março 31, 2010

O meu candidato continua a ser PEDRO PASSOS COELHO

As razões porque apoiei Pedro Passos Coelho são as mesmas que me levaram a apoiar, com grande entusiasmo, o Dr. Sá Carneiro, desde antes de 1974, e, depois, o Prof. Cavaco Silva na década de 80: a subjectiva certeza de que ele é o melhor, não só para liderar um partido de oposição, mas também para governar o país – tarefa a que acho que vai ser chamado, não tardará muito.
É uma escolha absoluta, em relação não só aos candidatos que se apresentaram, agora, à eleição, mas a todo e qualquer outro militante social-democrata de primeiríssimo plano.
Considero-o um expoente da sua geração – a geração à qual cabe salvar Portugal da descrença em que se afunda - com gente da mesma geração, diga-se em abono da verdade...
Passos Coelho tem experiência política de liderança, desde muito jovem e, por isso, um já longo passado democrático que fala por ele: integridade moral, carácter, competência profissional, inteligência e sensibilidade para os problemas concretos das pessoas, coerência de percurso, feita de idealismo e de pragmatismo, na combinação certa.
Eu diria que é um homem de ideias firmes, mas não de ideias fixas: sabe ouvir os outros, é moderno, tolerante e aberto. Preparou-se, no diálogo, na reflexão, no trabalho de equipa ao longo de 30 anos de acção cívica.
O resultado viu-se bem nos debates que a televisão nos proporcionou, e que ele ganhou, um a um: conhecimento de causa, sentido de missão (como a política se fez, logo a seguir ao 25 de Abril e antes de instalada a quase "omnipotência" dos partidos grandes...). Com a coragem de fazer opções, em época de crise - determinado, mas sem quaisquer laivos de arrogância e prepotência.
Nas antípodas do modo de ser e agir do actual Primeiro Ministro, a alternativa de que Portugal precisa, no tempo concreto que vivemos (o mesmo se podendo dizer, aliás, qualquer outro tempo...).

março 29, 2010

Prefácio para um livro de leitura imprescindível: apitos dourados, finais e algo mais...

O Dr.Fernando Sardoeira Pinto pertence a uma estirpe rara enquanto homens do desporto que é também homem de cultura e homem de carácter - sendo, para além disso, nortenho e portuense, dos que citam Sofia de Mello Breyner para evocar a "pátria dentro da pátria". Um "dragão de causas", símbolo do espírito inquebrantável do FC Porto,
voz dos seus adeptos, em quem nos sentimos esplendidamente representados, todos os que somos portistas como ele.
Presidente da Assembleia Geral do FC do Porto a partir de 1982, desde o primeiro mandato de Jorge Nuno Pinto da Costa é, com o amigo e aliado de sempre, obreiro da aventura que levou à transformação de um clube "de província", como era chamado depreciativamente, para o clube de craveira universal que deu ao País os títulos europeus e mundiais de futebol, que a própria selecção nacional não conseguiu ainda alcançar.
Aventura colectiva que começou por aproveitar os ventos de mudança do Portugal democrático para repor a verdade das capacidades e dos talentos de quem era secundarizado por força bruta de um centralismo implável imposto pelo regime e que, da política, extravazava para todos os domínios, como era o caso particular do futebol.
A ascensão do FC Porto deve-se antes de mais, a estes dirigentes que trouxeram a democracia e a igualdade de oportunidades para o rectângulo de jogo, permitindo, então, aos próprios executantes colherem a glória e os louros de uma superioridade real.
Os senhores do velho sistema renderam-se a um fenómeno que julgaram transitório, vendo azuis e brancos somarem, ano após ano, vitórias a nível nacional tanto quanto internacional. Até que parecem ter perdido a esperança de lutar, em campo, com armas iguais e desenharam estratégias que passavam por outros campos e outras armas!
Este livro conta, em português de mestre, em palavras que fluem com o rigor e a simplicidade, que é arte dos grandes jornalistas, a crónica de um tempo do futebol profissional português, o início do século XXI, marcado ou manchado por uma tentativa de abater o gigante em que convertera o maior clube nacional, decapitando-o da sua liderança - à falta de outros meios que lograssem atingir o mesmo fim, dentro de fronteiras...
O livro é, assim, um contributo mais do Dr. Sardoeira Pinto para a causa da justiça, e um subsídio precioso para a reconstituição de um período irrepetível da justiça - ou injustiça - portuguesa, de um processo ramificado em vários outros, que se arrastou pelos tribunais de todas as instâncias, incluindo as desportivas, no país e na Europa - ultrapassando fronteiras com foros de escândalo, deliberadamente provocado ou instigado para a pura e simples destruição de um competidor demasiado forte. Os vários processos dos "apitos", de variadas cores e outros mais episódios e acontecimentos, que ajudam à sua descodificação e plena compreensão são aqui detalhados e sistematizados, com datas, nomes, tomadas de posição e decisões, guardados e patenteados para memória futura.
Para que os vindouros não esqueçam e não tolerem a recorrência de tais expedientes: a volta dos Calabotes, de que nas suas páginas também fala.
E se o conteúdo é, nesta perspectiva uma mais valia extraordinária, também na originalidade da forma e da metodologia o livro se recomenda.
Começa o autor por procurar satisfazer a pergunta que lhe coloca um jornalista sobre qual foi o melhor momento da sua vida. Fiel a si próprio, quer dar uma resposta verdadeira, pensada, definitiva. E, nas primeiras páginas, parte numa demanda, que é uma fascinante "viagem de descoberta", conduzida pelo olhar sobre um mundo de emoções e de vivências, que quer partilhar connosco, e em que revela muito de si, do ser humano excepcional que é, e das suas paixões, entre elas, a "pátria dentro da pátria", e, naturalmente, o FC Porto.
E, consequentemente, não vão os leitores surpreender-se ao verem (perdoem-me se anticipo a conclusão), que o Dr. Sardoeira Pinto inclui no número extrememente restrito dos melhores momentos da sua vida o epílogo dos processos dos "apitos finais, dourados... e outros mais".
Muitos o acompanham, por certo, nesse sentimento. Porque o epílogo fez justiça ao Porto e abriu-lhe caminhos de futuro, que havia quem quisesse barra-lhe a qualquer preço, mesmo o da iniquidade e da vergonha nacional.
Este é o livro que todos os portistas quereriam ter escrito e que todos os desportistas vão gostar muito de ler.

março 25, 2010

Deixem-nos jogar !

Está em vigor um regulamento sancionatório de agressões a agentes desportivos que é atentatório dos direitos dos jogadores de futebol à prática do desporto profissional, e que, por isso, devia ser alterado de imendiato e com efeito retroactivo (porque a retroacção da lei só é indevida quando se trata de salvaguardar direitos adquiridos ou prevenir outras formas de prejuízo - e neste caso ninguém poderia legitimamente invocar um prejuízo!).
Os autores do regulamento, note-se são, nada mais nada menos, do que as entidades patronais, os clubes de futebol.
O incompetentissimo jurista, que é o rosto visível (demais!) da Comissão de Disciplina da "Liga" (uma desgraça nunca vem só, e à má qualidade das normas vem acrescendo a péssima qualidade dos juldadores...), naquela paradigmática conferência de imprensa, longa e apalhaçada, em que veio anunciar os castigos de Hulk e Sapunaru, só num ponto teve razão: esse regulamento, que disciplina agressões de jogadores a "agentes desportivos", conduz a resultados injustos e excessivos.
Certo! Face a actos semelhantes, que atingem quaisquer outros cidadãos (sejam eles jogadores, anónimos ou ilustres componentes do público, seguranças privados ou pequenos "apanha-bolas"), impõe para aquela categoria de "intocáveis" castigos imensamente mais gravosos. E, nessa desigualdade, nessa desconformidade absurda, assume um carácter profundamente "autoritário" e discriminatório.(Na época aurea da revolução de 1974 dir-se-ia: "é uma lei fascista" - e, aqui, no sentido em que então se usava o adjectivo, muito a propósito, convenhamos!)
Um ligeiro agravamento da pena quando estejam em causa "autoridades" seria coisa aceitável. Mas chegar à multiplicação por 6 (como aconteceu com Hulk!), 2o, 30, é um achado de "legislador desportivo" absolutamente insensato. E não havendo a mediação de uma entidade disciplinar prudente e inteligente, o efeito só pode ser potenciado no momento da aplicação do regulamento, como foi...
Estão, assim, equacionadas, para um mesmíssimo acto, sanções que configuram, como diz o povo, o "oito e o oitenta".
Hulk e Sapunaru, indevidamente enquadrados no "oitenta" viram a instãncia de recurso reduzir drasticamente para o "oito" o castigo - que já tinham cumprido a mais(em suspensão preventiva). Vandinho, cujo acto é subsumível nessa regra "oitenta", viu mantido a bárbara punição. Acompanho os adeptos do Braga, quando gritam : "É uma vergonha!"

A diferença reside nisto: Hulk e de Sapunaru, que foram provocados e responderam a provocações de agentes de segurança privados do Benfica (que nem sequer estavam, pelos regulamentos, autorizados a permanecer no túnel onde tudo se passou!) a CD da "Liga" aplicou a despropósito o regulamento.
Os seguranças contratados por um clube - no caso, como ficou provado, uns vulgares "arruaceiros" - foram, artificial e espantosamente, convertidos em "agentes desportivos" - para "tramar" os jogadores.
Contra esta aberrante aplicação das normas logo se insurgiram, em esmagadora maioria, os especialistas de direito desportivo.
O Conselho de Jurisdição da FPF limitou-se a dar o devido enquadramento jurídico aos factos imputados a esses dois jogadores. Entram, pois, na moldura disciplinar menor.
Como ambos estavam suspensos por cerca de três meses, perderam 15 ou 16 jogos em que deveriam ter alinhado. Um escândalo!

O caso Vandinho é também um escândalo, mas por outra razão. O enquadramento jurídico não está em causa. O alvo do que foi qualificado como "tentativa de agressão" era, efectivamente, um "agente desportivo", um treinador adjunto do SL Benfica. Todavia, 3 meses de suspensão para um acto que nem chegou a ser "agressão", mas mera tentativa parece não caber na cabeça de ninguém em seu perfeito juízo!...
Encontrões, empurrões, esbracejar, vocifrar são coisas do quotidiano do nosso futebol, que nunca deram em castigo idêntico, nem de longe nem de perto. É um precedente medonho. Mas não creio que vá constituir precedente. Acho que foi caso único... Especial para Vandinho...
Porque é uma peça chave na equipa sensação deste campeonato, o candidato ao título SCB? Acham que não os que acreditam demais em puras coincidências...
Vandinho é um jogador insubstituível para o Braga, como Hulk é para o Porto.
Os imbróglios envolveram o Benfica, e beneficiaram o Benfica, face aos seus mais directos competidores. Coincidência?...

O Presidente da Liga demitiu-se, no dia em que foi conhecido o resultado do recurso de Hulk e Sapunaru. Daí não vem mal ao mundo do futebol. O mal vem do que ele disse: a decisão do Conselho de Justiça "tem implicações que ultrapassam a justiça desportiva".
Estranha afirmação!
Não entendeu ele que, desde o início, a questão era eminentemente jurídica, ou seja, na expressão dele, de "justiça desportiva"? Com grandes nomes do direito desportivo a defender a solução que a instância de recurso perfilhou?
O que ele esperava, pelo visto, é que tinha contornos ou implicações que ultrapassavam a questão de Direito e inviabilizavam um juízo independente da 2ª instância...
Felizmente, esta instância, tal como eu, na qualidade de jurista, esperava, fez bom uso da sua independencia e ninguém se poderá queixar disso.
Quando Madaíl se apressa a vir dizer que as decisões da justiça lhe passam ao lado, vem dizer o óbvio. Assim deve ser, em nome da separação de poderes.
Que existe na Federação como deve existir na Liga.
Porém, se existia essa separação na Liga, porque é que se demitiu Hermínio Loureiro, o presidente do executivo, em vez de se demitirem os membros da Comissão Disciplinar?

Em suma: Mudem as pessoas, logo que possível.
Mas, e de imediato, mudem também o regulamento, se reconhecem que ele é iníquo. Deixem jogar o Vandinho!
Afinal estamos no país em que o trinador da selecção nacional agride, num aeropoto, à vista de toda a gente, um jornalista, agente UEFA, e não lhe acontece nada! talvez em nome dos nossos brandos costumes.
Mais um bom motivo para lembrar que por muito menos está o jogador do Braga suspenso por três meses.
Deixem jogar o Vandinho!

CONVICÇÃO REFORÇADA

Grande intervenção de Pedro Passos Coelho em Aveiro, num auditório cheio.
Sereno e seguro. Objectivo e preciso. Tudo bem pensado, articulado, ajustado à dura realidade, que é, neste momento, a do país e a do partido, também.
Um partido, em estado de instabilidade, cizania e indefinição - consumindo lideranças, uma atrás de outra, e a última a mais fraca de sempre.
Se no PSD o maior problema é o escasso tempo de vida de cada liderança, no país, pelo contrário, é a estabilidade ou excessiva duração de um governo em queda livre para o abismo.
Um governo e, com ele, o país.
É preciso não ter medo de confrontar este governo com os seus fracassos - e de o substituir, na hora certa.
Passos Coelho, na minha leitura das suas palavras, disse que não tinha medo.
Lembrou-me Sá Carneiro, no tempo em que falava de "IMPASSE" (que é precisamente o que hoje temos, de novo, pela frente), quando à sua volta todos tinham medo da mudança. Na sua própria comissão política, como conta no livro que tem o título de "Impasse", chegou a ser derrotado por 15-1...
A auto-proclamada intelectualidade deste partido cultiva ainda, como então, esta tradição de tibieza... Caso dos "situacionistas" de agora, que, espero, sejam, amanhã, os vencidos - "conditio sine qua non" para sairmos do impasse.

março 23, 2010

IMAGENS DE NEWARK




A MANUELA COM A CÔNSUL-GERAL Dra MARIA AMÉLIA PAIVA E COM AS MENINAS PIANISTAS, QUE ACTUARAM E RECEBERAM GRANDE APLAUSO.


A CÔNSUL E A MANUELA TAMBÈM.

março 21, 2010

CENTENÁRIO EM BERKELEY

Berkeley poderá ter sido a única universidade fora do território português a organizar grandes comemorações do Centenário da República. Mais: a única comunidade portuguesa do estrangeiro a integrar as suas iniciativas no plano nacional de comemorações!
Mérito, antes de mais, da Professora Deolinda Adão, que dirige o Departamento de português naquela tão famosa instituição universitária e que teve a visão e a audácia de fazer a proposta em bom tempo. Mérito repartido com os historiadores que deram corpo ao programa: Richard Herr, professor "emeritus" e António Costa Pinto, uma dupla académica, que já organizou eventos memoráveis no passado.
Memorável também este foi - e será, cada vez mais, no futuro, como é da esssência dos eventos memoráveis...
Pena foi que o acidente da Drª Maria Barroso - um braço partido, que a não impediu de presidir ao início de comemorações em Espinho, mas inviabilizou, por completo uma ida ao far-west da América... - não tivesse permitido a sua presença e a do Dr Mário Soares, que estava convidado a presidir à Conferência de Berkeley. No entanto, graças às modernas tecnologias, esteve entre nós, no video, numa bela mensagem de encerramento .Com o brilhantismo e a simpatia que o caracterizam!
A minha parte foi olhar aquilo em que a República mais me atrai: falar sobre a metade da República a que adiro, afectivamente, ideologicamente - a metade feminina. A utopia da igualdade de género, em 1910.





março 19, 2010

MULHERES DA PRIMEIRA REPÚBLICA - conferência da Drª MARIA BARROSO - Espinho, 5 de Março de 2010

Conhecendo a desigualdade de direitos que persistiu ao longo dos séculos entre as mulheres e os homens, não poderíamos deixar de nos surpreender com o oásis que representou o período da I República.
Ainda nos finais do século XIX, Portugal assistiu ao nascimento de algumas mulheres que, antes da República ou mesmo não partilhando o republicanismo, começaram a lutar, com coragem, pela melhoria da situação das mulheres, então, extremamente subalternizadas na sociedade e na família. Não havia educação oficial para as meninas. Saber ler era raro e não tinha importância. Antes pelo contrário, já que, segundo as concepções vigentes, o sexo feminino deveria manter-se reservado e longe das más influências transmitidas pela leitura. É certo que a maioria da população era analfabeta. Mas as mulheres atingiam mais de 80% do total.
O ensino primário começou a existir tarde mas, para as raparigas, nele se conteúdo incluíam os lavores e as prendas domésticas necessárias às formandas, cujo principal destino era o casamento e a família.
O ensino secundário ainda foi mais tardio e o primeiro Liceu feminino – Maria Pia – é de 1906.
Este panorama da educação no nosso País explica as dificuldades das mulheres e é explicado pelo atavismo e preconceitos em relação aquilo que era importante para as suas vidas, na opinião dos homens.
O acesso às Universidades era ainda mais difícil. As mulheres “sábias” e as “doutorices” eram ridicularizadas e, pelo riso e troça, os homens acabavam por mantê-las longe dos cursos superiores.
Os tempos foram mudando. Certamente, algumas notícias chegavam da Europa e da longínqua América despertando as jovens para a injustiça das desigualdades e para as dificuldades que foram criadas às mulheres que não tinham pai ou marido para as sustentar a elas e à família. Trabalhar fora de casa era também um tabu. Ficando sem recursos, as mulheres da burguesia lograram ultrapassar os obstáculos escrevendo ou ensinando, trabalho por que auferiam parcas retribuições para a sua sobrevivência. Naturalmente, que tendo nascido dentro de famílias mais ou menos abastadas, elas eram as únicas a beneficiar de alguma instrução, muitas vezes, com professoras no domicílio e eram também as únicas a poder usar o seu talento para sobreviver.
A oposição social ao trabalho das mulheres não se verificava, porém, relativamente ao povo, às mais pobres, que partilhavam o destino dos trabalhadores rurais e operários, ganhando, contudo, muito menos do que eles.
Neste enquadramento, sumariamente descrito, viveram, trabalharam e sofreram algumas mulheres da transição para o século XX e do início desse século que foram fazendo o caminho para as reivindicações sociais, muitas delas incorporadas na Revolução Republicana. Esperavam as que aderiram à República e às suas instituições – quase todas – que este novo sistema político curasse a sociedade de todos os males. Muitos escritos de mulheres ilustres, como Ana Castro Osório e outras feministas defenderam que “a República não sendo na forma de governo nova nem perfeita… é, no entanto mais lógica, mais compreensível à nossa inteligência e mais tolerável à nossa razão, dando-nos também garantias de progresso”. Ana Maria Gonçalves Dias afirma, igualmente, no Congresso Republicano do Porto, em 1910, que todas as mulheres feministas deveriam ser republicanas, visto que só da República se podem aguardar leis igualitárias e justas. E, com efeito, muitas leis foram publicadas pela I República, em benefício das mulheres e muitas medidas foram tomadas para melhorar a sua situação: novas leis do casamento e filiação baseadas na igualdade, o direito de trabalhar na função pública, a escolaridade obrigatória até aos 18 anos para ambos os sexos e abertura, pela primeira vez, de uma Cátedra a uma mulher, (Carolina Michaëlis de Vasconcelos a quem é concedido o grau de doutor), o início dos cursos de direito para mulheres e exercício da advocacia, até então vedado (Regina Quintanilha).
Como afirma João Estêvão, na obra “Mulheres e o Republicanismo”, “durante 20 intensos anos assistiu-se à adesão ao ideal republicano; ao combate à monarquia; … à criação de organizações partidárias, feministas e femininas; à formação de reivindicações; … à realização de dois Congressos Feministas e de Educação (1924 e 1928). Em momentos únicos, as mulheres estiveram lá. Pensaram, debateram, organizaram-se, actuaram. Escreveram, opinaram, polemizaram. Discursaram, aderiram a causas. Politizaram-se. Alugaram sedes, calendarizaram reuniões. Reivindicaram, peticionaram. Expuseram-se, lutaram, correram riscos, sofreram incompreensões, injúrias e agressões. Marcaram presença em sessões, reuniões, festas, saraus, comícios, congressos, homenagens, celebrações, cortejos, manifestações, funerais, romagens. Foram para a rua. Associaram-se, desassociaram-se, reagruparam-se, conforme desavenças pessoais, divergências de opinião, de estratégia, de liderança e de rumo consoante se assumiram mais como feministas do que republicanas e vice-versa, sendo muitas vezes ambas as coisas, o que originou também fracturas entre as duas causas, com prejuízo para o reforço das respectivas lutas e consequências para a República”.
Mas não se pense que os homens republicanos queriam todos a inteira igualdade entre as mulheres e os homens. António José de Almeida, que apoiou a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, esclareceu numa reunião em 1908 o que pretendia daquela organização: “Não se trata de ir ao Parlamento reclamar o voto das mulheres. Não se trata de trazer mulheres para a rua ou para os clubes, envolvendo-as numa febre de agitação a que a mulher portuguesa é tão esquiva e refractária. Pretende-se que cada uma delas exerça na sua esfera de acção, na sua família, nas suas relações, o influxo do seu espírito e o exercício da propaganda”.
A Liga não aceitou este estreito campo de actuação e procurou pugnar pela igualdade entre mulheres e homens, em casa e na rua.
Passado algum tempo e na sequência de posições como a de António José de Almeida advieram desilusões entre republicanos que não viam satisfeitas as aspirações das mulheres.
Ana de Castro Osório recordou às mulheres os acontecimentos anteriores à Revolução Francesa em que aquelas foram utilizadas e de seguida remetidas ao silêncio.
Mas as conquistas da I República foram uma realidade. Entre 1908 e 1928, data do segundo Congresso Feminista e de Educação, verificou-se um enorme incremento da vida cívica e política, tanto a nível associativo como na visibilidade pública enquanto força de pressão sobre os poderes constituídos.
O oásis que as mulheres e os democratas, em geral, construíram teve aquela duração bem curta. Em 1926 inicia-se a Ditadura Militar, sendo dissolvido o Parlamento. Em 1927, teve lugar uma revolta militar e civil no Porto contra a Ditadura Militar, mas foi vencida. O Governo da Ditadura acabou com o regime de coeducação nas localidades em que existisse mais do que um estabelecimento de ensino não superior.
Viveu-se a partir daí um longo período de apagamento da acção das mulheres e dos seus direitos. A Constituição da República de 1933 vem legitimar as discriminações contra elas ao estabelecer a igualdade dos cidadãos perante a lei “salvas”, quanto à mulher, as diferenças resultantes da sua natureza e do bem estar da família, o que legitimou, até ao 25 de Abril, todas as discriminações existentes na vida cívica e política, na família e no trabalho.
As republicanas que viveram um período de 20 anos de intensa luta deixaram às gerações que se lhe seguiram um legado que acabou por não ser aproveitado senão muitos anos depois. Foi pena! Porque poderíamos ter sido um país exemplar e progressista se as mentalidades retrógradas do século XIX não tivessem continuado a florescer durante quase todo o século XX.
As mulheres que ajudaram a implementar a I República e a tornar brilhante e grande o seu pequeno percurso, mulheres que foram feministas, pacifistas, maçónicas-livre-pensadoras e republicanas, merecem a nossa admiração e homenagem. Elas foram autênticas guerreiras, tendo conquistado posições que, só cinquenta anos depois, a partir de 1974, conseguimos começar a readquirir e alargar.
Mas que mulheres foram essas? Qual o seu perfil e identidade? A homenagem que desejo propor não pode, infelizmente, por escassez de tempo e benefício da vossa paciência, contar a biografia completa das várias personalidades que constituíram o eixo feminino da I República. Nem esta seria a oportunidade de o fazer. Assim, limitar-me-ei, num resumido apontamento a referir quem são e o que justifica o seu lugar na História. Antes, porém, uma referência deve ser feita, ao facto de feministas ou não, republicanas ou não, todas em geral, terem defendido a instrução e a educação para as mulheres, como factor essencial da sua valorização na família e na sociedade. Ao não terem sido, devida e atempadamente ouvidas, o nosso País perdeu muito do seu alinhamento no progresso e no desenvolvimento, cujo défice ainda hoje sentimos.
Maria Antónia Pusich, mulher culta e instruída, publicou em 1849, a Assembleia Literária que foi o primeiro jornal fundado por uma mulher, tendo tido a coragem de dar a público o seu nome. Fez da escrita o seu modo de vida, para seu sustento e de seus filhos.
Depois da criação do primeiro jornal, muitas outras mulheres passaram a subscrever artigos e mesmo a dirigir publicações. E não se pense que se tratava apenas de imprensa feminina. Investigações feitas relativas ao século XIX, revelam que muitas mulheres colaboraram em jornais literários, noticiosos ou políticos, usando, por vezes, nomes masculinos para fugir à censura social. Teresa Leitão de Barros em “Escritoras de Portugal”, de 1924, descreve as condições difíceis que as mulheres enfrentavam para serem escritoras. Podiam ser estimadas como autoras recreativas, dizia, mas eram postas à margem da sociedade burguesa pela sua situação de mulheres independentes e chefes de família.
Guiomar Torrezão, nascida em 1884, numa família burguesa, desde cedo teve também que prover à sua substância, dando lições de instrução primária e francês, ao mesmo tempo que se iniciava na escrita, com elevado sucesso. Traduziu obras de escritores célebres e trabalhou em vários órgãos de imprensa, designadamente no Diário Ilustrado, Diário de Notícias, Voz Feminina e outros.
Tendo que trabalhar por gosto, mas essencialmente por necessidade pois o pai falecera cedo deixando a família em precária situação económica, Guiomar depressa reconheceu a importância de uma formação superior, a qual, não teve condições de adquirir. Apesar das adversidades, sendo detentora de uma superior inteligência e engenho, cumpriu um brilhante destino como mulher e escritora. Como pioneira lançada numa sociedade conservadora, Guiomar Torrezão, sofreu, como outras mulheres, calúnias, críticas e invejas.
Guiomar contou, porém, com apoios importantes, nomeadamente de Fialho de Almeida, que, por altura da sua morte, depois de elogiar o seu carácter e mérito, diria que “para ser verdadeiramente alguém, ela só teve um obstáculo, o meio onde apareceu e se fez gente. Em Londres ou em Paris, teria sido ilustre. Em Lisboa, quase a quiseram tornar cómica”.
Guiomar deixou vários romances, contos e peças de teatro, representadas nos teatros de Lisboa.
A sua tristeza e conformismo perante uma sociedade tão conservadora está bem patente quando escreveu de si própria, que a sua vida literária era “obscura, improfícua, pobre e triste …” Esperaria mais reconhecimento e também uma vida mais desafogada. E conta que quando no estrangeiro lhe perguntavam quanto ganhava com os seus escritos, via-se obrigada a mentir para defesa da honra do seu país, multiplicando as quantias até atingirem uma soma decente.
Alice Pestana (Caiel), nasceu em 1860, também dentro de uma família burguesa. Aprendeu francês, inglês e piano. Este tipo de educação não a satisfez, porque não queria frequentar salões e precisava de se sustentar e auxiliar a família. Assim, com o auxílio financeiro de uma avó, continuou os estudos, matriculando-se no ensino secundário, ao mesmo tempo que dava lições.
Em 1877, iniciou a sua carreira como jornalista de mérito. Usou um pseudónimo, masculino, CAIEL, como estratégia de legitimação. Além do jornalismo, escreveu livros, contos, novelas e peças de teatro.
Foi grande defensora da educação feminina e encarregada de uma visita de estudo ao estrangeiro para analisar as condições de instrução feminina noutros países.
Fundou, em 1899, a Liga Portuguesa da Paz, de que foi presidente, tendo como outros fundadores, homens ligados ao movimento republicano ou à maçonaria, como Magalhães Lima, Teófilo Braga, Consiglieri Pedroso e Teixeira Bastos.
Tendo casado, em 1901 com um professor espanhol, passou a residir em Madrid. Continuou, porém, a escrever, a estudar e a dar lições, tendo sido professora em prestigiadas instituições espanholas.
Domitila da Carvalho, nasceu em 1871. Frequentou a Universidade de Coimbra em 1891, tendo sido a primeira mulher a fazê-lo. A sua inscrição teve que ser autorizada ministerialmente, a pedido do Reitor, por não haver nenhum precedente. Entrou para o curso de matemática. Mas não ficou por aqui. Em 1899, inscreveu-se também em medicina, juntamente com Sofia Júlia Dias, sendo as duas primeiras mulheres a frequentar este curso. Além de matemática e medicina, obteve ainda a licenciatura em filosofia, tendo alcançado altas classificações em todos os cursos.
Contrariamente a outras mulheres que aderiram às ideias republicanas, esta mulher era monárquica e católica, tendo mantido com a rainha D. Amélia assídua correspondência. O seu percurso político levou-a, mais tarde, a pertencer ao grupo de três primeiras deputadas do Estado Novo.
Abraçou a causa do pacifismo, defendeu a educação das mulheres, mas não defendeu o sufrágio feminino. Foi professora e reitora do Liceu Maria Pia, o primeiro Liceu feminino em Portugal.
Carolina Michaëlis de Vasconcelos nasceu em 1851, de origem alemã. Casada com um português, ficou na história como primeira mulher nomeada, em 1911, para o cargo de professor ordinário de Filologia germânica da Faculdade de Letras de Lisboa, onde não chegou a leccionar por ter sido, entretanto, transferida para Coimbra. Até à sua morte, em 1925, foi a única mulher a pertencer ao corpo docente de Coimbra. Era especialista em várias línguas. Recebeu várias distinções honoríficas tendo sido considerada a mulher mais erudita do seu tempo. Publicou várias obras, resultado das suas investigações literárias, abrangendo escritores antigos e, também seus contemporâneos.
Por curiosidade, anota-se que segundo Joaquim Ferreira Gomes, até ao fim de 1910, tinham-se matriculado na Universidade de Coimbra 23 mulheres e, até 1926, frequentaram essa Universidade 280 mulheres, mais 257 inscritas.
Regina Quintanilha de Vasconcelos nasceu em 1893 e, em 1910, com 17 anos, foi a primeira mulher a frequentar o curso de direito, até então proibido às mulheres. Como estávamos no auge da revolução republicana, Regina Quintanilha foi recebida em festa pela Academia. Os seus colegas estenderam-lhe as capas para lhe dar as boas vindas.
Foi colega de homens ilustres como Manuel de Arriaga, nomeado presidente da República.
Com o advento da República, muitas alterações se verificaram, a nível académico – os alunos não eram obrigados a comparecer a todas as aulas e podiam escolher o seu plano de estudos com cadeiras de qualquer ano. Foi, assim que Regina Quintanilha frequentou, simultaneamente, o curso de Direito e o curso de Letras recém-criado pela República.
Em 1913, Quintanilha requereu autorização para advogar ao Supremo Tribunal de Justiça, autorização que foi concedida transformando-se esta primeira licenciada em Direito na primeira advogada portuguesa. Este facto causou grande impacto na imprensa e no público que acorreu ao primeiro julgamento que ela fez na Boa-Hora.
Regina Quintanilha foi ainda notária e conservadora do Registo Predial e professora no Liceu Maria Pia. Militou no Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas e foi presidente da Assembleia Geral deste Conselho, em 1917. Esteve ainda ligada à Cruzada das Mulheres Portuguesas.
As conquistas de Regina Quintanilha foram marcantes para a época, pois não era fácil frequentar o mundo do direito, eminentemente masculino. Também não foi fácil o acesso a outras profissões liberais, apesar da luta renhida das feministas contra o preconceito da inferioridade intelectual das mulheres e da “masculinização” que certas actividades provocavam. Bem clamou Elina Guimarães uma ilustre jurista, escritora e feminista, falecida há não muitos anos, dizendo que conhecia muitas intelectuais que eram todas excelentes mães de família, com vários filhos.
Angelina Vidal nasceu em 1853, numa família da média burguesia. Foi uma voz forte da corrente progressista, empenhada na questão social e do operariado. Viveu com imensas dificuldades, inclusive, a nível familiar. Angelina era uma republicana socializante e o pai um arreigado monárquico o que provocava grandes discórdias familiares. Casou cedo, mas cedo se separou do marido que, pouco depois, viria a morrer. Neste quadro, sofreu muitas privações e foi alvo da reprovação dirigida às mulheres separadas, naquela época.
Com uma aguda consciência das dificuldades da classe operária, ela associou o seu feminismo a formas mais amplas de luta.
No meio das suas dificuldades, valeu-lhe a solidariedade ocorrida no âmbito da “Voz do Operário” com a criação de um subsídio mensal, já que lhe fora negada uma pensão a que tinha direito, por virtude da sua actividade política.
Foi jornalista, tradutora e professora, sendo de recordar a sua actividade de escritora – poesia e prosa – e a publicação de peças de teatro. Recebeu prémios internacionais e fez parte da Associação da Imprensa Portuguesa.
Angelina criticou a monarquia, o clericalismo e o sistema económico e social de então. Ela foi a voz dos desfavorecidos.
Adelaide Cabete nasceu em 1867, numa família ligada ao mundo do trabalho fabril.
Começou a trabalhar jovem, após a morte do pai. Dotada de uma enorme força de vontade, estudou e formou-se em medicina. Foi uma mulher empenhada no movimento feminista e na política e uma republicana convicta. Casou-se ainda jovem com um homem mais velho que, contrariamente à generalidade dos homens de então, não pôs obstáculos à continuação dos estudos da sua mulher. Ele investiu mesmo na formação dela, tendo vendido bens para a custear.
Adelaide fez a instrução primária com 22 anos e concluiu o curso dos liceus cinco anos depois. Em 1896 matriculou-se na Escola Médica de Lisboa e teve professores ilustres, como Alfredo Costa, Miguel Bombarda e Ricardo Jorge. Formou-se em 1900. Defendeu como tese “A protecção das mulheres grávidas pobres, como meio de promover o desenvolvimento físico das novas gerações”. É frequente encontrar como preocupação comum a várias destas mulheres a associação entre a condição feminina e as crianças. Escolheu como área de actividade a ginecologia, considerada uma boa escolha, para mulheres, já que a privacidade do corpo feminino tornava mais fácil o recurso a uma médica. Daí, os homens terem defendido, na época, que as mulheres cursassem medicina, apesar de se oporem à educação e ao trabalho independente daquelas.
Mas além de médica, Adelaide Cabete foi também professora, tendo leccionado higiene e puericultura.
Nos princípios do século XX, publicou vários artigos, nomeadamente sobre a condição feminina, versando, muitas vezes, a ligação mãe-criança e o alcoolismo. A luta contra a prostituição foi, igualmente, um tema que lhe mereceu a maior atenção.
A par da actividade profissional, Adelaide Cabete foi um membro muito activo do movimento feminista português. Republicana, era tolerante nas suas ideias mas não sacrificando nunca à ideologia a marcha da conquista da emancipação da mulher.
Em 1907, Adelaide é iniciada na maçonaria, na Loja feminina Humanidade (Loja de Adopção). Depois de terem sido concedidos direitos iguais à Loja Feminina, Adelaide cria a maçonaria mista que durou apenas três anos, chegando a ser a primeira venerável desta Loja. Aliás, viria a fundar Lojas em Lisboa, Alcobaça e Portalegre.
Em 1909 foi uma das fundadoras da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, ao lado de Ana de Castro Osório.
A título de curiosidade e pelo seu simbolismo, anota-se que a Adelaide Cabete e a Carolina Beatriz Ângelo, outra feminista ilustre, coube a honra de costurar as bandeiras asteadas no 5 de Outubro, o que revela a confiança que os revolucionários depositavam nestas duas mulheres.
Em 1914, Adelaide Cabete fundou o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas que, desde logo, se associou a organizações internacionais. Este Conselho deveria, segundo os seus estatutos, ser apartidário, sem linha de orientação política ou religiosa, o que não foi fácil, considerando que há sempre uma marca política na luta pelos direitos das mulheres.
O número de mulheres aderentes ao Conselho era muito baixo, à volta de 500, enquanto que, no estrangeiro, em organizações congéneres, as participantes contavam-se por muitos milhares.
O Conselho organizou dois Congressos Feministas, em 1924 e em 1928.
Adelaide Cabete deslocou-se a congressos internacionais e, na qualidade de representante do governo português, foi ao Congresso de Roma, em 1923.
Ana de Castro Osório, nasceu em 1872 e cresceu num ambiente culto e aberto, numa família que não a privou do contacto com novas ideias.
Estreou-se na vida literária em 1894 e casou em 1898 com um escritor, propagandista e activista republicano.
Em 1911, Ana de Castro Osório acompanhou o marido para S. Paulo, no Brasil, continuando, porém, o seu trabalho como republicana e feminista. Voltou a Portugal depois da morte do marido, mas, nos anos vinte, foi convidada pelas autoridades brasileiras para realizar um ciclo de conferências.
Esta mulher foi uma das mais importantes feministas portuguesas, não radical. Foi ainda escritora, editora, pedagoga, publicista, conferencista e republicana. Era vista como mulher de princípios e convicções, mas tendo uma visão gradualista da transformação social, foi alvo de duras críticas.
É considerada uma das fundadoras da literatura infantil em Portugal, tendo feito uma vasta recolha da tradição popular oral do conto infantil. Não se limitando a esta área da escrita, Ana Castro Osório escreveu ficção para outros públicos.
Aderiu à maçonaria em 1907, tal como Adelaide Cabete, e esteve no início da fundação da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas.
Com o prestígio que possuía, Ana de Castro Osório colaborou com o Ministro da Justiça, Afonso Costa, na modificação de situações de desigualdade na condição feminina. Pretendia-se a alteração do Código Civil de 1867 que estabelecia direitos desiguais para homens e mulheres, subalternizando estas.
Depois de voltar do Brasil, Ana de Castro Osório funda uma loja maçónica com o nome da primeira mulher que votou em Portugal – Carolina Beatriz Ângelo.
Durante a Primeira Guerra Mundial, Ana Osório defendeu o intervencionismo, tendo sido uma das mais importantes propagandistas da participação de Portugal naquele conflito. Esteve na organização da Comissão Feminina pela Pátria e entre o Grupo Fundador da Cruzada das Mulheres Portuguesas, em 1916 que deveria ser visto como uma instituição patriótica e humanitária e não como uma organização de assistência. Fez ainda parte do grupo restrito das mulheres que tiveram cargos no funcionalismo público, ocupando o lugar de inspectora do trabalho e de vogal do Conselho Central da Federação dos Amigos das Crianças, tutelado pelo Ministro da Justiça e Cultos.
Carolina Beatriz Ângelo nasceu em 1877, frequentou o Liceu na Guarda e veio para Lisboa cursar medicina cujos estudos terminou em 1902. Pioneira na prática das intervenções cirúrgicas, foi a primeira médica que operou no hospital de São José, acabando por se dedicar à ginecologia, como Adelaide Cabete.
Pertenceu a vários grupos femininos e feministas. Foi maçon e chegou a aceder ao grau de venerável. Defendeu o sufrágio feminino e em face das divergências existentes no seio da Liga Portuguesa, afastou-se desta organização e assumiu a direcção da Associação de Propaganda Feminista que não teve, porém, grande sucesso entre as mulheres.
Esta mulher ficou na história, não só como ilustre feminista e republicana, mas por ter sido a primeira mulher a votar nas primeiras eleições da República, em 28 de Maio de 1911. Ela reunia as condições legais: era cidadã portuguesa com mais de 21 anos, sabia ler e escrever e era chefe de família. Mas a República recém-formada não permitia que as mulheres votassem. Precisaram de esperar sessenta anos para verem instituído o sufrágio sem restrições, já depois do 25 de Abril de 1974. A revista “Alma Feminina” explica como Beatriz Ângelo conseguiu votar. Ao tentar inscrever-se no recenseamento, o funcionário administrativo indeferiu-lhe o requerimento. Tendo reclamado, o Ministério tutelado pelo republicano António José de Almeida negou-lhe o pedido. Recorreu para os tribunais e ganhou a causa. O Juiz concedeu-lhe o direito de se recensear e votar. Estava em causa a interpretação da expressão da Lei – “cidadãos portugueses” que, no entender dos homens republicanos, não abrangia as mulheres. Em 1913, o governo, para evitar dúvidas, alterou a Lei Eleitoral e especificou que o eleitor tinha que pertencer ao sexo masculino. As mulheres tinham servido para levantar a República mas já não eram necessárias nos trabalhos de ressurgimento nacional.
Beatriz morreu em Outubro de 1911, com trinta e quatro anos.
Maria Veleda nasceu em 1871, em Faro. Republicana, livre-pensadora e professora, Veleda pertenceu à Associação do Registo Civil e a outras organizações femininas. Antes da implantação da República, ansiava pela revolução, pela liberdade, pelo bem, pela justiça e pela redenção.
Foi considerada uma das mais importantes representantes do feminismo proletário, mas demasiado vermelha, segundo a opinião de alguns republicanos (António José de Almeida). Foi uma brilhante conferencista que, devido às suas ideias sobre a emancipação da mulher e sobre a necessidade de melhorar a situação das operárias e dos mais desprotegidos, era convidada para discursar em vários locais e escutada com muito interesse.
Estas são, algumas, quiçá as mais representativas mulheres que precederam e ajudaram a construir a efémera primeira República.
Algumas outras poderão não ter sido referenciadas. A todas, porém, quero cobrir com a mesma homenagem e gratidão por terem desbravado o deserto de direitos cívicos e políticos em que as mulheres viveram confinadas e construindo um pequeno oásis de liberdade e de valorização dos seus direitos. Oásis de curta duração é certo. Mas ele lá ficou encoberto por poeira para o podermos descobrir, como viemos a fazer.

março 17, 2010

DRAGÂO!


O único dos 7 famosos gatos da Manuela , que, até ver, foi retratado por mim

março 14, 2010

O "centennial" em Berkeley

Com um painel de grandes nomes das universidades de Berkeley e de diversas universidades portuguesas, de norte a sul do continente, e dos Acores, o centenário da República cobriu alguns dos interessantes ângulos em que aquela pode ser olhada, através das décadas de uma vida política e socialmente agitada, em democracia, e, pelo contrário, quieta, nas águas paradas da ditadura que, acho eu, o ditador, ele mesmo, queria imobilista.
Com Deolinda Adão como organizadora, o programa incluiu o que, de outro modo, seria impossível: um oitavo da conferência dedicado à questão feminina, em 1910 e ao longo do século. Coube-me dar voz as feministas da "primera República", enquanto a Deolinda fez uma notável intervenção sobre escritoras e poetas, ou poetisas.

março 09, 2010

Dia Da Mulher na CASA DO RIBATEJO Newark

1 Uma bela e significativa homenagem a mulher, numa casa regional, que eu nao conhecia e que, para alem de ser muito bonita, com uma recriacao de um espacocem por cento ribatejano, bem decorada, com uma fantastica "ambiencia", com a matriz de um centro cultural bem dimensionado e bem utilizado, soube dar nos a imagem de um sarau portugues, que ja poucos sabem organizar, seguindo um molde tradicional, no qual vazam, temas e deias plenas de modernidade.
Sentiu se ali, muito embora, como deve ser, para ser bem, sem interferencia directa, a inteligente e discreta inspiracao da nossa consul geral, Dra. Amelia Paiva, que, por onde passa deixa um rasto de simpatia, eficiencia e dinamismo e a feliz marca de novos eventos, que faziam falta, e que entram, em definitivo, no calendario anual de acontecimentos, como estes que dao centralidade ao problema da participacao da mulher. No dia 8 de Marco, ou em qualquer outro...
Uma exposica colectiva de artistas da comunidade, um recital de poesia feminina e dita por mulheres (alguma de sua autoria), um concerto de piano por duas meninas, estudantes do conservatorio de musica, um intervencao sobre as Mulheres na Republica (a meu cargo...). e discursos muito bem articulados da Dra. Amelia Paiva , do Presidente da uniao de associacoes, do Presidenta da casa e da dirigente responsavel pela cultura. Tudo muito bem, e na dose csrta, salvo a minha parte, que excedeu o tempo, como quase sempre acontece.
Presentes lideres da comunidade, jornalistas, professores das universidades do Estado, tanto portugueses como brasileiros, angolanos, caboverdeanos, o nucleo da Mulher Migrante, associacoes de joves universitarios lusofonos.
Um sucesso e um bom exemplo a muitos titulos!
Valeu a pena!
E para falarmos da importancia da mulher como factor de progresso e abertura, nada melhor do que apontar o exemplo vivo, e muito obvio, da propria Consul geral. Como dizia o presidente da Uniao: nunca em Newark viram, a frente do consulado, alguem com tanta qualidade, proximidade das pessoas e imparcialidade. O seu trabalho na comunidade, vale mais do que mil discursos...

2 Ao longo de 30 anos de convivio com as comunidades portuguesas, raras foram as oportunidades que se me ofereceram de participar em comemoracoes do DIA INTERNACIONAL DA MULHER.
Nunca foi, ao longo do seculo XX, tema em agenda na diaspora portuguesa (de que eu tivesse conhecimento), com a excepcao das iniciativas do Lornal Luso presse de Montreal, desde a sua fundacao ha 12 anos. A convite de Norberto Aguiar, estive la por diversas vezes, a ultima das quais em 2009, sempre em debates muito interessantes, que ultrapassavam a barreira da nossa comundade e a integravam no "mainstream" de iniciativas organizadas, nesse dia, naquela cidade
Ja no sec. XXI, propus uma parceria entre a associacao Mulher Migrante e a federacao das associacoes portuguesas, com sede em Paris, para uma reuniao de mulheres ligadas ao associativismo, nesta data especial. O presidente de entao Jose Machado manifestou se um parceiro aberto e interessado, mas confessou me que nao foi coisa facil convencer os demais dirigentes do relevo do tema, apesar de, em qualquer outro assunto, estarem sempre prontos a dar o seu sim.... Nao os fascinava este, seguramente... Estavam num outro maistream, muito portugues, que leva a sistematica desvalorizacao de tudo o que e feminino, a comecar, naturalmente, pela questao de genero.
O certo e que o debate se fez em Houilles, nos arredores de Paris, e, a partir dai, nao mais deixou de se fazer, apesar de ter cessado a parceria com a Mulher Migrante, depois que Machado regressou a Portugal. Temos razao para nos sentirmos satisfeitas, porque a ideia inicial era mesmo lancar a "tradicao", nao protagonizar organizacoes, para as quais, de resto, nos faltam meios humanos e materiais... e ha sempre outra comunidade onde se pode actuar, ainda que nao esteja a espera de nos...

março 07, 2010

Serão as mulheres assim tão resistentes?

COLÓQUIO
Uma iniciativa da Junta de Freguesia, da única mulher do executivo, a quem foi dado o pelouro da cultura. A 6 de Março, às 21.30, no belo auditório da Junta. Entrevista a 6 mulheres activas na sociedade ou na política em espinho. A moderar , uma jornalist, como convem ( e qu moderou muito bem). No painel, Manuela (Aguiar), a quem por sorteio coube começar, Rogélia, Manuela (Bigaíl), Margarida, Maria Ricardo e Graça (Guedes), a quem o sorteio reservou a última palavra.
Para abrir, um interessante filme, curta metragem, sobre o "chapéu violeta", com significado especial - viver a vida em pleno, em todas as idades, cada vez mais descontraidamente...
Depois, quando regressar de Berkeley, a Manuela (Aguiar) conta..

Na abertura do Centenário da República em Espinho

Na qualidade de vereadora da Cultura apenas umas breves palavras na sessão que decorreu a 5 de Março, no Centro Multimeios


As minhas saudações para a Senhora Doutora Maria Barroso, os Senhores Presidente da Câmara e Presidente da Assembleia Municipal de Espinho, autoridades, Espinhenses e amigos que vieram de fora para partilharem este dia connosco.
Um dia especial para recordar 1910 e uma revolução portadora de mutações, e de esperanças, de utopias, todas sonhadas, nem todas, naturalmente, cumpridas. Algumas restam para nós próprios levarmos por diante!
Queremos lembrar e reviver esse período singular da nossa história, e podemos hoje fazê-lo sem dividir os portugueses, com espírito cívico e perfeita tolerância, homenageando, por igual, mulheres e homens com visões diferentes, mas a mesma vontade de engrandecer Portugal.
Em Espinho, com estas a comemorações, ao longo do ano de 2010, pretendemos, envolver os cidadãos de todas as idades, de diferentes convicções e pensamento, assim como instituições, escolas, centros e grupos culturais e cívicos, pedindo-lhes activa participação e oferecendo a nossa disponibilidade de colaboração com as suas próprias iniciativas.
O nosso programa procurará, por um lado, trazer à memória costumes e vivências da época, reconstituindo o ambiente de salas de aula, de festas, tertúlias, saraus, comícios republicanos, ou organizando edições facsimiladas de jornais locais de Outubro de 1910, e várias exposições, a maior das quais, sobre "os Rostos da República" - onde os rostos femininos não serão esquecidos... - e, por outro lado, fazer o "balanço do século", com a intenção de perspectivar o futuro desse passado, em temáticas que mantêm um particular înteresse para a cidade e o país, como as migrações, o municipalismo, a educação, o laicismo, a literatura, o cinema - e a "questão feminina", evidentemente.
A instrução, a vivência da cidadania, a igualdade de direitos das mulheres estiveram entre as grandes causas republicanas e são actualmente uma daquelas que somos chamadas e chamados a continuar.
Não sei se algum outro município do país dedicará a sessão inaugural do Centenário às mulheres da primeira república. Nós escolhemos, de caso pensado, colocá-las, desde o início no centro das atenções - porque foram mulheres excepcionais, e o merecem, e porque tinham razão ao proclamar que a republica moderna e democrática não poderia construir-se sem elas.
Para dar hoje, aqui, voz a essas mulheres, ninguém melhor do que a Doutora Maria Barroso, ela própria uma protagonista da história que importa contar, uma grande senhora da cultura e da política portuguesas no século XX e XXI, que sempre se distinguiu pela sua coragem, lucidez e coerência, na luta pela liberdade.
Permitam-me que termine, com palavras de uma das feministas que melhor exprimiu o sentir das suas contemporâneas, Ana de Castro Osório:
"Se uma república nos expulsa das suas leis, não consideramos nossa a pátria onde não temos direitos, onde não temos voz para protestar".
Mas disse também: "A pátria amada pelas mulheres não morre nunca na História".
E nós temos, em 2010, mais razões de amar a pátria onde agora temos direitos e temos voz.

março 03, 2010

1910 MULHERES REPUBLICANAS Out of the shadows

Apenas tópicos e apontamentos, para já...

I - 1ª REPÚBLICA

AO LONGO DA HISTÓRIA, A MULHER EXCEPÇÃO...

Ao longo da história de Portugal - raínhas, estadistas, regentes, consortes, mulheres de cultura, heroínas de guerra - estas referenciadas pelos cronistas, por grandes feitos nas praças do norte de África (Isabel Vaz, que morreu a defender Tânger, no tempo de Filipe I, Antónia Rodrigues, de Aveiro, que combateu em Mazagão, disfarçada de homem, com lendária bravura, D. Isabel de Castro, em FEZ, um grupo de mulheres anónimas que defenderam a praça de Cafim, inesperadamente, vencendo o inimigo), no Oriente, as famosas mulheres do 1º cerco de Dio - Isabel da Veiga, Manoela Coelho ana Fernandes, Bárbara Fernandes - e do 2º cerco de Dio, com o mítico "batalhão de mulheres", Isabel Madeira, Isabel Fernandes, a velha de Dio. E muitas outras, na América do Sul e um pouco por todas as terras do império.
Sintomática a forma como, fieis a estereótipos sexistas, se lhe referem os historiadores: "mulheres de ânimo varonil"; "depondo as fraquezas do seu sexo"; a Antónia Rodrigues, enquanto soldado, na veste masculina, gabam-lhe " a coragem e destrza das armas", enquanto mulher, "a honra, a pureza, a honestidade"...

1910 O 1º MOVIMENTO CÍVICO DE MULHERES
Mulheres de elite, escritoras, médicas, professoras formam o 1º movimento, com um programa de luta pela intervenção cívica e pela igualdade de direitos para a mulher.

OUT of the SHADOWS num duplo sentido:
- causa própria, elas mesmas - ganhando voz e influência na política, dentro de um partido, o republicano, que nesse mesmo ano se tornaria partido do poder
- causa das mulheres todas, com programa para retirar da obscuridade a metade da humanidade
Ter voz, dar voz as mulheres, na ribalta, à luz do dia, à luz da história.

DUAS CAUSAS EM UMA:

a republicana
a feminista

Em 1910 não seria possível ser feminista sem ser republicana...
Mas era possível ser republicana sem ser feminista, ou, pelo menos, colocar aquela causa acima desta. Divergência que iria determinar as primeiraS cisões no mivimento das mulheres republicanas.

SINGULARIDADES PORTUGUESAS

No contexto europeu desta luta pela emancipação das mulheres, com muitos pontos em comum, e muitas interinfluências, algumas singularizadas:

- O entrecruzamento com a "questão de regime", monárquico ou republicano;
- o nascimento da "Liga das mulheres repblicanas" praticamento dentro de um partido político, como o que hoje chamaríamos uma "secção" ou "comissão feminina"...
(sem esquecer a sintonia existente em outros países, entre partidos socialistas ou progressistas, e as organizações feministas - levada menos longe, porém, segundo me parece...)

Implicou isso uma forma de enfeudamento? Uma menor autonomia? Uma subalternização da "questão feminina" à "questão republicana"?
Na Inglaterra, o movimento das "sufragettes", a "Women's Social and Political Union" (1903) também surgiu ligada ao Partido Trabalhista, mas não exitou em afrontar quaisquer forças políticas contrárias e seguir o seu caminho, recorrendo a formas de protesto com grande impacte mediático. No parlamento conseguiram mais de 200 apoiantes para uma comissão em defesa do sufrágio feminino (não os suficientes para aprovar a emenda...). Em 1907, realizaram uma grande marcha sobre o Parlamento.
Em 1908, passam a poder ser eleitas a nível local.
Em 18 de julho de 1910, organizaram um cortejo através de Londres, com uma extensão de 9 KM, no preciso dia da apresentação da lei do sugrágio. Essas manifestações não podiam deixar de ter eco em Portugal - mas não serviram de modelo inspirador...
Menos ainda os meios mais violentos em que o movimento e Mrs. Pankhurst se lançou, corajosamente, a partir de 1912 (com sucessivos julgamentos e prisões de centenas de feministas...) e até ao eclodir da guerra, que a todos na frente interna. Em 1918, as inglesas, ainda antes do fim da guerra, viram-se recompensados com o ganho de causa: o sufrágio, pouco depois seguido pela lei que lhes deu a elegibilidade. A trabalhista Lady Astor seria a 1º deputada. Curiosamente é o partido conservador que convida Emmeline Pankhurst a candidatar-se nas suas listas. Não seria eleita, mas é dela a estátua feminina que ainda hoje permanece junto ao Parlamento.
Mais moderado foi o movimento feminista alemão, tal como o das portuguesas, pondo ênfase na´reivindicação da educação das mulheres (conseguem o dº de voto durante a República de Weimar, em 1918-19).
Nos países nórdicos, os primeiros na Europa a concederem o voto às mulheres, o romance e os romancistas jogam um papel de 1ª linha: caso de Ibsen, Ellen Key na Suécia. Na Finlândia, desde o século XIX, com 19 deputadas no parlamento em 1907! (o primeiro país de todos a conceder o voto às mulheres foi a Nova Zelândia, em 1893).

PRÓS E CONTRAS

Vantagens, registam-se algumas: o suporte organizacional poderoso à intervenção cívica, à participação em comícios e manifestações, a partilha da luta, que são formas de exercício da cidadania. O apoio de muitos dos notáveis do regime - porém, infelizmente, só em qualidade, não em quantidade que servisse o sucesso da causa...

Inconvenientes:
proclamada a república, o "situacionismo", a obrigar à moderação de reivindicações e de linguagem. Demasiada simpatia e proximidade com líderes que desvalorizavam a proioridade do voto das mulheres. Eram mulheres do regime, casadas com os seus dirigentes. Usadas para a propaganda e os interesses do partido, mesmo quando este ignorava os seus interesses justos e legítimos.
A grande contradição que inviabilizou, por largo tempo, o sucesso da luta sufragista:
Os partidos mais progressistas temiam o voto conservador das mulheres, enquanto os conservadores, por motivos ideológicos, não se mostravam capazes de o utilizar - porque eram radicalmente contra ele...
Situação idêntica na Inglaterra e outros países europeus.

A 1ª CISÃO:

Feministas criam, em 1911, a Associação de Propaganda feminista" encabeçada por Ana de Castro Osório.
A "Liga", com Maria Veleda e outra activistas, mantem-se dentro do partido,mas a breve prazo, dispersam-se por outros partidos republicanos.

A MODERAÇÃO DE DISCURSO e de reivindicação

Envolvimento das líderes no triângulo: republicanismo, feminismo, maçonaria.
Movimento não violento, não subversivo, influenciado pelas relações pessoais. Reivindicação modesta do sufrágio, que queriam inicialmente limitado às mulheres com formação acdémica e literária, recendo, com os seus companheiros o conservadorismo das mulheres analfabetas ou pouco instruidas , que viam como presa das posições do clero e dos reacionários. Acento posto na instrução, em igualdade para ambos os sexos.
E uma tendência para o distanciamento de uma imagem popular do feminismo mais radical - caso de Adelaide Cabete, ao falar no 1º Congreso Femininio da Educação:
O feminismo não é o que muitos julgam e pensam, as mulheres a desejar imitar os homens, fumando, usando colarinho e gravata e tantas outras imitações ridículas"...

UMA LONGA LISTA DE PETIÇÕES E SOLICITAÇÕES DO SUFRÁGIO - IGNORADAS...
- Em 1910, ao Governo Provisório, pela LRM
- Em 1911, a Teófilo Braga.
(Os Decretos de 4 de março e de 5 de Abril admitem cmo votantes os portugueses maiores de 21 anos, residentes no território, que saibam ler e escrever e sejam chefes de familia. Não excluindo expressamente as mulheres, quer exclui-las - como fará, na Lei nº3, depois de consumado o voto isolado de uma mulher...).
- Em 1912, à Câmara de Deputados, depois da aprovação pelo Senado do sufrágio feminino, em termos restritos. (A Câmara, pela Lei nº 3 de 1913, retrocede em toda a linha, nem sequer acompanhando a estreita abertura do Senado).
- Em 1915, da APF, liderada por Ana de Castro Osório
(Em 1918, o Decreto 3997 mantem a absoluta exclusão das mulheres)
- Em 1918, a Sidónio Pais, pela LRM
(em 1919, o Decreto 5184 continua a abranger apenas o sexo masculino, e, como a legislação eleitoral anterior, mesmo para eles com limitações, que vão contudo variando)
- Em 1927, finda já a 1ª República, a Lei confirma o exclusivo do voto masculino: a LRM protesta...


MAIS FEMINISTAS DO QUE REPUBLICANAS

Ana de castro Osório, em discurso meridianamente claro:
"A questão feminista é a questão da mulher, que tem sido na sociedade a eterna escrava, a perpétua ludibriada. Por isso, ninguém nos pode dizer que traímos este ou aquele ideal político, porque só devemos ter política do ponto de vista do interesse do noss sexo. Se uma Reública nos expulsa das suas leis cívicas, não poderemos considerar nossa essa pátria onde não temos direitos, onde não temos voz para protestar".
Ou ainda: "Onde há desigualdade, há injustiça e deve haver revolta".
A linguagem não difere muito da sua contemporânea inglesa Mrs. Pankhurst (a prática, sim...).

Para Ana C Osório, feminismo = libertação.
Para Emmeline Pankhurst, feminismo = avanço civilisacional:
"If civilisation is to advance at all, it must be through the help of women freed of their shackels, women with full power to work their will in society".

A ÚNICA ELEITORA da República

A Lei Constitucional nem explicitava a incapacidade eleitoral em razão do sexo - esta era, para a mulher, subentendida...
Carolina Beatriz Angelo, médica, cirurgiã, mãe, viuva invocou a sua qualidade de "chefe de família", para requerer a sua inscrição no recenceamento. Viu-a recusada. Recorreu judicialmente e o tribunal deu-lhe razão. Votou nas eleições de 28de Maio de 1911.
E qual foi a reacção dos presentes no local de voto, cheio de eleitores homens?
Relatos contemporañeos contam que, quando ela lançou o seu voto na urna "uma estrondosa ovação irrompeu da multidão que testemunhava aquele acto de viragem nos anais da política portuguesa". (paralelo com a 1ª presidência feminina da AR)
A Lei foi alterada, de imediato, para excluir, expressamente, as mulheres...

A CRUZADA PERDIDA DO SUGRÁGIO

Sucederam-se as leis eleitorais.. e cada uma representou mais uma desilusão para as sufragistas republicanas.
A 1ª República nunca as aceitou como eleitoras, fosse a que nível fosse, não obstante pedirem tão pouco...
Até o presidente poeta Teixeira Lopes considerava "modesto o programa das feministas portuguesas".
( em França, por ex. as feministas foram radicais nos dºs cívicos, moderadas nos direitos civis - aqui unifomidade na moderação...)
O impacto mediático das suas campanhas foi reduzido, a opinião pública não as apoiou, os homens políticos também não...

RELAÇÕES INTERNACIONAIS
1914 adesão ao International Council of Women


II ESTADO NOVO

1931 - O DIREITO DE VOTO DESIGUAL

O Decreto com força de lei 19694 abre a possibilidade de votar nas Juntas de Freguesia aos cidadãos portugueses de ambos os sexos - às mulheres viúvas, divorciadas, separadas judicialmente,l com família, e às casadas com maridos ausentes nas colónias ou no estrangeiro (sabendo-se que o país tinha, à época, um contingente imenso de emigrantes, muitas seriam as casadas que por esse facto ganhavam o sufrágio...). Pra as elições legislativas, votavam os homens e as mulheres maiores de 21 anos. A eles, bastava-lhes estarem colectado por um mínimo, e saberem ler e escrever; elas teriam de possuir curso secundário ou superior.
Requisitos diferenciados, mas não muito diversos dos propostos pelas feministas, até ao fim da 1ª República, em 1926...
Voto concedido, pois, em plena ditadura, não convertida às teses dos movimentos femininos republicanos, mas por certo influenciada pelo "mainstream" europeu, querendo dar uma aparência de modernidade ( como se veria na constituição de 33, e também, talvez, pela convicção de que ganharia um voto globalmente favorável. A mulher ajudaria a "recristianizar" a sociedade e a política.
Salazar explicitaria, 3 anos mais tarde, aquando da eleição das primeiras deputadas da nossa história, que esse gesto "... não significa ter-se o Estado ou elas próprias convertido ao feminismo". Nem era preciso vir dize-lo: tanto aquele Estado, como aquelas senhoras,estavam, quanto a isso, acima de toda a suspeita!

1933 A NOVA CONSTITUIÇÃO

A Constituição de 33 aceita o princípio da igualdade de sexos, "salvo, quanto às mulheres as excepções fundadas na sua natureza e no bem da família".
Quer isto dizer que aceita sem aceitar: estão assim constitucionalmente fundadas quaisquer discriminações, compatíveis com a ideologia reaccionária do regime.

NOVAS ORGANIZAÇÕES FEMININAS

As mulheres do regime organizam-se em associações de figurino mais tradicionalmente feminino, à medida que o movimento feminista será dificultado e, finalmente, interdito.
1937 - Criação da "Obra das Mães para a Educação Nacional"
1938 - Criação da "Mocidade Portuguesa Feminina"

UMA TENTATIVA DE RETIR%AR O VOTO ÀS MULHERES CASADAS

Em nome do interesse ou do "bem da família", à semelhança da perda de direitos civis que o casamento implica para a esposa...
Dentro da própria Assembleia Nacional, de partido único, o decreto lei governamental encontra oposição - coisa rara, neste domínio e até neste regime. É pedida a ratificação do DL e o seu teor rejeitado.
E não mais será repetida a investida.
A "capitis diminutio" das casadas mantem-se, sim, no direito civil, tal como vinha do Código de Seabra de 1867, dsegraçadamente influenciado pelo Código Napoleão.

AS PRIMEIRAS MULHERES ELEITAS

Assembleia Nacional: Domitila de Carvalho (médica), Mª Cândida Parreira (advogada) Maria Guardiola (professora).
Câmara Corporativa: Clemência Dupin de Seabra (industrial) e Mª José Novais (proprietária). Garantidamente anti-feministas.

2ª VAGA DE FEMINISTAS MILITANTES

Os movimentos nascidos por volta de 1910 vão perdendo capacidade de acção, até que desaparecem, de morte natural ou por imposição do regime. O Conselho Nacional(membro do International Council of Women) é extinto em 1947.
Para o que contribuiu o êxito de uma iniciativa de dar visibilidade às mulheres da cultura, que terá atingido o seu escopo: a Exposição de Livros de Mulheres Escritores, naquele mesmo ano.
O regime viu aí a ameaça da propagação de uma forte corrente da área da cultura para a da política.
Força era o que o sexo feminino estava proibido de ter, por sua suposta "natureza".
O medo da palavra, como instrumento de combate de ideias. Repressão implacável do feminismo, palavra ainda hoje mal vista...
Vozes isoladas não se calariam nunca: caso de Maria Lamas, última presidente do "Conselho Nacional", ou da advogada Elina Guimarães.


III - 25 de ABRIL

LEIS DEMOCRÁTICAS A CONSTITUIÇÃO DE 1933

Reconhecimento imediato da igualdade de direitos entre os sexos. Leis alteradas por constitucionalistas e juristas de todas as áreas, no gabinete, sem precedência de quaisquer movimentos ou protestos femininos.
Uma legislação de vanguarda, feita por bons especialistas de leis, com recuperação do tempo perdido- No direito público, como no privado.
Constituição comete ao Estado o dever de promover a igualdade.

A SEGUNDA QUESTÃO FEMINISTA - a igualdade de facto,a igualdade da participação política
Polémica sobre a adopção de quotas contra uma discriminação presumida (presunção inilidível).

As diferenças de doutrina e de praxis esquerda - direita (ou "centro- direita" - "centro- esquerda")
A promoção das "notáveis" à direita. A promoção de género, nomeadamente pelas quotas, à esquerda.
As primeiras mulheres em cargos considerados eminentemente masculinos pela mão do PSD - par le fait du prince - primeiras mulheres ministras filiadas no partido, governadoras civis, juizes de tribunais superiores, a primeira vice-presidente da AR, as primeiras chefes de delegações parlamentares internacionais, as primeiras líderes parlamentares (CDS e PSD), a primeira líder de um grande partido. (justificação da não promoção das mulheres "comuns", a par dos homens comuns, que polulam naa política...)
O PS tem sido o 1º garante, através de quotas internas, do crescimento percentual do equilíbrio de género no parlamento.( mas revela dificuldade de passar à prática, no que respeita a altos cargos, recorrendo nos poucos que preeenche, sobretudo, a "independentes", sem enraizamento e suporte dentro do partido - as "juppettes" à portuguesa).

Comemoracoes com acento no feminino

• CONFERÊNCIA “AS MULHERES NA PRIMEIRA REPÚBLICA”
Palestrante: Dra. Maria de Jesus Barroso
Local: Centro Multimeios de Espinho
Data: 5 de Março – 17 horas

Participação:
Grupo de Percussão da Escola Profissional de Música de Espinho
Coro da Universidade Sénior de Espinho
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• “CEM ANOS DE LIBERDADE POÉTICA”

Divulgação de um século de poesia através de uma pequena prelecção sobre cada um dos temas e seus poetas, motivando a leitura e a interpretação - Paulo Condessa

Local: Biblioteca Municipal de Espinho
Data: 20 de Março – 15h30

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• CEM ANOS VISTOS ATRAVÉS DO CINEMA

Tema: O Neo-realismo no Cinema

Ladrões de Bicicletas, 1948.

Exibição antecedida de uma palestra com um convidado a confirmar.

Local: Centro Multimeios de Espinho
Data: 25 de Março – 21.30h

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• LANÇAMENTO DO BLOGUE - “O MEU DIÁRIO DA REPÚBLICA”

Concurso para alunos das escolas do concelho e jovens residentes em Espinho, a partir de reportagens sobre as comemorações do centenário da República em Espinho.
1.º Ciclo; 2.º e 3.º Ciclo; Secundário.
Informações e regulamento disponíveis no Museu Municipal de Espinho.

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ABRIL


• SERÃO REPUBLICANO

Reconhecendo a importância dos cafés enquanto lugares de eleição para tertúlia, mais ou menos efusivas, sobre questões de ordem politica, cultural e social e sabendo o quanto a vida mundana de Espinho, à época, podia rivalizar com ambientes semelhantes do Porto ou Lisboa a Câmara Municipal de Espinho propõe uma pequena “viagem “ através da música, do canto e da poesia que nos levará ao tempo da 1ª República .
Este Serão Republicano será realizado em parceria com alguns dos mais prestigiados e experientes agentes culturais locais das áreas do teatro, da dança, da música e da poesia que interpretarão peças e textos dos autores mais representativos da época.
Uma noite diferente, no Centro Multimeios de Espinho, onde os presentes poderão também saborear, num ambiente acolhedor, um capilé acompanhado de um biscoito de Valongo.
Ainda em fase de investigação e preparação, esperamos ter concluído, em meados do mês de Março, o guião deste “ espectáculo”.

Local: Centro Multimeios de Espinho
Data: 22 de Abril – 21.30 h

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• CEM ANOS VISTOS ATRAVÉS DO CINEMA

Tema: Conflitos e Revoluções

Exibição do filme « Non », ou a Vã Glória de Mandar de Manoel de Oliveira, antecedida de palestra.

Local: Centro Multimeios de Espinho
Data: 29 de Abril – 21.30h
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• EDIÇÃO FAC-SIMILADA das actas da Câmara Municipal de Espinho e dos números dos jornais Gazeta de Espinho e Defesa de Espinho, relacionados com o 5 de Outubro de 1910 e 25 de Abril de 1974. A distribuição será efectuada através de um encarte nos jornais Defesa de Espinho, Maré Viva e Jornal de Espinho.


MAIO

• MESA REDONDA

As Mulheres na República - “As Primeiras Mulheres a exercer cargos que lhes eram vedados”

Local: Fórum de Arte e Cultura de Espinho
Data: a confirmar
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• CEM ANOS VISTOS ATRAVÉS DO CINEMA

Tema: Migrações Portuguesas

Exibição de um filme sobre as migrações portuguesas, antecedida de uma palestra com a Professora Doutora Ana Paula Beja Horta.

Local: Centro Multimeios de Espinho
Data: 27 de Maio – 21.30h
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JUNHO

• ARTE EFÉMERA

Intervenção Colectiva em Graffitis

Com o bom pretexto do Centenário da República, a Câmara Municipal de Espinho quer este ano promover diversas iniciativas que propiciem um olhar mais atento sobre alguns dos acontecimentos mais relevantes que se começaram a afirmar no dealbar do século XX.
A saída da arte dos salões e outros espaços conservadores, mais ou menos constrangedores, na tentativa de aproximação aos novos públicos é, então, um facto novo e inovador.
Os cartazes, autênticas obras de arte, invadem as cidades que se “deixam” contaminar pelas mais diversas manifestações culturais e artísticas que tem em comum o facto de serem novas formas de comunicação em nada preocupadas com um lugar na história dos museus e que se assumem claramente como formas de arte transitórias e efémeras. A utilização de paredes para colocação de cartazes ou como suporte de pinturas e textos passa a fazer parte do quotidiano europeu.
Espinho possui um núcleo muito forte de cultura hip-hop e, dentro desta, excelentes grafitters que realizam autenticas obras de arte.
Neste contexto convidamos Luis Couto e outros jovens artistas do concelho, a orientar um workshop de grafitti, que realizaremos no dia 16 de Junho, no exterior do FACE- Museu Municipal de Espinho e no qual participarão 20 crianças e jovens.

Local: Fórum de Arte e Cultura de Espinho
Data: 16 de Junho – 15h
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• CONCERTO EVOCATIVO DA OBRA MAESTRO FAUSTO NEVES (1890-1955). Lançamento de um CD gravado ao vivo.

Local: Auditório de Espinho/Academia de Música de Espinho
Data: 16 de Junho – 21.30h
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• ESTÁTUAS VIVAS

Prémio Especial para a estátua que melhor evoque uma personagem ou um acontecimento da república.
Local: Largo da Câmara Municipal
Data: 20 de Junho – 15.00 h


• CEM ANOS DE MIGRAÇÕES PORTUGUESAS

Conferência “Emigração na República” – Prof. Doutora Maria Beatriz Rocha Trindade.
Local: Fórum de Arte e Cultura de Espinho
Data: a confirmar
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• LANÇAMENTO DA OBRA “A EMIGRAÇÃO EM ESPINHO (1910-1913) ”

Local: Fórum de Arte e Cultura de Espinho
Data: 16 de Junho – 18.00h
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• CEM ANOS VISTOS ATRAVÉS DO CINEMA

Tema: As Mulheres no Cinema
Camille (Margarida Gautier), 1937.
Elisabeth, 1998.
Exibição antecedida de palestra.

Local: Cinema ao ar livre – local a designar
Data: 26 de Junho – 21.30h
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JULHO

• AO LARGO REPUBLICANO

A Câmara Municipal de Espinho vai promover, no mês de Julho, uma grande iniciativa de rua que quer evocar, com o rigor histórico possível mas também de forma lúdica, os comícios políticos tão comuns no tempo da 1ª República.
Esta iniciativa que se quer de grande impacto social e mediático, será realizada em parceria com os nossos agentes culturais com larga experiência de trabalho para grandes públicos e ao ar livre. Assim, ranchos folclóricos, grupos de teatro e de música reunirão perto de duas centenas de actores, músicos e figurantes que encenarão, vestidos a rigor, um grande comício republicano. No “ Ao largo Republicano!” poderemos encontrar as mais diversas personagens: monarcas e republicanos, pescadores, camponeses e fidalgos, inflamados políticos locais e nacionais, caricaturistas, bandas de música e todos aqueles que se reuniam aos grandes ajuntamentos: ceguinhos cantores, artistas de pequenos circos familiares, ardinas e outros vendedores: de água, de banha da cobra, de folhetins…. E nem as crianças faltarão por ali, brincando os jogos de então.

Local: Largo da Câmara Municipal (Praça Dr. José Salvador)
Data: 25 de Julho – 15.00h
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• CEM ANOS VISTOS ATRAVÉS DO CINEMA

Tema: As Férias no Cinema
Morte em Veneza, 1971.
Exibição antecedida de palestra.
Local: Cinema ao ar livre – local a designar
Data: 24 de Julho – 21.30h
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• TEATRO DE ROBERTOS
“Representações sobre a República” – José Bessa

Em Espinho muitos possuem boas memórias dos espectáculos de teatro de Robertos que deambulavam pelas nossas praias e eram presença obrigatória em feiras e romarias.
O teatro de Robertos, que continua tradições medievais de grupos de marionetas, tem no início do século XX particular expressão.
José Bessa, com larga experiência de teatro, integrou o grupo do Centro Dramático de Évora, que recuperou os Bonecos de Santo Aleixo e diversas companhias de teatro como o Teatro Experimental do Porto.
A convite da Câmara Municipal de Espinho José Bessa, que participa habitualmente no nosso Festival de Marionetas, irá construir um texto, jocoso mas didáctico, para o seu teatro de Robertos. Para a construção do texto o actor terá a colaboração de diversos serviços da Câmara Municipal de Espinho.
O espectáculo deambulará pelas praias do nosso concelho nos meses de Julho e Agosto.

Animação de rua, praia e outros lugares de Espinho
Data: Fins-de-semana de Julho


AGOSTO

• EXPOSIÇÃO E CONFERÊNCIA – “HUMOR GRÁFICO” – Osvaldo de Sousa
Local: Centro Multimeios de Espinho
Data: 7 de Agosto – 16.00h
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• DESFILE DE FATOS DE BANHO da Época da Implantação da República

Local: Praia da Baía
Data: 8 de Agosto – 16.00h
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• CEM ANOS VISTOS ATRAVÉS DO CINEMA

Tema: O Veraneio no Cinema
As Praias d’ Agnés, 2008.
Exibição antecedida de palestra.
Local: Cinema ao ar livre – local a designar
Data: 07 de Agosto – 21.30h
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• TEATRO DE ROBERTOS

“Representações sobre a República” – José Bessa
Animação de rua, praia e outros lugares de Espinho
Data: Fins-de-semana de Agosto

SETEMBRO

• CONFERÊNCIA “CEM ANOS DE MUNICIPALISMO”
Homenagem aos Promotores de Espinho a Concelho”.
Palestrantes: Dr. Teixeira Lopes e Dr. Azevedo Brandão

Local: Fórum de Arte e Cultura de Espinho
Data: 30 de Setembro – 17.00h
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• CEM ANOS VISTOS ATRAVÉS DO CINEMA

Tema: A Música no Cinema
Amadeus, 1984.
Exibição antecedida de palestra.
Local: Centro Multimeios de Espinho
Data: 30 de Setembro – 21.30h
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• RECRIAÇÃO DE UMA SALA DE AULAS DOS INÍCIOS DA REPÚBLICA

Local: Fórum de Arte e Cultura de Espinho
Data: 18 de Setembro a 31 de Outubro
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OUTUBRO

• EXPOSIÇÃO “ROSTOS DA REPÚBLICA”
Local: Galeria do Museu Municipal de Espinho
Data: 05 a 31 de Outubro
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• MESA REDONDA “A IMPLANTAÇÃO DA REPÚBLICA EM PORTUGAL”
Palestrantes a confirmar

Local: Fórum de Arte e Cultura de Espinho
Data: a confirmar
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• CONCERTO DO CENTENÁRIO – ORQUESTRA CLÁSSICA DE ESPINHO

Local: Auditório de Espinho
Data: 05 de Outubro
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• TEATRALIZAÇÃO - «Da Monarquia Constitucional à República »

Apresentação de quadros vivos, dirigida a um público infanto-juvenil.
Local: Fórum de Arte e Cultura de Espinho
Data: 05 a 31 de Outubro
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• CEM ANOS VISTOS ATRAVÉS DO CINEMA

Tema: Um Século de Guerra e de Paz
A Vida é Bela, 1997.
Exibição antecedida de palestra.
Local: Centro Multimeios de Espinho
Data: 21 de Outubro – 21.30h
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• EXPOSIÇÃO “ROSTOS DA REPÚBLICA”; CONFERÊNCIA; CONCERTO.

Local: Brunoy – França
Data: Inauguração da exposição a 24 de Outubro
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NOVEMBRO

• EXPOSIÇÃO “AS MULHERES NO ESTADO-NOVO”

Abertura da exposição com conferência
Local: Fórum de Arte e Cultura de Espinho
Data: 06 a 30 de Novembro
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• CEM ANOS VISTOS ATRAVÉS DO CINEMA

Tema: Um Século de Cinema
Cinema Paraíso, 1988.
Exibição antecedida de palestra.
Local: Centro Multimeios de Espinho
Data: 25 de Novembro – 21.30h
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• LANÇAMENTO DO CATÁLOGO «OS BENS CULTUAIS EM ESPINHO»

Local: Fórum de Arte e Cultura de Espinho
Data: 19 de Novembro – 16.00h


DEZEMBRO

• EXPOSIÇÃO « CEM ANOS DE VIVÊNCIAS EM ESPINHO »

Local: Fórum de Arte e Cultura de Espinho
Data : 04 de Dezembro a 02 de Janeiro
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• FINAL DO CONCURSO – BLOGUE « O MEU DIÁRIO DA REPÚBLICA »

Entrega de Prémios.
Local: Fórum de Arte e Cultura de Espinho
Data: 19 de Dezembro
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• CEM ANOS VISTOS ATRAVÉS DO CINEMA

Tema: Um Filme de Natal
Milagre na Rua 34, 1994.
Natal em Família, 1998.
Um Conto de Natal, 2009.
Exibição antecedida de palestra.
Local: Centro Multimeios de Espinho
Data: 18 de Dezembro – 21.30h
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março 01, 2010

Entrevista - Defesa de Espinho

- A deslocalização da vereação da Cultura para o Fórum de arte e cultura é presumivelmente um sinal de descentralização (de gestão e de actividade) autárquica?

Há, é claro, uma "deslocalização" da vereadora, mas sem que isso signifique “descentralização no relacionamento com o presidente do executivo, que é quem delega competências nos restantes membros da sua equipa. Assim é no plano formal, e assim é de facto também. Tenho gostado de colaborar com o Dr. Pinto Moreira e, neste aspecto, haverá, naturalmente, uma manutenção do "status quo". Nada de importante vai em frente sem o seu conhecimento. Mas é fácil chegar a acordo com ele: é directo, percebe rapidamente o que está em causa e não receia tomar decisões, qualidades que, para mim, são fundamentais no ambiente de trabalho. Não tenho paciência para políticos hesitantes...
2 - E é também um acto de valorização do Fórum de arte e Cultura de Espinho?
Sem dúvida! É um acto de muito apreço por aquele magnífico pólo cultural, e de vontade de contribuir para lhe dar a visibilidade e a vivência, que ainda lhe faltam. E é, também, uma forma de dizer aos espinhenses que o Fórum fica perto do centro da cidade - eu tenciono ir a pé da Rua 7, a norte, até ao gabinete, vir a casa, para o almoço em família, e regressar. Quatro pequenos passeios saudáveis, por bom caminho, com o mar à vista. De agora em diante, reuniões, contactos de serviço, recepções a visitantes, e, igualmente, muitos eventos vão passar para lá. No Fórum, funcionam já os serviços do Museu e do Arquivo, e espero que, em breve, se lhes junte a DAC, a divisão de assuntos culturais. Ora esta proximidade geográfica vai facilitar muito o trabalho quotidiano, em conjunto, que eu privilegio sempre.

3 - E é Igualmente uma maneira de dar face...ao FACE
Tem toda a razão - é isso mesmo, dar face ao FACE e dar-lhe destino. Aquele imenso Fórum, muito maior do que parece, visto do exterior, está, ainda à procura de vocação, de identidade - de gente, de público, que possa admirar a sua beleza arquitectónica e sentir ali presente o espírito da cidade, a sua história, o seu património.

4 -Respeitada, como se impunha, a relíquia arquitectónica da antiga fábrica Brandão Gomes, o rosto... do FACE deslumbrantemente colorido... e o espaço físico adequadamente apetrechado? Funcionalidade das divisões caracterizada pela polivalência ou cada espaço em função da utilidade inicialmente projectada?
Neste momento, eu diria que o FACE é muito mais potencialidade do que realidade já firmada. Há espaços definidos - e bem - como os do Museu, o da Arte Xávega e o da própria Fábrica Brandão Gomes, ou como a galeria de exposições temporárias, que deslumbra qualquer visitante, mesmo que venha, por exemplo, do Museu de Serralves, um dos parceiros possíveis, que nos propõe a sua dinamização.
Falo no singular, quando, em boa verdade, deveria falar de “galerias”, no plural, porque são duas, geminadas, com uma área de 1,100 metros quadrados. Infelizmente, uma delas está ainda ocupada por uma empresa à qual pudemos oferecer outra área adequada e convenientemente livre. O bom senso prevaleceu, a troca foi rapidamente proposta por este executivo, e logo aceite. Em breve irá concretizar-se, promete o colega que tem o assunto em mãos. Nesse dia, Espinho passará a dispor de um espaço de galerias de arte dificilmente igualável em qualquer grande cidade de Portugal! Tanto aí, como nas amplas zonas de transição, nos pátios interiores, nos salões, no auditório, não falta lugar convidativo para “happenings” do mais variado género.
Todavia, há limitações na multifuncionalidade de alguns sectores, a começar pelo auditório, pensado apenas para conferências, e com lacunas no que respeita a tudo o resto - projecção de cinema, teatro, concertos. Mesmo para simples palestras ainda falta equipamento de som, de luz... Não por culpa do arquitecto, evidentemente. Terá feito o que lhe foi pedido. Algumas dessas omissões podem ser supridas - a de equipamentos, obviamente - outras são irremediáveis... De qualquer modo, eu prefiro olhar tudo positivamente. Partir do que existe. Vamos aproveitar algumas das imensas paredes interiores, os seus longos corredores, para exposições fotográficas permanentes sobre Espinho: sobre os antigos e míticos cafés da cidade, sobre o caminho de ferro, sobre os filmes que passaram nos cinemas no Teatro São Pedro, no Casino ( e a quantos eu mesma assisti!), sobre festas que marcaram a cidade, como as "batalhas de flores", ou competições como as divertidas gincanas. Nas paredes do Fórum se fará a marcha do tempo, nesta terra pioneira. Os visitantes serão convidados a seguir, lá dentro, um extenso, roteiro de mostras e exibições, de uma ponta à outra do edifício. E há ainda, em preparação, um novo acervo museológico, que representará uma outra esplêndida face de Espinho. Mais não posso dizer por agora, porque correm conversações com os mecenas, que o vão oferecer. É um sonho, quase a tornar-se realidade!
Entretanto, como é sabido, faltam coisas simples e elementares: a loja do museu (que já só aguarda a entrega de mobiliário), as cafetarias, a abertura do "parking"... E, também, o arrendamento de lojas, interiores ou com vista para o mar, parece já despertar interesse. Espero que o ritmo de concretização destas fases de crescimento acelere, ao longo deste ano.

5 - E sobrou (ou foi descoberto...) espaço para o pelouro da Cultura
Sim, é o reverso da medalha deste isolamento do Fórum... Sobra, de momento, área desocupada, que vem sendo utilizado, também, em benefício de instituições da terra que aí encontram facilidades para trabalhar, ensaiar, actuar. “Ateliers”, teatro, música, com a presença de prestigiadas e antigas instituições, como a Banda de Música de Espinho, ou de grupos de jovens, como o Quetzal e o Spinuartes, alunos das nossas escolas, têm apreciado as condições que lhes reservamos no Fórum. O Cinanima, que já lá estava, também. É óptimo para eles, é óptimo par nós, porque, em cada um, vamos ganhando aliados e divulgadores. À medida que aumente o grau de ocupação, teremos de assegurar a partilha e a coordenação de agendas. Esse é um problema que queremos enfrentar, como sinal de crescimento e vitalidade do FACE.

6 - Entretanto desponta o sucesso do Museu Municipal...
Sim, do Museu, em si mesmo, e das suas iniciativas voltadas para os munícipes, os turistas, assim como das suas actividades de serviço educativo para crianças e jovens - um novo conceito de Museu. Têm surgido, também, interessantes propostas de parcerias, as últimas das quais, como já disse, com o Museu de Serralves, e, igualmente, com a Cooperativa Árvore. Há condições para atrair o interesse dos melhores, pela qualidade das valências, dos espaços - o único obstáculo é o de um magro orçamento. Isto é o habitual: Há sempre dinheiro para obras grandiosas, que, depois, falta quase em absoluto, para as utilizar como deveria ser... Não é só aqui, é em Portugal inteiro. É preciso uma verdadeira alteração de paradigma - a nível local, a nível nacional (penso em auto-estradas a triplicar, TGV...)

7 - E lá está representada a história de Espinho, fundamentalmente a zona envolvente e da gente ligada ao mar, à pesca e às tradições socio culturais ... locais
Sim, queremos que, nomeadamente, os moradores do bairro piscatório, olhem aquele museu como coisa sua. Queremos que as crianças e os jovens desse lugar, onde nasce Espinho, se habituem a considerar o Museu uma casa acolhedora. Queremos que a centralidade do FACE em Espinho seja uma forma de os colocar, a eles, no centro das atenções.
E queremos que ali se encontrem e se reúnam, harmoniosamente, as várias realidades históricas e actuais da cidade. No desenrolar das fases da programação cultural, nas exposições permanentes.
A concretização do "3º Museu", de que falei, ao lado do da fábrica matricial e da pesca (também matricial), será um passo de gigante nessa direcção.

8 - No museu municipal estão patentes, por exemplo, uma cama e outros exemplos de mobiliário de outrora, assim como objectos e vestuários e em lugar de destaque central um barco e a rede de pesca... Mas estará todo o conselho lá exposto? Numa síntese do passado de cada freguesia de Espinho...

O Museu da Arte Xávega é representativo de toda a área costeira e piscatória e tem nessa temática a sua unidade. Não creio que se deva misturar com outros elementos da cultura local.
Mas a proposta implícita na pergunta, que é a de dar visibilidade a outras facetas e singularidades da vida local parece-me uma excelente ideia, e julgo que merece ser trabalhada em conjunto com os munícipes, os responsáveis eleitos e as instituições de cada freguesia. Se houver interesse e vontade, pode organizar-se, por exemplo, um espólio fotográfico e expô-lo no FACE, em permanência. O Dr. Armando Bouçon tem todo o know-how para realizar um projecto nessa linha de actuação.

9 - E o Arquivo Municipal?
É outro serviço que funciona muito bem, com competência reconhecida mesmo fora da terra, com convites dirigidos à Dr.ª Beatriz Matos Fernandes para participar e encabeçar iniciativas de âmbito nacional, que são para nós motivo de orgulho.
Para além do perfil tradicional de um Arquivo, está, igualmente, aberto à colaboração com as escolas, em programas educativos, e ao contacto personalizado com os visitantes, no objectivo de divulgar a nossa riqueza documental. Lembro, por exemplo, a organização dos roteiros da arte nova em Espinho (o que ainda resta!). Este mês, apresenta uma bela exposição: “Scriptorium medieval”, cedida pela Santa Casa de Misericórdia de Coimbra. E no programa do "Centenário da República" em Espinho participa com vários projectos: desde um projecto de investigação sobre a emigração de espinhenses entre 1910 e 1914, com base em documentos de arquivo, à recriação de uma sala de aula de 1910 e à teatralização de cenas da monarquia constitucional e da república, destinada a grupos de alunos das escolas.
Porém, a decisão de transferir a localização do Arquivo das caves do edifício municipal para o FACE, à beira-mar, não foi isenta de alguns riscos. A proximidade do mar não ajuda…
Há necessidade de acautelar o espólio, de investir e despender, quotidianamente, em equipamentos de desumidificação. Ali, mais do que em qualquer outro lugar, é preciso atenção constante a estes aspectos...

10 - A Galeria de exposições já tem agenda em curso…
Propostas e ideias não faltam. Verbas é que não há, para fazer muito mais... Estamos a apostar, sem prejuízo da qualidade, em exposições das menos dispendiosas. Temos em carteira, por exemplo, uma exposição sobre Amadeo, um grande "simpósio" sobre pintura, com participantes com nome já consagrado, cujas obras reverteriam para o Museu... Talvez para 2011...
Este ano posso referir, de memória, algumas: Uma sobre o PREC do repórter fotográfico Valentim, por alturas do 25 de Abril; em Maio, várias mostras sobre a temática da pesca – uma sobre instrumentos da pesca, outra sobre a pesca do bacalhau (cedida pelo Museu de Ílhavo), uma exposição de pintura, presentes no FACE, enquanto decorrem em Espinho as festas do dia nacional do pescador, organizadas em colaboração com o NAPESMAT da Matosinhos; no verão, virá de Barcelona uma exposição de pintor catalão Carles Bros sobre os Caprichos de Paganini, uma outra de Balbina Mendes sobre "Máscaras rituais de Trás-os-Montes", uma mostra de "Humor gráfico". Em Outubro, inauguramos uma exposição fotográfica sobre "Rostos da República", (que, depois, levaremos a França, à cidade geminada de Brunoy e, porventura, a outros países, no contexto da geminação). Durante Março e Abril estarão patentes duas exposições, cedidas pela Cooperativa Árvore - uma de desenhos de Siza Vieira, outras de gravuras, serigrafias e litografias de vários autores, entre os quais Resende, Pomar, Charters de Almeida, Justino Alves...

11 - A cultura do concelho não se cinge eventualmente ao Fórum de Arte e Cultura de Espinho.
Pois não! Como espaço aberto que é, o Fórum depende, em absoluto, da capacidade das pessoas, dos actos culturais com que lhe dão vida, com que lhe permitem, afinal, atingir os seus objectivos. Em si, é apenas o equivalente a uma tela em branco, de superior qualidade, onde poderá nascer a obra de arte ou, pelo contrário, uma pintura banal. É, pois, um instrumento esplêndido, ao serviço da cultura em Espinho, isso é! Mas é necessário preenche-lo, usa-lo, fazer, dentro das suas paredes, história da terra, das artes, dos talentos. Um grande desafio colectivo!


12 - O Centro Multimeios não perde visibilidade e ocupação com o FACE também equipado com uma galeria de exposição? Claro que também existe uma galeria de exposições na Junta de Freguesia de Espinho...

São salas de exposição com características diversas, ao serviço de uma multiplicidade de públicos e de artistas ou "agentes culturais". O FACE pode receber exposições de enorme dimensão, com os seus 1.100 metros quadrados. Os outros, não. Mas são óptimos, tanto para exposições de arte, como para mostras didácticas, "work shops" ou outro tipo de organização. Por exemplo, no Multimeios vai estar, em Março, com fins didácticos, uma exposição promovida pela Escola Sá Couto sobre o Padre António Vieira, na galeria da Junta, esteve, antes do Natal, uma colorida feira de artesanato...
São equipamentos a mais? Teria sido preferível apostar em menos construções com mais funcionalidades? O que hei-de responder? Estão feitas, são boas, são atractivas, vamos geri-las, todas, o melhor que nos for possível.



13 - Ainda em esqueleto, a Biblioteca Municipal aguarda... pela oportunidade da sua funcionalidade? Enquanto a actividade da Biblioteca Municipal se confina ao dimensionamento e condicionalismo da área por enquanto reservada da infra-estrutura da Piscina Solário Atlântico?

Como há pouco dizia, o mais importante ainda são as pessoas, na medida em que com criatividade e vontade, conseguem suprir muitas das deficiências ou insuficiências das infra-estruturas. O que se passa com a Biblioteca prova isto mesmo. A Drª Isabel de Sousa, a Drª Andreia Magalhães e os seus colaboradores vêm desenvolvendo, nas improvisadas instalações, na piscina, com grande dinamismo, inúmeras actividades à volta do livro, da literatura, do estudo, do conhecimento e reconhecimento de valores da nossa cultura, de motivação para a leitura e a escrita, envolvendo os mais diversos grupos da sociedade, sem esquecer crianças, jovens, idosos - o "cantinho dos avós", "a hora do conto", lançamento de livros, como, há pouco, o de Richard Zimmler e o de Sérgio Godinho, e, mais recentemente, o de uma jovem autora de Espinho, na sua primeira experiência literária.
Nas novas instalações vão oferecer programas semelhantes, com condições de trabalho para os funcionários e de participação para os destinatários das acções e de frequência para o público, que serão muito melhores.



14 - Os ranchos e as bandas... o folclore e a música... A cultura é do povo?

A meu ver, sim! O que faz a identidade de Espinho, a sua singularidade, é o apego às tradições, o respeito pela herança cultural, a vontade de a lembrar e de a continuar. De procurar transmitir o fio da história, fazendo coisas novas. Sem isso, cairíamos no anonimato, seríamos apenas um lugar, ruas, casas, bairros, dormitórios, e não, como somos, uma autêntica comunidade, feita do sentimento de pertença.

15 - E o povo também vive de eventos culturais...

Claro que sim: neles se revê, se relaciona, se enriquece e se diverte... O que é particularmente verdadeiro em Espinho, não só para os espinhenses, com a sua imensa panóplia de associações e grupos culturais, a sua extraordinária história de tertúlias e de convivialidade em esplanadas e cafés, mas também para os visitantes, que aqui sempre procuraram e encontraram a animação que faz parte de um programa de veraneio, numa estância balnear. Desporto, cinema, música, concertos, multidões em festa são a imagem de marca da cidade, que soube manter, de geração em geração! O que perdemos em tempos recentes, temos de recuperar!


16 - Na qualidade de vereadora da cultura já dá o seu cunho pessoal e confere a sua experiência e sensibilidade sociocultural, por exemplo, assinalando com um programa especial em Espinho a efeméride do centenário da República e ainda com a promoção de um blogue - "O meu Diário da república"...

Este ano o "centenário" é incontornável, mesmo para quem, como eu, entende que, hoje, é mais importante o primado da democracia do que a chamada "questão de regime". Mas temos de situar os factos no seu tempo, e esse foi um acontecimento determinante do futuro português. É um período singular, como são os de grandes mutações, como veio a ser o do 25 de Abril. Tempos de grandes esperanças, nem todas concretizadas. Com contradições e excessos, também, evidentemente. Todavia
vale bem a pena recorda-los, olhando os ensinamentos de um século de vida nacional, e perspectivando o futuro desta república.
A preparação do "centenário" foi obra de equipa, em várias reuniões longas, de "brain storming", eu quase diria "de tertúlia", pelo gosto que nos deu fazê-la. A tal ponto obra colectiva que é difícil dizer a quem pertence a ideia de cada evento, porque a ideia foi, logo de seguida, recriada com sugestões de cada um dos responsáveis pelos serviços que comigo trabalham no pelouro da cultura.
A partir de um projecto inicial, a exposição sobre "Os rostos da República" para o dia 5 de Outubro, pensado para a Galeria do FACE, foi assim nascendo um programa variado e ambicioso (atendendo, sobretudo, ao facto de os serviços da cultuar terem gente de qualidade, mas não gente em quantidade suficiente… ). Irá de Março a Dezembro, e pretende envolver os espinhenses de todas as idades e sensibilidades, com apelo ao espírito cívico e á tolerância - incluindo a tolerância para com as ideias dos nossos antepassados, fossem eles republicanos ou monárquicos. O resultado vai depender muito mais daqueles que são convidados a participar, do que de nós!
Haverá momentos de festa, como a reconstituição de um serão de época, ou de um comício republicano (com centenas de actores e de figurantes, se a Drª Idalina conseguir, e vai conseguir, a adesão que esperamos!), de representações de teatro de rua, de Robertos, durante o verão, de "work shop" sobre graffitis , a exposição sobre humor gráfico, e momentos de reflexão, em conferências e debates sobre temáticas escolhidas, numa visão diacrónica do século.
O concurso de blogues destina-se a incitar os jovens à participação neste projecto do centenário, através de escritos e imagens, de reportagens em estilo jornalístico e de comentários sobre os diversos acontecimentos que vamos promover, de Março a Dezembro de 2010.
17 - E para o 5 de Outubro, no Centro Multimeios, está calendarizada uma conferência subordinada ao tema "As Mulheres na 1ª República". O convite formulado à Drª Maria Barroso confere desde logo dimensão e distinção à inauguração das comemorações do centenário da República em Espinho?
Sim, antes de mais, a dimensão humanista: a do feminismo republicano, que é um humanismo no feminino, tratado por quem melhor o pode fazer, uma grande Senhora, que representou, de uma forma excepcional, a República portuguesa, na qualidade de Primeira Dama. A Drª Maria Barroso é um exemplo de luta pela liberdade, pela democracia, pelos valores da história e da cultura portuguesa. É, por direito próprio, uma figura de relevo da nossa cultura no século XX r no actual. Foi uma jovem e muito talentosa actriz do Teatro Nacional, de onde foi saneada pela ditadura, depois, professora E directora de um grande colégio. É uma figura da nossa vida política, única mulher entre os fundadores do seu partido, deputada à Assembleia, dentro e fora do parlamento, uma voz corajosa e influente na defesa da paz e da dignidade das pessoas.
Para nós, é um privilégio tê-la na abertura do "Centenário", prestando homenagem às mulheres da 1ª república.
A questão da igualdade, da participação cívica, da educação das mulheres foi uma das grandes causas republicanas, é bom lembrá-lo! Não sei se haverá outro Município que dedique a cerimónia inaugural à luta das mulheres pela igualdade, que é condição da própria vida democrática...


18 - A iniciativa aprazada para a primeira sexta-feira de Março também será valorizada com actuações do grupo de percussão da Escola Profissional de Música de Espinho e do coro da Universidade Sénior de Espinho...

Uma das primeiras orientações adoptadas nas reuniões preparatórias da comemoração foi a de tentar motivar os parceiros da Câmara os agentes culturais a colaborarem, integrando a temática nos seus espectáculos, nos guiões, sempre que possível. Isso já aconteceu, no Festival de marionetes, no "Tú cá, tú lá" ...
O coro da Universidade Sénior, que eu já tive o gosto de ver actuar, será justamente uma presença do "Tú cá, tú lá". O grupo de percussão, cuja qualidade é sobejamente reconhecida, vem dar ao evento um toque de juventude, que não poderia faltar.
Quisemos combinar as duas vertentes das comemorações, logo neste 1º acto: a vertente de reflexão e diálogo, com a conferência e o debate e a vertente lúdica, com o concerto.

19 - O Orfeão de Espinho também está na antecâmara do seu centenário... Mas há mais e louváveis registos de instituições que fazem parte da história do concelho... As novas gerações espinhenses estarão cientes dos pergaminhos e dos contributos dos ranchos, das bandas e das associações de cariz cultural? Estarão sintonizadas e motivadas com a identidade social do concelho?

Acho que sim, e espero não estar a ser apenas optimista ou “voluntarista”! Considero que muitas destas instituições antigas têm sabido aliciar os jovens, rejuvenescer com eles... Também neste aspecto são exemplares. Poucas terras da dimensão de Espinho terão uma riqueza comparável. Muitos destes grupos são verdadeiras escolas - de música, de dança, de teatro... Não foi por acaso que o Presidente da República veio a Espinho dar o devido reconhecimento à Academia É em larga medida graças a eles, em colaboração, em parceria, que conseguimos organizar a agenda cultural. Ideal seria que integrassem também outras agendas culturais do país e do estrangeiro, levando com eles o nome de Espinho..

20 - e os emigrantes?

O meu trabalho com a emigração portuguesa começou há precisamente 30 anos, em 1980, e tornou-se parte da minha vida. Tratei da emigração no governo, no parlamento, na assembleia parlamentar do Conselho da Europa, onde presidi à "comissão das migrações e refugiados", e na universidade, onde regi um curso de mestrado sobre "políticas e estratégias para as comunidades portuguesas". É uma paixão, uma causa. Pertenço, hoje, a uma associação de estudo e solidariedade com a "mulher migrante" e sou presidente da assembleia da "Associação dos Portugueses do Estrangeiro". Mantenho, naturalmente, o contacto com muitos amigos e instituições das comunidades.

21 - Já foi Secretária de Estado na vertente da emigração e como tal afigura-se que esteja habilitada a traçar o orgulho dos emigrantes espinhenses no que concerne à identidade colectiva de um concelho geograficamente pequeno, mas disperso no mundo...

Acho que o concelho bem pode rever-se na sua diáspora, na ligação com a cultura e as tradições da terra, que levam consigo na memória e sabem preservar, na importância que, em alguns países, têm também no relacionamento internacional, nas geminações, por exemplo. É o caso de Brunoy, ou do Rio de Janeiro, onde há uma "Casa de Espinho" muito dinâmica. Outro dos países onde encontrei muitos espinhenses ilustres, dirigentes de grandes associações, foi a Venezuela. E não só em Caracas, também em Barquisimeto, em Valência, em Cumaná ... E aqui bem perto, temos algo de muito raro (que eu saiba, caso único!) que é um Centro Cultural criado por emigrantes regressados e inspirado nos que existem na Venezuela. O contrário é que é regra, que consiste na “exportação” de modelos associativos das terras de origem. Mas este vaivémmariamanuelaaguiar de influências, este aproveitamento de experiências de vida comunitária ganhas no estrangeiro, é de saudar e de estimular!.