com vícios de estruturais, assimetrias, anacronismos, que não serão erradicados, sem uma nova sensibilidade à própria existência das desigualdades. Nós, os cidadãos, não podemos considerar "natural" que tenham a sede em Lisboa todos os órgãos de soberania, as cúpulas da administração, as instituições públicas, a TAP (desvalorizando, crescentemente, as outras regiões), as televisões, incluindo a pública (com apenas uma delegação a norte, subvalorizada e subaproveitada) as principais rádios, quase todos os jornais de circulação nacional, os grandes eventos, exposições, agências internacionais. Nenhuma democracia europeia consolidada apresenta um semelhante quadro de macrocefalia, nem mesmo antigos Estados imperiais, como a França, ou a Grã-Bretanha, a Espanha ou a Holanda. Exemplos bem recentes mostram o constante agravamento desse estado de coisas: caso da candidatura de Lisboa à relocalização de uma organização internacional, havendo duas já instaladas na cidade, com argumentação falaciosa (só as vozes que, depois, se levantaram a norte, levaram o governo a reconsiderar), ou da organização por Portugal do próximo festival da Eurovisão, de imediato, proposta para a capital. A contestação veio, rápida e oportuna, de várias cidades, com Espinho na vanguarda. É assim que é preciso reagir, apresentando alternativas 2 - Terá sido como adepta portista que primeiro senti a força da discriminação, da injustiça (na relação norte-sul) e me converti em regionalista, antes, pois, de ter idade para saber exatamente o que isso era. Depois, como menina, habituei-me a contestar, do mesmo modo, o estatuto de limitações que me queriam impor, face aos rapazes da família. Assim nasceu, ao que creio, o meu gosto pelo contra-poder. Foi o facto de ser, como cidadã, uma ruidosa defensora da igualdade, nomeadamente de género, que me levou, em linha reta, para o IV Governo Constitucional, chefiado pelo Prof Mota Pinto e formado por independentes. O Professor, que ouvira, vezes sem conta, as minhas discursatas em tertúlias académicas, usou o mais forte dos argumentos para me convencer: se não avançasse, seria responsável por não haver mulheres no seu governo. Avancei. Era a hora de passar das palavras aos atos. E viria a repetir a experiência, noutros pelouros e funções, durante mais de trinta longos anos. Em todo esse tempo, fui uma fiel praticante da crença numaa democracia feita de pluralismo, de alteridade de equilíbrios - desde logo, de género, de geração. Nos gabinetes, nas promoções de chefias, na divisão de tarefas, sempre procurei atingir a meta da paridade, como factor de mais cidadania, criatividade e competência. Reconheço que fui a primeira beneficiária dessa preocupação de me rodear, sempre, de gente mais sábia e mais experientes do que eu. E até a hora da despedida de um último cargo, de vereadora, em 2011, foi decidida com o respeito de tais critérios. Na verdade, teria levado o mandato até ao fim, para não defraudar a regra das quotas, se na lista eleitoral, o meu substituto fosse um homem. Felizmente, era a Leonor Fonseca, uma mulher jovem, que prometia ser, e foi, a sucessora perfeita, competente e carismática. Uma autocrítica devo a mim própria, todavia, pois se fui consequente ao entrar na política, sem querer, para afirmar a presença feminina, não o fui ao sair, por querer sair, sem cuidar da “quota intergeracional”, dando o meu lugar a uma jovem. Tendo consciência desta discriminação (mais insidiosa do que qualquer outra), não a combati até ao limite do possível, permanecendo em funções, como única "representante" do meu grupo etário. 3 - Pergunto os "porquês", sem saber a resposta. Fico no campo das hipóteses: talvez porque a avaliação de prós e contras seja coisa complexa, talvez por falta de movimentos de luta, de pensamento e solidariedade de grupo, talvez porque os mais velhos tendam a interiorizar, sem resistência, a máxima do "dar lugar aos jovens",. Assim é, sobretudo numa sociedade como a portuguesa, em que tudo parece impelir os sexagenários para fora de cena, em qualquer sector, do desporto à política. Quem, desconhecendo o nosso quadro demográfico, comparasse a média de idade dos grandes protagonistas do futebol (num país latino, como a Itália) ou da política (na super potência que é a América), com a que se regista em Portugal, pensaria que se trata de um país extremamente jovem. Ora, pelo contrário, somos dos mais envelhecidos, pelo que a retirada prematura dos idosos da vida ativa é uma perda de tremenda dimensão, prejudicando a economia e enfraquecendo a democracia. É tema que temos de colocar em agenda, urgentemente, para estimular as boas práticas, os bons exemplos. E exemplos não faltam, como o de Ricardo Carvalho, a jogar um fabuloso futebol, aos 39 anos, na longínqua China, ou, aqui mais perto, o caso de Doutor Basilino Godinho, topógrafo reformado, que, depois dos 77 anos foi cumprir o sonho de uma carreira académica, inscreveu-se na Universidade de Aveiro, completou um curso de Letras, com 17 valores, e, seguidamente, com o mesmo brilho, o doutoramento, defendendo tese sobre Antero de Quental. Mantém um blogue (“cartas irreverentes”), quer exercer nova profissão, fala abertamente do “desperdício dos idosos no nosso país” e de como se sente jovem entre os jovens..A idade que importa, de facto, não é a do bilhete de identidade

junho 11, 2017

Viver a democracia num país de emigração e Diáspora 1 - Trazer este tema a debate foi a intenção do colóquio organizado, no passado dia 24 de agosto pela Sociedade de Geografia de Lisboa (Comissão das Migrações, atualmente presidida pela Profª Maria Beatriz Rocha Trindade, pioneira dos estudos sobre sociologia das migrações em Portugal), em parceria com a Associação Mulher Migrante. É uma questão importanteDo ponto de vista da organização O seu objetivo foi fazer a história de uma democracia extensiva a todos os portugueses, sem esquecer os que vivem fora de fronteiras territoriais e os modos de continuar esse percurso, num aprofundamento da democracia. É o que pretende significar o título do Colóquio: "Dar voz à Diáspora Portuguesa - Perspetiva Diacrónica dos Mecanismos de Diálogo". Fomos, pois, à procura desses mecanismos, das formas muito concretas de ação para que o diálogo se convertesse no principal instrumento de construção de uma democracia verdadeiramente inclusiva, dando vida à Constituição e às Leis. 2 - Todavia,a reflexão tinha obrigatoriamente de começar antes, nos anos sessenta do século passado, na primeira grande iniciativa que "deu voz à Diáspora", pensou as formas de a unir e de organizar o imenso espaço da lusofonia: os Congressos das Comunidades de Cultura Portuguesa, promovidos pela Sociedade de Geografia, sob a presidência do Prof Adriano Moreira. Estávamos no lugar mais significativo, no Auditório que recebeu o seu nome, com ele próprio a recordar, num empolgante improviso, esses míticos Encontros pioneiros em que se projetava o futuro da lusofonia, da "Nação peregrina em terra alheia", como realidade "sui generis", que haveria de sobreviver ao fim do império. Seguidamente, na sequência que o programa visava, o Deputado José Cesário levou-nos, com toda a força do seu entusiasmo, a lançar "um olhar retrospetivo projetado sobre o futuro": - do que foi feito ao "por fazer", numa perspetiva pragmática, a fim de facilitar, por exemplo, o voto no estrangeiro, a transmissão da nacionalidade, ou a operacionalidade do Conselho das Comunidades Portuguesas (CCP). Coube-me levar a debate o acidentado percurso do primeiro CCP, órgão de representação e audição da Diáspora e o modo como, ao longo de sete anos, foi sendo implementada, em interação Governo/sociedade civil, a "institucionalização.do diálogo com o movimento associativo", numa procura nem sempre fácil, mas eminentemente democrática, de consensos e de expressão das preocupações sentidas pelas pessoas e da sua vontade de influir na mudança. A voz das comunidades, através dos seus dirigentes associativos e jornalistas, fez-se (faz-se!) ouvir no Conselho, mas não só..O programa do Colóquio deu, jusprórpriatamente. destaque semelhante ao primeiro jornal que, a partir de Lisboa, quis ser um traço de união, sobretudo, entre as comunidades então emergentes na Europa, a chamada "emigração a salto". "O Emigrante/mundo Português - razões de um projeto singular" foi uma notável conferência em que, emotivamente, o Padre Vitor Melícias e o Dr Carlos Morais evocaram esses tempos dramáticos e também a memória do co-fundador do Jornal, o Comendador Valentim Morais, falecido poucos dias antes, que muitos de nós tivemos o privilégio de conhecer e que todos admirávamos. O papel da Igreja neste campo também não foi esquecido. Coube a Dom Januário Torgal Ferreira, Bispo Emérito das Forças Armadas, e à Drª Eugénia Quaresma (a primeira mulher a dirigir a "Obra Católica das Migrações") dar-nos o panorama atual da Igreja face à mobilidade - solidariedade e ação social," - dos tempos do mais famoso Bispo do Porto, com quem o então Padre Januário trabalhou de perto, além de ter vivido entre os emigrantes de França, nos anos 60 e 70, até ao tempo atual do Papa Francisco, Um último painel foi dedicado a "novas formas de diálogo", com Mestre Emmanuelle Afonso a falar da "geração Europa", que ela mesma representa, e do "Observatório dos Luso Descendentes", de que é fundadora, e com o Prof José Marques a trazer-nos imagens de uma emigração passada e ainda presente. 3 - Pelas questões que suscitou, foi, a meu ver um convite a voltar a esta temática, num próximo colóquio, olhando a realidade cada vez mais heterógenea das nossas migrações, em que coexistem as correntes tradicionais e as novas (num verdadeiro "brain drain"que leva do país a sua juventude mais qualificada) e as formas de estimular o relacionamento entre todos, entre as antigas comunidades com o seu espírito comunitário, e estes novos protagonistas, que parecem mais individualistas, mas podem, afinal, não o ser - e contribuir para cria lá fora mais Diáspora, que é sempre, presença coletiva. O desafio e dar-lhes voz

Maria Manuela Aguiar Dias Moreira Data de nascimento 9 junho 1942 Naturalidade Gondomar - Portugal FORMAÇÃO ACADÉMICA (1960) - Curso do Liceu (18 valores) (1965) - Licenciatura em Direito, Universidade de Coimbra (17 valores e media geral de 16, Bom , com distinção). (1969) "Titularisation" - École Pratique des Hautes Études, Paris - Sociologia (1970) - Diplôme Supérieur d' Études et de Recherche en Droit, Institut Catholique de Paris, Faculté Libre de Droit et Sciences Economiques, Paris 2- ESTÁGIOS, CURSOS, BOLSAS DE ESTUDO (1966) - Estágio do Notariado (1966/1967) - Estágio de Advocacia (1968) - Bolsa do Instituto Internacional de Estudos do Trabalho, OIT - "Study course on Labour problems in economic and social development", Geneva (1968/1970) - Bolsa de Estudos da Fundação Gulbenkian, Paris Titularização na "École Pratique des Hautes Études", VI Section (Sociologia Industrial) Certificados em "Sociologia das Instituições", Filosofia do Direito (classificação Bom), Sociologia do Direito (classificação Muito Bom), Diplôme Supérieur d' Études et de Recherche en Droit (1970) - "Connaissance de Suède", Universidade de Upsalla, Instituto de Informação, Estocolmo (1974) . Bolsa das Nações Unidas, Genebra (1978) - United Nations Human Rights Fellowship - bolsa para um estudo comparativo dos modelos de "Ombudsman" ( Londres, Cardiff, Edimburgo, Estocolmo, Copenhaga, Paris) (1996) - Bolsa do Marshall Memorial Fellowship Program, EUA - palestras e conferências - Linfield College, Oregon, Lake Forest College, Illinois ATIVIDADES PROFISSIONAIS 1967-1974 - Assistente do Centro de Estudos Sociais e Corporativos, Ministério das Corporações e Segurança Social. (1971-1972) - Assistente da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa (sociologia - assistente do Prof Álvaro Melo e Silva). (1974-1976) - Assistente da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra (Teoria Geral do Direito e Introdução ao Estudo do Direito, assistente do Prof Rui Alarcão). (1975-1976) - Regência do curso de Introdução ao Estudo do Direito. Membro da Linha de investigação sobre Direito de Família, dirigida pelo Prof. Pereira Coelho. Eleita para o Conselho Pedagógico da Faculdade de Direito (1976-1978 - Assessor do Provedor de Justiça (área da Segurança Social) (!992-1994) - Docente convidada da Universidade Aberta, Lisboa, Mestrado de Relações Interculturais, Disciplina de "Políticas e Estratégias para as Comunidades Portuguesas" ATIVIDADE POLÌTICA (1978.1979) IV Governo Constitucional - Secretária de Estado do Trabalho (1980) VI Governo Constitucional - Secretária de Estado da Emigração e das Comunidades Portuguesas (1980) Deputada eleita pelo Circulo de Emigração Fora da Europa (1981/1982) VII Governo Constitucional - Secretária de Estado das Comunidades Portuguesas (1983) Deputada eleita pelo Círculo de Emigração Fora da Europa (1983/1985) Secretária de Estado da Emigração (1985) Deputada eleita pelo círculo de Emigração da Europa (1985/1987) Secretária de Estado das Comunidades Portuguesas (1987) Deputada eleita pelo Círculo do Porto (1987.1991) Eleita Vice-presidente da Assembleia da República (1991) Deputada eleita pelo Círculo de Aveiro (1992 2005) Representante de Portugal na Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa e na Assembleia da UEO (1993) Presidente da Sub-comissão das Migrações (1993) Vice-Presidente da Comissão de Regimento (1994/1997) Presidente da Comissão das Migrações, Refugiados e demografia (1997 e, sgs) Membro da Direção ("Bureau") da Grupo Liberal (2002-2005) Presidente da Delegação Portuguesa à Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa e à Assembleia da UEO. Vice-Presidente da Assembleia da UEO Membro da Direção do PPE (2003-2005) Vice-Presidente da Comissão da Igualdade 2004 -2005 - Presidente da Sub-comissão da Igualdade (2005) Membro Honorário da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa e da Assembleia da UEO Numerosos relatórios nas organizações internacionais PRESIDÊNCIA DE DELEGAÇÕES PORTUGUESAS A CONFERÊNCIAS E ORGANIZAÇÕES INTERNACIONAIS (1980) Presidente da Delegação Portuguesa à Conferência a meio da década das Nações Unidas para as Mulheres", Copenhaga (1983) Presidente da Delegação Portuguesa à II Conferência de Ministros do Conselho da Europa responsáveis pelas migrações, eleita Vice-presidente da Comissão, Roma (1984) Presidente da Delegação Portuguesa à I Conferência de Ministros do Conselho da Europa para a Igualdade, Estrasburgo (1987) Presidente da Delegação Portuguesa e Presidente eleita da III Conferência de Ministros dos Conselho da Europa, responsáveis pelas migrações, Porto (1988) Presidente da Delegação Parlamentar ao Japão, na primeira visita nas relações parlamentares dos dois países (1989) Presidente da Delegação Parlamentar à Hungria (1990) Presidente da Delegação Parlamentar à Suiça (2002-2005) - Presidente da Delegação Portuguesa às Assembleias Parlamentares do Conselho da Europa e da Organização da Europa Ocidental COMUNICAÇÕES E RELATÓRIOS EM ORGANIZAÇÕES INTERNACIONAIS ONU (1980) Intervenção na Conferência a meio da década das Nações Unidas à Mulher - Igualdade, Desenvolvimento e Paz, Copenhague, 15 de julho APCE (1981) Migrações portuguesas e cooperação internacional", exposição à reunião da Comissão das Migrações, dos Refugiados e da Demografia, Lisboa, Assembleia da República, 3 de setembro (1983) Intervenção na 2ª Conferência dos Ministros Europeus responsáveis pelas questões das migrações, Roma, 25 de outubro (1984) Comunicação ao Colóquio "Os estrangeiros - uma ameaça ou um trunfo?", organizado pela Comissão das Migrações, dos Refugiados e das Migrações. Estrasburgo, 20 de março (1984) Comunicação ao seminário sobre "As relações intercomunitárias", Estrasburgo, 8 de novembro (1988) ONU, Peticionária a favor de Timor Leste, Comissão de Descolonização. Nova York (1999) - Liens entre les Européens vivant à l' étranger et leur pays d' origine" (rapporteuses Manuela Aguiar et Ana Guirado), Commissin des migrations, des réfugiés et de la démographie (2001) - "Non-expulsion des immigrés de longue durée" (rapporteuse), Commission des migrations, des réfugiés et de la démographie (2001) - "Le droit de vivre en famille pour les migrants e les réfigiés", Commission des migrations, des réfugiés et de la démographie (2002) - "Séjour, statut juridique et liberté de circulation des travailleurs migrants en Europe: les enseignements du cas du Portugal", APCE, Commission des migrations, des réfugiés et de la demographie (2004) - "Droits de la nationalité e égalité des chances" (rapporteuse), Commission sur l' égalité des chances pour les femmes et les hommes (2005) - "Discrimination des femmes et des jeunes filles dans les activités sportives" (rapporteuse), Commission sur l'égalité des chances pour les femmes et les hommes AUEO (2001) - "European defence: pooling and srengthening national and European capabilities" (reply to the annual report of the Council), Defense Committee OCDE (1984) Comunicação à Reunião sobre "Aforro privado ao serviço do desenvolvimento da empresa nas regiões de emigração - o papel das instituições financeiras", Esmirna, 3 de abril (1986) "A experiência dos países europeus de origem", comunicação à Conferência sobre "L' Avenir des migrations, Paris, 13 de maio" COMUNICAÇÔES (1980) "Problemas e perspetivas da emigração portuguesa", exposição ao curso de Defesa Nacional, Instituto de Defesa Nacional, 10 de março (1981) Comunicação ao 1º Conselho das Comunidades Portuguesas, Lisboa, 2 de abril (1981) "Bases e prioridades da política relativa à emigração e às comunidades portuguesas", exposição ao Curso de Defesa Nacional, Instituto de Defesa Nacional, 5 de maio (1983) Comunicação ao 2º Conselho das Comunidades Portuguesas, Porto, novembro (1984) "A política de apoio ao emigrante português na conjuntura atual", exposição ao Curso de Formação para Emigrantes, Bona, 24 de fevereiro (1984) "As Comunidades Portuguesas no estrangeiro - situação atual e perspetivas futuras", exposição ao Curso de Defesa Nacional, Instituto de Defesa Nacional, 7 de março (1985) "Emigração: os regressos invisíveis", exposição ao Curso de Defesa Nacional, Instituto de Defesa Nacional, março (1985) Comunicação ao "1º Encontro de Mulheres Portuguesas no Associativismo e no Jornalismo", organizado pela SECP, Viana do Castelo, junho (1985) "A dupla nacionalidade dos imigrantes, do ponto de vista de um país de um país de emigração", Mesa redonda sobre Dupla Nacionalidade dos Migrantes, organizada pelo Governo Sueco, Estocolmo, 6 de setembro (1986) "Linhas fundamentais das politicas de emigração", exposição ao Curso de Defesa Nacional, Instituto de Defesa Nacional, 10 de março (1986) "Emigração e Regresso", exposição ao Curso Superior de Guerra Aérea, Instituto dos Altos Estudos da Força Aérea, 13 de março (1986) "Portugal na CEE - consequências para a emigração", colóquio organizado pelo Instituto Sindical de Estudos, Formação e Cooperação (1986) Intervenção no colóquio "A 2ª geração da emigração contemporânea no cinema" - Festival Internacional da Figueira da Foz, 20 de setembro (1986) Intervenção no II Congresso das Comunidades Açorianas, Angra do Heroísmo, 26 de setembro (1987) " Emigração portuguesa, fenómeno persistente - uma visão diacrónica", exposição ao Curso de Defesa Nacional, Instituto de Defesa Nacional, 9 de março (1987) Comunicação à III Conferência dos Ministros Europeus responsáveis pelas questões de emigração, Porto, 13 de maio (1988) " L' importance des liens des Européens de l'étranger avec leurs pays d'origine" - exposição à Assembleia Geral do Congresso dos Suíços no Estrangeiro" , Baden, 28 de agosto (1993) Comunicação à V Conferência dos Ministros Europeus responsáveis pelas questões das migrações, Atenas,18 de novembro (2015). "Políticas de Género na Emigração Portuguesa", Colóquio "Expressões de Cidadania no Feminino", organização da Mulher Migrante,Associação de Estudo, Cooperação e Solidariedade, da Universidade do Minho e da Câmara de Monção (2015) "Origem e Evolução do 1.º Conselho das Comunidades Portuguesas", Colóquio "Diálogos sobre Cultura, Cidadania e Género", Sorbonne Nouvelle, Paris (2016) "Políticas de Género e Movimentos Cívicos na Emigração Portuguesa", Colóquio "Mulheres em Movimento", Universidade de Toronto, Departamento de Espanhol e Português (2017) "O Conselho das Comunidades Portuguesas : institucionalização do Diálogo com o movimento associativo" - Colóquio "Dar voz à Diáspora - perspetiva diacrónica dos mecanismos de diálogo", promovido pela Comissão das Migrações da Sociedade de Geografia e pela "Mulher Migrante, Associação de Estudo, Cooperação e Solidariedade PUBLICAÇÕES (1987) "Política de Emigração e Comunidades Portuguesas", Série Migrações, Centro de Estudos, Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas (1995) "Portugal o Pais das Migrações sem fim", Lisboa, Cabográfica. (2004 ) "No Círculo da Emigração", Lisboa, Belgráfica (2005) "Comunidades Portuguesas - os direitos e os afetos", Gaia, Rocha Artes Gráficas. (2007) "Migrações - Iniciativas para a igualdade de género", (coord.) Edição Mulher Migrante, Associação de Estudo, Cooperação e Solidariedade (2006) Brasil-Portugal: a questão da reciprocidade (2009) "Cidadãs da Diáspora" (coord), Edição Mulher Migrante Associação de estudo, Cooperação e Solidariedade. (2009) Problemas Sociais da Nova Emigração (coord) Edição da Mulher Migrante, Associação de estudo, Cooperação e Solidariedade (2011) Encontro Mundial de Mulheres Portuguesas na Diáspora, Maria Manuela Aguiar e Maria da Graça Sousa Guedes (org) (2014) Entre Portuguesas 2014, Maia Manuela Aguiar, Graça Guedes, Arcelina Santiago, (coord), Ed Mulher Migrante Associação de estudo, Cooperação e Solidariedade (2015) Entre Portuguesas 2015, Maria Manuela Aguiar, Graça Guedes, Arcelina Santiago (coord), Edição Mulher Migrante Associação de Estudo, Cooperação e Solidariedade ARTIGOS RECENTES Aguiar, Manuela (2008) "Mulheres migrantes e intervenção cívica", em Maria Rosa Simas (org.), A mulher e o trabalho nos Açores e nas comunidades, Ponta Delgada, UMAR- Açores, pp. 1247-1258 Aguiar, Manuela (2009) "Formas de exteriorização da pertença", em Maria Beatriz Rocha Trindade (org.), Migrações, Permanências e Diversidades,Lisboa, Biblioteca das Ciência Sociais, pp.263-269 Aguiar, Manuela (2009) "O Conselho das Comunidades Portuguesas e a representação de emigrantes" em Beatriz Padilha e Maria Xavier, Migrações entre Portugal e a América Latina, Revista Migrações, Lisboa, outubro, pp.257-263 Aguiar, Maria Manuela (2010) "Emigração portuguesa - olhares sobre a ausência: uma perpetiva diacrónica" em Polígonos Revista de Geografia, nº 20, Departamento de Geografia, Universidade de León, pp 91-115 Aguiar, Maria Manuela (2012) "Portuguese republican women out of the shadows" em Richard Herr and António Costa Pinto (ed.), The Portuguese Republic at one hundred, Portuguese Studies Program, University of California, Berkeley. pp.181-196 Aguiar, Manuela (2014) "A questão de nas políticas de emigração portuguesa", em Joana Miranda e Ana Paula Beja Horta (org.), Migrações e Género - espaços, poderes e identidades, Lisboa, Mundos Sociais, pp. 75-93

Maria Manuela Aguiar Dias Moreira Data de nascimento 9 junho 1942 Naturalidade Gondomar - Portugal FORMAÇÃO ACADÉMICA (1960) - Curso do Liceu (18 valores) (1965) - Licenciatura em Direito, Universidade de Coimbra (17 valores e media geral de 16, Bom , com distinção). (1969) "Titularisation" - École Pratique des Hautes Études, Paris - Sociologia (1970) - Diplôme Supérieur d' Études et de Recherche en Droit, Institut Catholique de Paris, Faculté Libre de Droit et Sciences Economiques, Paris 2- ESTÁGIOS, CURSOS, BOLSAS DE ESTUDO (1966) - Estágio do Notariado (1966/1967) - Estágio de Advocacia (1968) - Bolsa do Instituto Internacional de Estudos do Trabalho, OIT - "Study course on Labour problems in economic and social development", Geneva (1968/1970) - Bolsa de Estudos da Fundação Gulbenkian, Paris Titularização na "École Pratique des Hautes Études", VI Section (Sociologia Industrial) Certificados em "Sociologia das Instituições", Filosofia do Direito (classificação Bom), Sociologia do Direito (classificação Muito Bom), Diplôme Supérieur d' Études et de Recherche en Droit (1970) - "Connaissance de Suède", Universidade de Upsalla, Instituto de Informação, Estocolmo (1974) . Bolsa das Nações Unidas, Genebra (1978) - United Nations Human Rights Fellowship - bolsa para um estudo comparativo dos modelos de "Ombudsman" ( Londres, Cardiff, Edimburgo, Estocolmo, Copenhaga, Paris) (1996) - Bolsa do Marshall Memorial Fellowship Program, EUA - palestras e conferências - Linfield College, Oregon, Lake Forest College, Illinois ATIVIDADES PROFISSIONAIS 1967-1974 - Assistente do Centro de Estudos Sociais e Corporativos, Ministério das Corporações e Segurança Social. (1971-1972) - Assistente da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa (sociologia - assistente do Prof Álvaro Melo e Silva). (1974-1976) - Assistente da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra (Teoria Geral do Direito e Introdução ao Estudo do Direito, assistente do Prof Rui Alarcão). (1975-1976) - Regência do curso de Introdução ao Estudo do Direito. Membro da Linha de investigação sobre Direito de Família, dirigida pelo Prof. Pereira Coelho. Eleita para o Conselho Pedagógico da Faculdade de Direito (1976-1978 - Assessor do Provedor de Justiça (área da Segurança Social) (!992-1994) - Docente convidada da Universidade Aberta, Lisboa, Mestrado de Relações Interculturais, Disciplina de "Políticas e Estratégias para as Comunidades Portuguesas" ATIVIDADE POLÌTICA (1978.1979) IV Governo Constitucional - Secretária de Estado do Trabalho (1980) VI Governo Constitucional - Secretária de Estado da Emigração e das Comunidades Portuguesas (1980) Deputada eleita pelo Circulo de Emigração Fora da Europa (1981/1982) VII Governo Constitucional - Secretária de Estado das Comunidades Portuguesas (1983) Deputada eleita pelo Círculo de Emigração Fora da Europa (1983/1985) Secretária de Estado da Emigração (1985) Deputada eleita pelo círculo de Emigração da Europa (1985/1987) Secretária de Estado das Comunidades Portuguesas (1987) Deputada eleita pelo Círculo do Porto (1987.1991) Eleita Vice-presidente da Assembleia da República (1991) Deputada eleita pelo Círculo de Aveiro (1992 2005) Representante de Portugal na Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa e na Assembleia da UEO (1993) Presidente da Sub-comissão das Migrações (1993) Vice-Presidente da Comissão de Regimento (1994/1997) Presidente da Comissão das Migrações, Refugiados e demografia (1997 e, sgs) Membro da Direção ("Bureau") da Grupo Liberal (2002-2005) Presidente da Delegação Portuguesa à Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa e à Assembleia da UEO. Vice-Presidente da Assembleia da UEO Membro da Direção do PPE (2003-2005) Vice-Presidente da Comissão da Igualdade 2004 -2005 - Presidente da Sub-comissão da Igualdade (2005) Membro Honorário da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa e da Assembleia da UEO Numerosos relatórios nas organizações internacionais PRESIDÊNCIA DE DELEGAÇÕES PORTUGUESAS A CONFERÊNCIAS E ORGANIZAÇÕES INTERNACIONAIS (1980) Presidente da Delegação Portuguesa à Conferência a meio da década das Nações Unidas para as Mulheres", Copenhaga (1983) Presidente da Delegação Portuguesa à II Conferência de Ministros do Conselho da Europa responsáveis pelas migrações, eleita Vice-presidente da Comissão, Roma (1984) Presidente da Delegação Portuguesa à I Conferência de Ministros do Conselho da Europa para a Igualdade, Estrasburgo (1987) Presidente da Delegação Portuguesa e Presidente eleita da III Conferência de Ministros dos Conselho da Europa, responsáveis pelas migrações, Porto (1988) Presidente da Delegação Parlamentar ao Japão, na primeira visita nas relações parlamentares dos dois países (1989) Presidente da Delegação Parlamentar à Hungria (1990) Presidente da Delegação Parlamentar à Suiça (2002-2005) - Presidente da Delegação Portuguesa às Assembleias Parlamentares do Conselho da Europa e da Organização da Europa Ocidental COMUNICAÇÕES E RELATÓRIOS EM ORGANIZAÇÕES INTERNACIONAIS ONU (1980) Intervenção na Conferência a meio da década das Nações Unidas à Mulher - Igualdade, Desenvolvimento e Paz, Copenhague, 15 de julho APCE (1981) Migrações portuguesas e cooperação internacional", exposição à reunião da Comissão das Migrações, dos Refugiados e da Demografia, Lisboa, Assembleia da República, 3 de setembro (1983) Intervenção na 2ª Conferência dos Ministros Europeus responsáveis pelas questões das migrações, Roma, 25 de outubro (1984) Comunicação ao Colóquio "Os estrangeiros - uma ameaça ou um trunfo?", organizado pela Comissão das Migrações, dos Refugiados e das Migrações. Estrasburgo, 20 de março (1984) Comunicação ao seminário sobre "As relações intercomunitárias", Estrasburgo, 8 de novembro (1988) ONU, Peticionária a favor de Timor Leste, Comissão de Descolonização. Nova York (1999) - Liens entre les Européens vivant à l' étranger et leur pays d' origine" (rapporteuses Manuela Aguiar et Ana Guirado), Commissin des migrations, des réfugiés et de la démographie (2001) - "Non-expulsion des immigrés de longue durée" (rapporteuse), Commission des migrations, des réfugiés et de la démographie (2001) - "Le droit de vivre en famille pour les migrants e les réfigiés", Commission des migrations, des réfugiés et de la démographie (2002) - "Séjour, statut juridique et liberté de circulation des travailleurs migrants en Europe: les enseignements du cas du Portugal", APCE, Commission des migrations, des réfugiés et de la demographie (2004) - "Droits de la nationalité e égalité des chances" (rapporteuse), Commission sur l' égalité des chances pour les femmes et les hommes (2005) - "Discrimination des femmes et des jeunes filles dans les activités sportives" (rapporteuse), Commission sur l'égalité des chances pour les femmes et les hommes AUEO (2001) - "European defence: pooling and srengthening national and European capabilities" (reply to the annual report of the Council), Defense Committee OCDE (1984) Comunicação à Reunião sobre "Aforro privado ao serviço do desenvolvimento da empresa nas regiões de emigração - o papel das instituições financeiras", Esmirna, 3 de abril (1986) "A experiência dos países europeus de origem", comunicação à Conferência sobre "L' Avenir des migrations, Paris, 13 de maio" COMUNICAÇÔES (1980) "Problemas e perspetivas da emigração portuguesa", exposição ao curso de Defesa Nacional, Instituto de Defesa Nacional, 10 de março (1981) Comunicação ao 1º Conselho das Comunidades Portuguesas, Lisboa, 2 de abril (1981) "Bases e prioridades da política relativa à emigração e às comunidades portuguesas", exposição ao Curso de Defesa Nacional, Instituto de Defesa Nacional, 5 de maio (1983) Comunicação ao 2º Conselho das Comunidades Portuguesas, Porto, novembro (1984) "A política de apoio ao emigrante português na conjuntura atual", exposição ao Curso de Formação para Emigrantes, Bona, 24 de fevereiro (1984) "As Comunidades Portuguesas no estrangeiro - situação atual e perspetivas futuras", exposição ao Curso de Defesa Nacional, Instituto de Defesa Nacional, 7 de março (1985) "Emigração: os regressos invisíveis", exposição ao Curso de Defesa Nacional, Instituto de Defesa Nacional, março (1985) Comunicação ao "1º Encontro de Mulheres Portuguesas no Associativismo e no Jornalismo", organizado pela SECP, Viana do Castelo, junho (1985) "A dupla nacionalidade dos imigrantes, do ponto de vista de um país de um país de emigração", Mesa redonda sobre Dupla Nacionalidade dos Migrantes, organizada pelo Governo Sueco, Estocolmo, 6 de setembro (1986) "Linhas fundamentais das politicas de emigração", exposição ao Curso de Defesa Nacional, Instituto de Defesa Nacional, 10 de março (1986) "Emigração e Regresso", exposição ao Curso Superior de Guerra Aérea, Instituto dos Altos Estudos da Força Aérea, 13 de março (1986) "Portugal na CEE - consequências para a emigração", colóquio organizado pelo Instituto Sindical de Estudos, Formação e Cooperação (1986) Intervenção no colóquio "A 2ª geração da emigração contemporânea no cinema" - Festival Internacional da Figueira da Foz, 20 de setembro (1986) Intervenção no II Congresso das Comunidades Açorianas, Angra do Heroísmo, 26 de setembro (1987) " Emigração portuguesa, fenómeno persistente - uma visão diacrónica", exposição ao Curso de Defesa Nacional, Instituto de Defesa Nacional, 9 de março (1987) Comunicação à III Conferência dos Ministros Europeus responsáveis pelas questões de emigração, Porto, 13 de maio (1988) " L' importance des liens des Européens de l'étranger avec leurs pays d'origine" - exposição à Assembleia Geral do Congresso dos Suíços no Estrangeiro" , Baden, 28 de agosto (1993) Comunicação à V Conferência dos Ministros Europeus responsáveis pelas questões das migrações, Atenas,18 de novembro (2015). "Políticas de Género na Emigração Portuguesa", Colóquio "Expressões de Cidadania no Feminino", organização da Mulher Migrante,Associação de Estudo, Cooperação e Solidariedade, da Universidade do Minho e da Câmara de Monção (2015) "Origem e Evolução do 1.º Conselho das Comunidades Portuguesas", Colóquio "Diálogos sobre Cultura, Cidadania e Género", Sorbonne Nouvelle, Paris (2016) "Políticas de Género e Movimentos Cívicos na Emigração Portuguesa", Colóquio "Mulheres em Movimento", Universidade de Toronto, Departamento de Espanhol e Português (2017) "O Conselho das Comunidades Portuguesas : institucionalização do Diálogo com o movimento associativo" - Colóquio "Dar voz à Diáspora - perspetiva diacrónica dos mecanismos de diálogo", promovido pela Comissão das Migrações da Sociedade de Geografia e pela "Mulher Migrante, Associação de Estudo, Cooperação e Solidariedade PUBLICAÇÕES (1987) "Política de Emigração e Comunidades Portuguesas", Série Migrações, Centro de Estudos, Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas (1995) "Portugal o Pais das Migrações sem fim", Lisboa, Cabográfica. (2004 ) "No Círculo da Emigração", Lisboa, Belgráfica (2005) "Comunidades Portuguesas - os direitos e os afetos", Gaia, Rocha Artes Gráficas. (2007) "Migrações - Iniciativas para a igualdade de género", (coord.) Edição Mulher Migrante, Associação de Estudo, Cooperação e Solidariedade (2006) Brasil-Portugal: a questão da reciprocidade (2009) "Cidadãs da Diáspora" (coord), Edição Mulher Migrante Associação de estudo, Cooperação e Solidariedade. (2009) Problemas Sociais da Nova Emigração (coord) Edição da Mulher Migrante, Associação de estudo, Cooperação e Solidariedade (2011) Encontro Mundial de Mulheres Portuguesas na Diáspora, Maria Manuela Aguiar e Maria da Graça Sousa Guedes (org) (2014) Entre Portuguesas 2014, Maia Manuela Aguiar, Graça Guedes, Arcelina Santiago, (coord), Ed Mulher Migrante Associação de estudo, Cooperação e Solidariedade (2015) Entre Portuguesas 2015, Maria Manuela Aguiar, Graça Guedes, Arcelina Santiago (coord), Edição Mulher Migrante Associação de Estudo, Cooperação e Solidariedade ARTIGOS RECENTES Aguiar, Manuela (2008) "Mulheres migrantes e intervenção cívica", em Maria Rosa Simas (org.), A mulher e o trabalho nos Açores e nas comunidades, Ponta Delgada, UMAR- Açores, pp. 1247-1258 Aguiar, Manuela (2009) "Formas de exteriorização da pertença", em Maria Beatriz Rocha Trindade (org.), Migrações, Permanências e Diversidades,Lisboa, Biblioteca das Ciência Sociais, pp.263-269 Aguiar, Manuela (2009) "O Conselho das Comunidades Portuguesas e a representação de emigrantes" em Beatriz Padilha e Maria Xavier, Migrações entre Portugal e a América Latina, Revista Migrações, Lisboa, outubro, pp.257-263 Aguiar, Maria Manuela (2010) "Emigração portuguesa - olhares sobre a ausência: uma perpetiva diacrónica" em Polígonos Revista de Geografia, nº 20, Departamento de Geografia, Universidade de León, pp 91-115 Aguiar, Maria Manuela (2012) "Portuguese republican women out of the shadows" em Richard Herr and António Costa Pinto (ed.), The Portuguese Republic at one hundred, Portuguese Studies Program, University of California, Berkeley. pp.181-196 Aguiar, Manuela (2014) "A questão de nas políticas de emigração portuguesa", em Joana Miranda e Ana Paula Beja Horta (org.), Migrações e Género - espaços, poderes e identidades, Lisboa, Mundos Sociais, pp. 75-93

junho 06, 2017

PORTUGAL; CAMÕES E OS LUSÍADAS DO SÉCULO XXI 1 - O "10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas” é uma expressão da liberdade de ser português, da "lusitana antiga liberdade", que o Poeta cantou e do seu renascimento contemporâneo, na trilha acidentada de uma revolução. Veio ocupar, naturalmente, o lugar do "10 de junho, Dia da Raça”, que o regime deposto celebrava, com pompa imperial, no Terreiro do Paço, mantendo a data e, numa cidade diferente, em cada ano, a evocação de Camões, com outra leitura de "Os Lusíadas", outra visão da história e de nós, hoje. A revolução de 74 derrubou uma ditadura de meio século, resolveu o impasse de uma guerra sem sentido e fechou o ciclo colonial, recolocando o Estado nas suas fronteiras geográficas europeias, mas não quis, nem poderia querer, pôr fim à presença universal dos portugueses. Presença que tem "vida própria", à margem dos desígnios e do poder do Estado, em múltiplas formas de integração nas mais diversas sociedades que, não por mero acaso, certamente, ganhou, então, uma nova visibilidade. “Há um Portugal maior do que o Império que se fez e desfez e que é constituído pelos portugueses, onde quer que vivam”, diria Vitorino Magalhães Godinho num 10 de junho, realizado sob a égide do primeiro presidente eleito da jovem democracia, António Ramalho Eanes. Com a mesma clareza, falava o Primeiro-ministro Sá Carneiro, em 1980: “Portugal foi uma Nação de colónias. Hoje não é apenas uma Nação territorial, é uma Nação de povo" .“Uma Nação de Comunidades”. “É uma cultura, mais do que uma organização rígida”. A existência da Diáspora, parte integrante da Nação, precedeu, de facto, em alguns séculos, o seu conceito, o seu reconhecimento - uma Diáspora que se afirmou na construção de espaços extra territoriais da sua cultura, em fácil diálogo com outras culturas, numa malha densa de instituições focadas na defesa da língua e na fidelidade a tradições e valores humanistas. Pura “sociedade civil”, que ao Estado nada deve…. 2 - A nossa vocação migratória revelou-se, é certo, a partir do plano estatal de expansão marítima e colonização de vastas possessões, mas depressa o transcendeu, de uma forma espontânea e imparável. O êxodo foi assumindo, crescentemente, o carácter de aventura individual, em destinos transoceânicos, longínquos (sobretudo, o Brasil colonial e, depois, com o mesmo espírito e os mesmos objetivos, o Brasil independente…) e, por isso, os historiadores das nossas migrações não conseguem determinar, precisamente, os termos da transição de um ao outro dos fenómenos – da colonização à emigração – mas reconhecem a prevalência desta última, dentro e fora do universo colonial. O Estado tentou, em vão, proibi-la, ou limita-la, porque, na sua ótica, como, aliás, na dos académicos e até na da opinião pública, os males de uma debandada de tamanha grandeza superavam as suas vantagens, avaliadas, essencialmente, em termos economicistas (contributo para a exploração de recursos das colónias, réditos do comércio, remessas de emigrantes). Valores substanciais, mas perecíveis, que tiveram o seu tempo e com ele se desvaneceram. O que persiste, afinal, é o incomensurável espaço de lusofonia e de lusofilia, um universo linguístico e cultural em expansão, engendrado pela vontade de cidadãos, muitos dos quais partiram à revelia dos governos. Faz, pois, todo o sentido, colocar no centro das comemorações do Dia de Portugal a língua de Camões (que de europeia se volveu, mais por mérito dos povos que a partilharam, no seu relacionamento quotidiano, do que dos Estados, também, em americana, africana, asiática, universal) e as comunidades portuguesas, que vivem, em paz e harmonia, nos principais lugares onde aconteceu a aventura coletiva que o Poeta imortalizou. O povo.... Solúvel e insolúvel este povo, na memória dos outros e na sua própria, nas palavras de Jorge de Sena. . 3 - A ideia de um "Portugal - Nação de Comunidades", dentro e fora do território, ganha força em consensos alargados, traduzidos no estatuto de direitos dos expatriados, nas leis e nas iniciativas com que o Estado acolhe Nação inteira, num tempo de recomeço de migrações em massa. Uma realidade que exige dos responsáveis pela "res publica", políticas de reencontro com os portugueses, e entre portugueses onde quer que vivam – verdadeiras políticas de "desterritorialização”… O 10 de junho convida, muito em especial, à reflexão sobre as infinitas potencialidades que elas nos abrem... Um passo em frente, de grande significado, se ficou a dever ao Presidente Marcelo, quando, em 2016, em início de mandato, decidiu "desterritorializar" a própria comemoração e a foi celebrar a Paris, com os seus concidadãos. Depois será a vez de São Paulo, a par do Porto, ou de Newark, ou de Macau... Um gesto inédito, porventura, a nível planetário, que nos diz mais do que muitos discursos. Diz-nos que na história da civilização “fizemos a diferença” e diz-nos, também, que essa história, ainda hoje, faz a nossa diferença.