janeiro 02, 2026
TEXTO PARA "ROSTOS FEMININOS DA REPÚBLICA"
Maria de Jesus Simões Barroso nasceu na Fuzeta a 2 de maio de 1925, filha de uma professora primária e de um oficial do exército. Fez os estudos secundários em Lisboa nos Liceus D. Filipa de Lencastre e Pedro Nunes. No Conservatório Nacional, terminou o curso de Arte Dramática com 18 valores, o que lhe deu acesso ao Teatro Nacional D. Maria II na Companhia Amélia Rey Colaço- Robles Monteiro, onde teve uma carreira fulgurante, aclamada tanto pela crítica como pelo público, mas efémera, terminada violenta e abruptamente pela proibição do regime, após uma memorável representação em “A casa de Bernarda de Alba”.
Originária de uma família democrática, aprendeu, desde a infância, a lidar com perseguições políticas, com as prisões arbitrárias do pai, e cedo se envolveu, ela própria, corajosamente, na luta contra a ditadura, usando como armas um seu talento excecional a interpretar personagens subversivas e a declamar poemas revolucionários. Na Faculdade de Letras, onde compatibilizava o trabalho de atriz com o de estudante no curso de Ciências Histórico-filosóficas, foi colega de Mário Soares, com quem casou, em 1949, (um casamento por procuração, numa altura em que ele se encontrava preso). Tiveram dois filhos, João e Isabel.
Barrada do teatro e, de seguida, também do ensino, Maria Barroso assumiu a direção do Colégio Moderno, fundado por seu sogro, durante décadas, e dedicou-se à família, sem nunca desistir da luta cívica e política. Pertenceu ao MUD Juvenil, à Associação Feminina para a Paz, participou nas campanhas eleitorais de Norton de Matos e Humberto Delgado, foi candidata a deputada pela CDE, a única mulher a ter voz no 3º Congresso da Oposição Democrática e a única a participar, em 1973, na reunião fundadora do PS. Ao cinema, (com Paulo Rocha, em “Mudar de Vida”) e ao teatro voltaria nos anos sessenta, mas logo seria banida, de novo, pelo regime ditatorial.
Depois de 1974, participou na aventura de construção da democracia, em campanhas de esclarecimento e comícios e foi eleita deputada à Assembleia da República, em várias legislaturas. Na década de 1986 a 1996, como mulher do Presidente da República, deu, mais uma vez, prova da sua imensa capacidade de trabalho, cultura, inteligência, não descurando a elegância de trato e tornando-se um ícone da moda, e acompanhou o marido nos compromissos oficiais em Portugal e nos quatro cantos do mundo, sem descurar a sua própria agenda, em defesa dos Direitos Humanos, num vasto campo de intervenção, cultural e social. Lutou sempre pelos mais desprotegidos e marginalizados – portugueses, timorenses, africanos, imigrantes,refugiados, homens e mulheres.
Feminista e humanista, ninguém, como ela, sabia “fazer pontes”, conciliar e mobilizar para a ação. Gozava de imenso prestígio nacional e internacional, que lhe permitiu, por exemplo, alcançar um primeiro acordo de paz, entre moçambicanos, para a proteção de refugiados, no “corredor de Ressano Garcia”.
Nas duas décadas seguintes, manteve um ritmo de trabalho que nunca abrandou. Foi a primeira mulher a presidir, durante anos, à Cruz Vermelha Portuguesa, e, através da sua “Fundação Pro Dignitate”, continuou a ser a paladina da língua e da cultura portuguesa, do aprofundamento dos laços dos povos lusófonos, da paz, (contra a violência, em particular nos “media”), da “valorização da dimensão feminina”, que, na primeira década do século XXI, a levou à Diáspora, presidindo a uma iniciativa pioneira para participação igualitária das emigrantes nas suas comunidades.
Nenhuma figura política do seu tempo foi tão consensual, tão admirada e tão querida pelo povo, como Maria Barroso, um incomparável rosto feminino da República.
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